quinta-feira, 3 de março de 2011

O JUSTO JOSÉ E O NASCIMENTO DE JESUS: MATEUS 1.18-25

Depois da genealogia de José, o autor do evangelho de Mateus dedica-se à impossível tarefa de fazer da vida de Jesus o cumprimento de profecias do Antigo Testamento. Ele narra eventos fictícios como se fossem reais, moldados cuidadosamente para que se encaixem nas suas próprias expectativas messiânicas. Veremos isso passo a passo, para começar, com a história do nascimento de Jesus.


Quando Maria ficou grávida, ela era uma moça provavelmente muito jovem, já prometida em casamento a José, um homem de mais idade. Mas em Mateus o conflito é com José, a narrativa foca-o e faz de Maria personagem secundário. Na verdade, no evangelho de Mateus e em sua história da infância de Jesus, não há nenhuma ênfase na personagem Maria, como vemos em Lucas. Sempre é José quem recebe os avisos em sonho e conduz o menino Jesus pelos caminhos que a ele estavam determinados.


Na narrativa, José fica sabendo que sua noiva está grávida, e só podia pensar em imoralidade. Entretanto, por ser ele um homem “justo”, José salva a reputação de Maria assumindo a responsabilidade pela gravidez. Isso é o que observou Paulo R. Garcia, quando mencionou esta passagem em um artigo de 1996 (Garcia, 1996, p. 64). Então, José é chamado “Justo” provavelmente por ter assumido a culpa publica pela gravidez e preservar a imagem e a vida de Maria, ainda que ele não estivesse mais disposto a casar-se com ela. É possível que a saída seria a fuga de José, o que faria com que a sociedade o culpasse pela gravidez, poupando Maria, que para ele ainda era culpada.


O epíteto de José, “justo”, é importante para Mateus; é a maneira como ele descreve aqueles que praticam a verdadeira Lei (Lima, 2009). Para este evangelho, amar a Deus e ao próximo resume a Lei e os Profetas (Mt 22.36-40); noutras palavras, os judeus-cristãos devem fazer ao outro aquilo que você quer que os outros vos façam (Mt 7.12). José é o primeiro exemplo desse tipo de atitude “justa”, é isso o que o faz especial, o escolhido para a missão de defender e conduzir o menino Messias em seus primeiros anos. Esse texto nos oferece os primeiros parâmetros da moralidade mateana, que interpreta a Lei para benefício humano e não para condenação.


Depois que José prova sua “justiça”, seu valor moral através da valorização da vida alheia, um anjo lhe aparece em sonho para dizer que Maria não engravidara de outro homem, mas do Espírito Santo, pelo que José, aliviado, decide casar-se e torna-se um auxiliador do projeto divino.


A seguir (1.22-23) vemos o autor declarar abertamente que tudo o que aconteceu tinha relação com uma antiga profecia, que pode ser lida em Isaías 7.14. Diferentemente do que vimos na genealogia, aqui Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e o mais relevante disso tudo é que a preexistência da profecia isaiânica e a fé nela é o que motiva a adequação das tradições sobre a infância de Jesus. Ou seja, a profecia e a interpretação que os judeus deram a ela delinearam a composição das narrativas sobre a infância de Jesus, e não o contrário. Fazer de Jesus alguém gerado diretamente por Deus, e não por um homem, era uma exigência anterior ao texto evangélico. Temos aqui o elemento que nos conduz à primeira conclusão sobre a teologia mateana; o evangelho preocupa-se em fazer de Jesus um continuador da tradição vétero-testamentária. A vida de Jesus deve, para satisfazer às expectativas religiosas do autor, cumprir as profecias supostamente messiânicas, contendo em si mesmo as características heróicas de personagens como Davi e Moisés, como veremos nos próximos textos.



Referências Bibliográficas



GARCIA, Paulo Roberto. Lei e Justiça: Um Estudo no Evangelho de Mateus. In. Estudos Bíblicos, 51. Petrópolis: Vozes, 1996, pp. 58-66.


LIMA, Anderson de Oliveira. Os Justos e os Profetas: Designações para os Judeu-Cristãos no Evangelho de Mateus. In. Revista Metanoia. Universidade Federal de São João del-Rei, 2009.

3 comentários:

atendimento disse...

Com todo seu nohall em Ciências da Religião, gostaria que me desse sua opinião sobre o artigo disponibilizado em:

http://www.sociedadedespertalista.org.br/artigos/a_biblia_e_a_palavra_de_deus.html

Abrços.

Anderson de Oliveira Lima disse...

Oi amigo! Pode se identificar para que nos comuniquemos?

Eu dei uma passada de olhos no texto. É assim, eu encontrei argumentos equivocados, exemplos inocentes de quem não é especialista em Bíblia. Todavia, as intuições do autor são boas, mostram que a Bíblia possui seu lado humano, que contém problemas que não coincidem com nossa maneira de imaginar Deus.

Porém, não sei ao certo qual a intenção do site e projeto, mas parece positiva a idéia de procurar a Deus diretamente, sem a intermediação de líderes religiosos que monopolizam as divindades que eles desconhecem tanto quanto nós. O ar do site é herético, mas todos aqueles que ousam pensar por conta própria são hereges, isto é, não adequam às limitações de pensamento imposta pelas instituições religiosas.

Enfim, prefiro não dizer que apoio ou não, pois não conheço o site. Mas este blog é também um meio de incentivar a livre interpretação da Bíblia, coisa que as igrejas temem.

Voz de denúncia disse...

Deixarei outros comentarem pois não tenho gabarito para isso,srsrsrs.....

Seus artigos são libertadores professor, mais faria qualquer religioso se contorcer na cadeira e babar de raiva, a alguns semestres estaria em contorcendo tambem srsrsr.