quinta-feira, 16 de junho de 2011

ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA: SOBRE ESTE BLOG E SOBRE A VIDA

Trago aqui apenas uma reflexão pessoal que nasce a partir do meu próprio olhar sobre este blog. Eu me explico: Olho para as últimas postagens e vejo meus textos seguindo dois caminhos distintos. Alguns são bem científicos, e acho que já não sei avaliar quão difíceis ou até inacessíveis eles são aos leitores deste blog. Continuo os escrevendo e postando, e não faço isso porque pretendo exibir conhecimento acadêmico (na verdade tento me fazer compreender e até simplifico alguns textos para este blog), mas porque eles expressam bem o que realmente ando pensando, aprendendo, trabalhando... Por outro lado, me orgulho quando consigo postar textos mais práticos. Eles também são reflexivos, às vezes teóricos, às vezes discutem interpretação de textos bíblicos, mas o número de acessos e de comentários destes textos demonstram que são de interesse bem maior para os leitores em geral. São dois caminhos que considero necessários, o teórico e o prático.


Anos atrás, a vida me exigia mais trabalhos práticos. Não que eu fosse um leigo desinteressado nas teorias, mas escrevia para a igreja, era uma necessidade, e acho que conseguia atingir os objetivos. Naquela época eu já fazia algumas tentativas mais teóricas, mas hoje vejo que toda a produção daqueles dias se caracteriza pela superficialidade. Aos poucos, vou apagando os arquivos, jogando fora os papéis, excluindo as postagens mais antigas do blog... Pode ser que eu, sem notar, esteja apagando minha própria história, mas estes gestos demonstram o meu amadurecimento.


A vida mesmo me levou a novos caminhos, e estas veredas acadêmicas que para alguns são penosas, me apaixonam. Conheci pessoas, livros, idéias e teorias. Fiz pós-graduação, mestrado e hoje faço doutorado, um desenvolvimento que pouco a pouco me faz cada vez mais teórico, cada vez mais científico, e ao mesmo tempo, menos popular. A tese que hoje desenvolvo me parece fascinante, mas sei que ela só será bem recebida nos círculos acadêmicos.


Pois bem, este blog, então, é minha “válvula de escape”. Faço aqui desabafos, falo outra vez de questões eclesiásticas, reflito sobre a minha vida e procuro também influenciar a vida de outros. O exercício da linguagem coloquial que aqui faço sempre me ajuda a manter-me próximo do leitor cristão não interessado nas teorias, mas hoje, vejo que mesmo estes textos que chamo de “práticos” possuem um nível de profundidade argumentativa que excede muito àquela dos antigos textos práticos. Enfim, a teoria me cativou e me fez mais cientista que cristão, porém, ela também me fez um cristão mais profundo.


É isso o que eu queria dizer nesta postagem: Tanto a preocupação teórica quanto a prática são indispensáveis. Quem deixa de ser um ouvinte “leigo” e entra para o time dos pregadores, escritores, professores e líderes, deve se preocupar com o aprimoramento teórico, com o estudo. Se queremos formar opiniões, que pelo menos formemos opiniões sensatas. O isolamento acadêmico também não é um bom caminho, tanta experiência deve sempre oferecer ao mundo alguma contribuição direta.


Enfim, eu temo falar de coisas que não conheço, e sou resistente àquelas pessoas que falam demais e acabam palpitando sobre tudo (pior ainda quando usam os “altares” ou os “títulos” para legitimar suas falas). Eu já fiz isso, mas o conhecimento me ajudou a evitar emitir meus juízos e falsas “verdades” de maneira descuidada. Quem possui conhecimento teórico, e preocupação com uma prática responsável, não cometerá tantos erros.

domingo, 12 de junho de 2011

EXPERIÊNCIAS MÍSTICAS E A INICIAÇÃO DE JESUS: MATEUS 3.16-4.11

Entre o final do capítulo 3 e o capítulo 4 há o que poderíamos chamar de “eventos visionários de Jesus. Pelo menos é assim que lemos estes textos, como experiências extáticas que iniciaram Jesus no ministério. Vamos falar rapidamente dos dois eventos místicos que envolvem o começo do trabalho de Jesus, sugerindo que os mesmos eventos juntam-se ao batismo já comentado, e formam uma espécie de estatuto para a iniciação de todo cristão. Noutras palavras, acreditamos que o cristianismo primitivo poderia ler estes eventos (batismo, visão, exorcismo e ascenção) como passos necessários a todos os discípulos de Jesus.


Primeiro, Jesus tem uma visão ao sair da água em seu próprio batismo (3.16-17). É difícil dizer se este evento foi testemunhado por outras pessoas presentes, ou se o propósito é dizer que apenas Jesus o vivenciou. Pode ser também, que só aqui Jesus tomou conhecimento direto de sua identidade messiânica. Pode ser que aquela voz ouvida tenha sido o momento decisivo que separou o Jesus galileu filho do carpinteiro, do Jesus messias de todos os povos.


O segundo momento começa quando, após o batismo, Jesus é “arrebatado” pelo espírito e vê-se no deserto, onde é provado antes de iniciar seu trabalho libertador em Israel (4.1-11). Na versão de Marcos não há um relato de tentações, mas apenas a idéia de que Jesus foi tomado pelo Espírito e levado ao deserto para ser tentado. Em todo caso, o importante é que este texto liga-se perfeitamente à tradição apocalíptica judaica, onde muitos visionários viam-se tomados por anjos ou seres celestiais e viajavam aos céus (Cf. Schiavo, 2003). No misticismo posterior, na literatura da chamada Hekhalot, estas ascensões tornaram-se verdadeiras aventuras, e os viajantes não apenas contemplavam os céus e as coisas que haveriam de acontecer ao mundo no futuro, mas eram provados, tinham que vencer obstáculos... Talvez estas tradições expliquem de alguma maneira a viagem de Jesus.


Então, não vemos a visão do batismo ou a ida até o deserto como eventos históricos, reais, mas como experiências extáticas, como arrebatamento dos sentidos, o que nos mostraria que estes textos não narram a vida de Jesus como alto tão próprio, como um desenrolar exclusivo, mas que há muitas similaridades com a vida de muitos outros profetas e visionários apocalípticos, místicos da religião judaica.


Voltamos então a anunciar nossa hipótese: acreditamos que a sequência de eventos pelas quais Jesus passa no texto antes de seu ministério poderiam servir entre os leitores dos evangelhos como um estatuto para novos adeptos. Se estivermos certos, todos deveriam imitar a trajetória de Jesus, batizando-se, jejuando, sendo exorcizados dos demônios, e vivenciando experiências místicas visionárias.

JESUS PROCURA JOÃO, O BATIZADOR: MATEUS 3.13-15

Nova perícope se inicia, e narrativamente há uma mudança que vale a pena observar. A partir do versículo 13 o narrador diz que Jesus vai até a Judéia (sul do país) para procurar o profeta João Batista. A impressão que temos é a de que está por traz da narrativa deste encontro um evento histórico, que é busca de Jesus por João e seu batismo. Porém, no processo de organizar as tradições sobre Jesus num evangelho, as coisas foram interpretas de forma que confirmassem a mensagem de fé dos cristãos de então. Assim, o Jesus que um dia foi discípulo de João, e que submeteu-se ao batismo confessando os seus pecados (conforme a exigência para todos os candidatos ao batismo), foi transformado. Ele não possuía pecados segundo os evangelhos, e por isso, seu batismo não passou de um gesto de obediência a normas religiosas; ao mesmo tempo, o profeta João que aparentemente foi um mestre de Jesus, é devidamente colocado num lugar mais secundário.


Em Mateus esse texto é particularmente estranho. O evangelho se nega a cumprir normas religiosas como essas. É uma contradição teológica: jejuns, orações rituais, sábado, sacrifícios... atos religiosos como esses são todos relativizados por Mateus, alguns até mesmo substituídos por “obras de misericórdia”, como veremos nos capítulos futuros. Mas o batismo parece ser um ritual que Mateus aceita, e por isso o texto faz Jesus, o homem que não tinha pecados, batizar-se para legitimar o ritual da comunidade. Os problemas teológicos foram resolvidos com aquele argumento de que Jesus, até ele, batizou-se para cumprir as normas do grupo que integrava. Nenhum leitor está livre para negar o batismo como rito de iniciação necessário, pois segundo o evangelho, até Jesus, que não precisava confessar pecados, não precisava de nenhum perdão, e que não tinha que mudar de vida, o fez para servir de exemplo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O FIM DA HISTORIOGRAFIA CRONÍSTICA E A INFLUÊNCIA DESTA MUDANÇA PARA A LEITURA DA BÍBLIA

Estamos dando início a mais uma série de reflexões, e desta vez, o tema de nossas discussões é a historiografia. Vamos falar sobre as grandes mudanças na historiografia que influenciaram também nosso modo de ver a Bíblia. Serão poucas seções, mas se conseguirmos atingir nossos objetivos, serão muito instrutivas para os leitores que desejam ler a Bíblia de maneira relevante para o século 21.



O primeiro ponto a ser mencionado é quebra de um antigo paradigma que praticamente inaugurou a historiografia como ciência. Trata-se da desvinculação daquela velha tradição da cronística, onde historiar era nada mais que narrar cronologicamente os eventos marcantes dos impérios, as trajetórias políticas, as vitórias militares, entre outros fatos selecionados que só diziam respeito a minorias elitizadas. Este tipo de tradição reunia documentos sem interpretá-los, privilegiava sempre os fatos mais notáveis, heróicos, e por conseguinte, negligenciava a realidade muito mais complexa da história humana, que não se limita às elites, às guerras, e aos momentos decisivos dos regimes políticos. A virada nesta situação ocorreu já a partir da influência do Iluminismo europeu, e consolida-se nos inícios do século 19.



Além da evidente abertura que essas novas perspectivas trazem para o florescimento de todas as chamadas ciências sociais, podemos dizer que a exegese bíblica desenvolveu-se significativamente nestes mesmos dias, principalmente através do chamado Método Histórico Crítico (MHC), que na verdade é uma coleção de métodos de análise dos textos que caracterizam-se por pressupostos típicos da historiografia do século 19, que poderíamos aqui chamar de historiografia positivista. O método é chamado “histórico” porque aborda as fontes (os textos bíblicos) como documentos históricos, produzidos em tempos passados, e que precisam ser estudados dentro de sua própria perspectiva temporal. Ou seja, dá-se grande importância ao “contexto histórico”, ao mundo em que os textos foram construídos, e à evolução dos textos no decorrer tempo. A exegese, conforme proposta pelo MHC, também é “crítica” porque analisa as fontes e emite juízos sobre os texto e seus significados, o que nos aproxima do caráter “explicativo” da historiografia de então.



O primeiro pilar do MHC, portanto, é a análise cuidadosa dos elementos externos ao texto, que supostamente iluminariam suas palavras obscuras e as tornariam inteligíveis para o leitor de hoje. Essa ênfase no histórico, todavia, segue princípios hoje muito questionáveis. Como é típico da historiografia positivista do século 19, acreditava-se que a boa aplicação metodológica seria capaz de desvendar o “fato histórico”, aquilo que realmente aconteceu e que eventualmente deu origem ao texto. Daí, exegetas antigos (e também exegetas atuais que insistem na utilização das antigas metodologias) empenharam-se na busca pelo “Jesus histórico”, pelo “Paulo histórico”, e pelo sentido original do texto, e claro, pela intenção original do autor. Acreditou-se que os bons exegetas chegariam àquilo que realmente Jesus dissera, à verdadeira igreja primitiva, e ao perfeito significado dos textos. Mas os anos se passaram e os resultados contraditórios das pesquisas levantaram desconfianças sobre a validade desse paradigma e sobre a eficácia desses métodos.



Há nos manuais de um passo metodológico que expressa bem o que estamos dizendo. Trata-se da “Análise da Historicidade do Texto”, que não busca outra coisa senão avaliar quão fiel ao “fato histórico” é o evento em sua forma narrativa. Se alguma passagem revela incoerências cronológicas, geográficas, ou qualquer outra forma de incoesão, passa a ser vista como narrativa ficcional, o que na prática significa que possui menor valor como documento histórico. Outra vez, estava por trás dessa avaliação a idéia de que somente o que realmente aconteceu possui importância, sendo que os elementos fictícios ou mitológicos deveriam ser considerados de menor relevância. Somente no século 20, e novamente a partir de novos paradigmas da historiografia, a exegese veio a repensar seus métodos e objetivos. A partir de então, o Método Histórico-Crítico e a própria exegese como ciência seriam transformados.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

JUÍZO CONTRA OS FARISEUS E SADUCEUS: MATEUS 3.7-12


Depois de discutir questões práticas sobre a liberdade do cristão, voltamos aos nossos comentários sobre o Evangelho de Mateus. O trabalho é longo, mas recompensador. Nas últimas seções comentadas falávamos sobre o profeta João Batista com suas ações e mensagem. Ainda há mais para dizer, agora a partir dos versículos 7 a 12 de Mateus 3. Há uma diferença entre esses versículos e os anteriores. Aqueles falavam do próprio profeta, da sua mensagem, da sua aparência, do seu ascetismo. Agora o texto dará mais espaço ao profeta, deixando-o falar do versículo 7b a 12. Porém, o narrador desta história introduz esta fala, dá lugar a ela, contextualiza-a.


No versículo 7 o narrador diz que João Batista começou a ser procurado por fariseus e saduceus. Sabemos ao sobre estes dois partidos, o primeiro, o dos fariseus, eram religiosos que nos dias de Jesus não tinham tanta influência política, e que estruturavam sua religiosidade sobre a interpretação e prática da Torah. Os saduceus eram menos numerosos, porém, mais influentes. Aparentemente estavam integrados à religiosidade centrada no Templo de Jerusalém e seus sacrifícios; não por acaso, depois do ano 70 E.C., quando os romanos destruíram Jerusalém e o Templo, os saduceus desapareceram.


É importante dizer que os fariseus e os saduceus (v. 7) não estão presentes nas versões de Marcos e Lucas. É Mateus quem dá nome às víboras e faz o profeta João anunciar juízo sobre os mesmos por meio de várias pequenas sentenças. Os fariseus são mais importantes aqui; esta é apenas a primeira indicação das diferenças e conflitos entre o grupo mateano e os fariseus que estão por trás da composição do evangelho. Este embate se intensificará no decorrer das páginas, e veremos que as inclusões mateanas visam condenar ou deslegitimar a religiosidade farisaica, que não eram importantes nos dias de Jesus, mas que estavam em rápida expansão nos dias em que Mateus escreveu seu evangelho, provavelmente entre os anos 80 e 90 E.C. Aos poucos nos aprofundaremos neste problema.


É fácil notar que temos então uma coleção de pequenas sentenças, todas anunciando juízo sobre os fariseus e saduceus, que por motivo desconhecido, procuravam João para batizar-se. Na primeira sentença, a exigência para que dêem frutos que demonstrem o arrependimento (v. 8). O evangelho acha que aqueles religiosos não estão cumprindo sinceramente a exigência de um arrependimento, pois suas obras continuam sendo más. Depois (v. 9), o texto discute a questão étnica, pois muitos dos judeus pensavam que estariam com Deus em seu reino simplesmente por serem descendentes de Abraão. Ou seja, eles criam numa predestinação, numa eleição da nação de Israel, e portanto, não dependiam de bons frutos. Mateus diz o contrário, que a descendência judaica não era sinal de “salvação”, e exige arrependimento e mudança de hábitos para todos. O versículo 10 conclui esta primeira coleção de ditos com uma analogia sobre a árvore que não dá bons frutos. Obviamente, tal árvore é como aqueles religiosos que não dão bons frutos e que serão cortados.


No versículo 11 João legitima o ministério de Jesus. Ele é maior que João, e é ele quem apocalipticamente traria juízo sobre a terra. Embora seja difícil explicar, a parte “b” do versículo ainda está relacionada a este juízo. Jesus batiza com o Espírito Santo e com fogo: o fogo é certamente uma imagem negativa, de punição, mas o batismo com o Espírito não está claro. Talvez seja a dádiva para aqueles que tiveram bons frutos e que serão poupados do fogo. Outra imagem é evocada para falar deste juízo, desta separação entre maus e bons no “Dia do Senhor”, e o versículo 12 diz que ele então limpará sua eira, juntando os “justos”, o trigo, no celeiro, enquanto que os “ímpios” seriam queimados como palha no fogo que nunca apaga.


Para encerrar nossos comentários, sugerimos que o leitor comece a prestar atenção às imagens apocalípticas de Mateus. O Senhor vem ao mundo para limpar sua eira, para purificar a terra da injustiça. Mateus segue a expectativa herdada de Isaías de um Reino de Deus na terra, mas numa terra restaurada, purificada. Não há arrebatamentos, novos céus nem ruas de ouro. Esta imagem, contrária à expectativa da maioria dos cristãos de hoje, ficará clara ao longo do nosso estudo; mas não vá generalizando as coisas, a Bíblia traz várias formas de esperança, que são contraditórias em grande parte. Assim, não há expectativas certas ou erradas, mas apenas esperanças.


terça-feira, 17 de maio de 2011

O QUE É LIBERDADE? O QUE É VERDADE?

As últimas postagens suscitaram discussões muito interessantes, e acredito que foram muito proveitosas para que lutemos por nossa liberdade cristã. Temos visto que não existem “sim” ou “não” fixos, mas que cada situação de nossas vidas exige reflexão, inteligência, sensibilidade. O homem ou a mulher livre é capaz de meditar nos problemas da vida, colocar o próximo em primeiro lugar, e decidir por si mesmo, sofrendo o mínimo de influências alheias e minimizando as consequências negativas de seus atos. Isso é ser livre, pelo menos em minha opinião.


Não lemos na Bíblia que a verdade nos libertaria? Então, o que é a “verdade”? Veja que a “verdade” não é tão simples como dizem por aí; você pode se tornar evangélico, ver-se livre de alguns pecados, mas acabar preso por normas humanas que não lhe deixam decidir a vida por si mesmo. Essa suposta “verdade” que as igrejas pregam liberta-nos de algumas jaulas, mas também nos mantém com várias algemas. A Bíblia como as igrejas lêem não liberta, os programas de rádio e TV evangélicos então, são verdadeiros calabouços.


Provavelmente eu não saberei definir a “verdade” como convém para encerrar esta reflexão, mas eu já sei ao menos definir o que não ela não é, e ela não é esse amontoado de regras, hierarquias, mandamentos, exigências, agendas, obrigações... Nada disso está servindo à vida, nada disso se parece com a liberdade proposta por Jesus.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O QUE É LIBERDADE? PODE O CRISTÃO VIVER SEM IGREJA?

Pode o cristão abandonar a igreja e viver seu cristianismo em casa?


Na Bíblia, a maioria das pessoas vivia sua fé no cotidiano do lar, na aldeia, no clã; igreja é coisa recente, e nunca foi elemento essencial para que alguém buscasse ou se relacionasse com Deus. Qual era a igreja de Jesus? Nenhuma, não haviam igrejas, e ele chama o Templo de Jerusalém de covil de ladrões, e é rejeitado pelas sinagogas da Galiléia. Jesus então passou a trabalhar sua vida religiosa e sua missão de maneira independente. É só um exemplo, mas pergunte-se também pela igreja de Davi, de Abraão, de Elias...


Não deixei de congregar, antes que me acusem; mas honestamente, não vejo onde a decisão pessoal de deixar a igreja pode ser considerada um pecado. Tudo depende do próximo, como sempre. Talvez você não tenha preocupações com sua fé, sinta-se seguro para viver sua religião de maneira independente. Mas deve se perguntar se é capaz de alimentar a fé da sua família também, se está apto a instruí-los em boas veredas, a protegê-los das eventualidades como se eles fizessem parte de uma rede de amigos (quase sempre) fiéis como é a congregação, e se é capaz de dar-lhes os padrões éticos que eles receberiam caso freqüentassem uma igreja. Se a resposta for sim, pergunte-se também se sua participação numa igreja não seria proveitosa às pessoas mais fracas, que dependem da igreja. Vale a pena abandoná-la? Você é livre para decidir.


Por outro lado, avalie a influência da sua igreja sobre você e sua família, e pergunte-se se esta igreja não serve como mais uma ditadora que priva o cristão da sua liberdade. Quando falamos sobre cigarros e bebidas, dissemos que o vício tira nossa liberdade, e isso me faz dizer não a tais coisas. Há igrejas que também querem nos viciar, exigem nossa participação várias vezes por semana, nos cobra caso deixemos de ir lá um domingo, e privam-nos da intimidade familiar. Qualquer tipo de limitação desse tipo é negativa. Sou livre para frequentar qualquer igreja, mas também sou livre para dizer quando quero ir ou não, quando quero participar dos projetos ou não, quando quero trabalhar nos ministérios ou não, e até quando quero ajudar financeiramente ou não... Não aceito ordens, preferiria me afastar, procurar outro lugar.


Para finalizar, temos que perguntar por que alguém que já é cristão e freqüentava alguma igreja agora quer ser independente. A motivação para este abandono pode ser errada, e não necessariamente uma questão de liberdade. Geralmente os homens livres não vêem problemas em estar em igrejas, em alimentar as amizades; mas eles não se sentem obrigados a estar ali todos os cultos, todas as semanas, e não acham que isso os afasta de Deus. Quando notamos uma repulsa excessiva para com igrejas, é sinal de que algo já está nos privando da liberdade de participar.


Outra vez, a escolha é nossa, mas a resposta não pode ser sempre a mesma. Nossas decisões são pessoais, temos avaliar os riscos, as consequências, medir os benefícios... Mas vivemos em sociedade, nossas decisões pessoais quase sempre afetam outros, e aí encontro limites para minha liberdade, pois Jesus só me pediu isso, que ame a Deus e ao próximo, que faça aos outros o que eu gostaria que fizessem por mim. Levando isso em consideração, posso ser livre.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O QUE É LIBERDADE? PODE O CRISTÃO DIVORCIAR-SE?

Nem adianta procurar a resposta na Bíblia, pois dependendo do texto que ler, vai chegar a uma conclusão diferente (eu já escrevi um texto sobre o divórcio com base em Mateus 5, procurem nos textos antigos se quiserem). Lembre-se que o amor ao próximo é a única Lei que realmente importa; esse é o ponto que pretendo destacar com todas essas postagens. Se você não leu o primeiro texto sobre “O que é Liberdade?”, volte lá e leia antes de responder a pergunta.


Geralmente, na igreja a resposta para o divórcio é não, mas aqui neste blog para pessoas livres esta resposta também pode variar. E isso não depende somente do adultério. Sempre digo que há casos em que o casamento foi um pecado maior que o divórcio. Muitos casais não se conheciam, não avaliaram suas incompatibilidades, e depois de casados vivem numa sucessão de pecados diários. Aí não existe somente o adultério, há também diferentes tipos ofensas, ódio, agressões, más influências para as crianças... Manter uma família presa à infelicidade não é cumprir o mandamento do amor, e neste caso eu provavelmente diria sim ao divórcio. Mas o divórcio é pecado? Talvez sim, mas em casos extremos, é um pecado que põe fim aos pecados diários do casal e oferece a chance de ele serem felizes algum dia.


Claro que é sempre preferível tentar solucionar o problema instruindo o casal, pois na maioria dos casos o divórcio é o resultado de não se praticar o mandamento do amor ao próximo em casa, e se isso não mudar, não há união que suporte. Pessoas problemáticas estragam relacionamentos e descumprem toda a Lei e os Profetas, e o casamento é apenas mais uma vítima desta doença.


Outra vez, a resposta depende. Aqui, a aplicação da lei de maneira padronizada é que é pecado.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O QUE É LIBERDADE? O CRISTÃO PODE FAZER YOGA?

A próxima pergunta foi sugerida por Evandro Marques da Silva. Ele escreveu-me um e-mail, e ao lhe dar minha opinião pedi para postar também esta dúvida no blog.



A pergunta é: pode o cristão fazer Yoga-Cristão? Essa é uma pergunta difícil para mim, já que não sei nada sobre o assunto. Já li alguma coisa sobre a Yoga ser uma prática não somente física, mas também religiosa, o que é um problema para os cristãos. Mas não sei se hoje existem pessoas que praticam Yoga sem qualquer conotação religiosa, embora a tradição seja daí remanescente.



Talvez isso seja como a carne sacrificada aos ídolos, algo que estava certamente ligada ao culto de outros deuses. Porém, Paulo diz que por não acreditarmos nesses deuses, o cristão come sem pecar. Eu, particularmente, não me negaria a experimentar essa Yoga-Cristã para ver como é. Caso algo me incomodasse, abandonaria. Quer dizer, eu não fugiria só por ouvir falar, pois há pessoas que ainda não são livres para decidir por si mesmas que acabam tentando nos aprisionar também. A decisão, neste caso, depende de mais conhecimento.



Mas deixe-me dar um exemplo radical antes de terminar. Meus pais são espíritas kardecistas, e quando vou a Goiânia visitá-los, eles querem que eu participe de uma reunião no lar onde lêem um trecho do livro dos espíritos. Na verdade não acho que este livro tenha algo a me ensinar. Sou biblista e vejo que quando os supostos espíritos comentam os textos bíblicos cometem sérios erros. Também não tenho interesse em ter contato com espíritos, não acho que a proximidade deles, ou a proteção, sejam necessárias, pois só creio mesmo em Deus. Todavia, sempre participo da reunião, pensando primeiro na comunhão familiar, e também por não querer me apresentar a eles como um fundamentalista radical que chama os deuses dos outros de demônios e torna-os cada vez mais arredios para com o evangelho.



Por tudo isso Evandro, deixo contigo a decisão.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O QUE É LIBERDADE? SEXO ANTES DO CASAMENTO, PODE?

Pode um jovem casal de namorados cristãos fazer sexo antes do casamento? Essa é outra questão difícil que gostaríamos de abordar dentro desta discussão sobre a liberdade cristã. Novamente, pensemos nos outros antes de responder.



O sexo entre os jovens não casados, o ato em si, pode não ser o problema, ou a razão para responder sim ou não. Como sempre, cada pessoa envolvida deve ser levada em consideração. Quão comprometidos estão as duas partes desta relação? Quão maduros são eles para fazer sexo com segurança? Algum deles pensa no sexo apenas como mero passa-tempo, diversão? As duas partes querem fazer sexo ou uma delas está sendo pressionada a tomar esta decisão pela outra? Não tenho uma resposta pronta para oferecer, hoje eu diria sim ou não a partir de uma análise cuidadosa da situação.



Como eu disse quando falávamos sobre o apoio aos homossexuais algumas postagens atrás, o casamento não acontece quando assinamos alguns papéis, e na verdade, há jovens namorados mais “casados” (ou seja, mais comprometidos e devotados um ao outro) do que muitos casais que estão com os papéis em dia. Não dá pra dizer hoje pode, ontem não podia, com base apenas nos documentos. Que o critério para se tomar esta decisão esteja sempre baseado no amor ao próximo.