terça-feira, 15 de março de 2011

OS MAGOS E O MESSIAS DAVÍDICO: MATEUS 2.1-12

Nossa leitura do evangelho de Mateus, como já se pode notar, não é tão exegética quanto poderia ser. Não estamos trabalhando os textos em todos os seus detalhes e nem pesquisando fontes bibliográficas que nos auxiliariam na tarefa de interpretar o texto. O objetivo aqui é exercitar nossa leitura espontânea, aguçar nossa percepção aos enfoques do texto sem a influência de terceiros. Essa leitura espontânea, todavia, mostra-se insuficiente em alguns textos, como Mateus 2.1-12. O texto é misterioso para nós, contém detalhes que a mera leitura não nos permite desvendar. É provável que sua audiência primitiva compreendesse seus símbolos, mas nós permanecemos ignorantes. Mesmo neste caso, nossa leitura é capaz de destacar pontos de primeira importância para o evangelho.

O texto fala dos magos. Não diz que são três, não diz que são reis, e nem diz quais são seus nomes ou origem. A informação escassa dá margem à imaginação, e a tradição cristã é prova disso. Para os cristãos de hoje é difícil compreender o que fazem esses magos no texto. São gentios que se caracterizam por atividades “mágicas”, talvez como curandeiros populares, ou milagreiros, ou videntes, ou talvez consultem oráculos... Em todos os casos, a prática deles seria recusada pelo cristianismo. Então, o que fazem esses magos no texto de Mateus?

O texto começa dizendo que Jesus nasceu em Belém da Judéia (v. 1). Não é segredo que esta é a cidade que também deu origem ao rei Davi, lembrado pela tradição popular como o legítimo rei de Israel. A família de Jesus, em Mateus, não vem de Nazaré como em Lucas, eles já moram em Belém; o menino não nasce durante uma viagem e nem numa manjedoura, mas em casa (v. 11). O evangelista Mateus também tenta ligar as memória históricas de um Jesus de Nazaré com a cidade de Belém, da qual ele acreditava que sairia o Messias (segundo sua leitura de Miquéias 5.2); mas para isso usa uma narrativa totalmente diferente. O importante aqui, é que Jesus deve ser visto como um novo Davi, é um Messias rei, que veio ao mundo para assumir o lugar de líder da nação. Noutras palavras, ao relacionar Jesus com Belém, Mateus está ensinando seu leitor a entender Jesus como um novo Davi. Esse é o Messias que ele esperava, e é preciso fazer Jesus atender a esta expectativa.

Herodes, o Grande, entra em cena como um rei fingido que secretamente planeja destruir o menino Messias. Ele também parece acreditar nas profecias, já que elas trouxeram do oriente os magos que procuravam pelo “rei de Israel”. Como sabemos, Herodes morreu em 4 a.C., e isso nos aproxima um pouco da data que Mateus atribui ao nascimento de Jesus.

Enfim, nossa opinião é a de que este texto pretende, acima de tudo, legitimar Jesus como o Messias, o novo Davi que reinará sobre Israel. Ele, contra as probabilidades históricas, faz Jesus nascer em Belém, e ser perseguido por Herodes. Os magos, neste caso, exercem um papel importante, pois são gentios que provavelmente entenderam que o Messias estava para nascer em Belém através de suas próprias magias. Isso serve como uma advertência aos judeus, que não reconheciam com a mesma prontidão o Messias que Deus enviou diante dos seus olhos, e mostra que Jesus, desde o princípio, veio para ser adorado por todas as nações. O texto de Mateus 2.1-12 dá-nos, assim, as primeiras indicações de que o evangelho judaico-cristão de Mateus é, na maioria das vezes, aberto aos gentios que ignoram as Escrituras e crêem, e hostil para com o povo judeu que não aceita sua mensagem. O bom leitor deve, daqui por diante, ler o evangelho consciente de que o mundo está aberto para Jesus, mas nem tanto os judeus; e deve também lembrar-se de que este Jesus, anunciado pelas profecias, atende às expectativas daqueles que esperavam um novo governo davídico.

Um comentário:

keiker disse...

Eu ja desconfiava que os caras não eram reis e essas coisas ai, mas continuo acompanhando as analises de mateus, muito bom mesmo.