sexta-feira, 18 de março de 2011

A TERCEIRIZAÇÃO DA FÉ



Ontem, numa aula do doutorado, o professor que conheci recentemente, Dr. Rui de Souza Josgrilberg, comunicou-nos algumas palavras que achei que poderia transmitir aos leitores deste blog. A aula era sobre um texto difícil de Paul Ricœur, mas o que entendi mesmo foi o que ele disse sobre um fenômeno que atinge as igrejas protestantes desses nossos dias. Vou então resumir com minhas palavras o que disse o professor, e depois, quem sabe, acrescentar algumas reflexões próprias.

Segundo Josgrilberg, os cristãos de hoje têm terceirizado, a exemplo do que têm acontecido no mundo corporativo, a própria experiência religiosa e a leitura da Bíblia. Embora a reforma protestante tenha nos legado o direito de ler a Bíblia pessoalmente, em nossa língua, em diferentes traduções, e com preços bem acessíveis, os cristãos do século XXI não usufruem deste direito, e deixam por conta dos pastores a tarefa de escolher os textos, lê-los, e interpretá-los. É verdade, grande parte dos cristãos não lê a Bíblia a não ser pequenas porções que são lidas coletivamente nos cultos. Eles preferem acreditar que o pastor é mais apto para tal tarefa e que o que ele lhes transmite é correto e suficiente. Isso, obviamente, é um engano. A Bíblia não está sendo bem lida, bem interpretada e transmitida; na verdade, de maneira consciente ou inconsciente, os líderes religiosos acabam por utilizar-se dessa exclusividade no acesso às Escrituras para manipular o povo crédulo.

Digo sempre as pessoas, mesmo aquelas que lêem a Bíblia, na verdade não e ouvem. Acontece que as igrejas em geral possuem já suas próprias interpretações, e fazem questão de ensiná-las a todos, com a intenção de auxiliá-los no seu caminhar cristão. Todavia, essa ajuda é também a maneira de não permitir que nós tenhamos acesso ao texto diretamente, há sempre esse filtro, essa interpretação “oficial” se interpondo entre nós e o texto, e nos impedindo de ouvir a verdadeira voz do texto. Neste caso, eu levo mais adiante a crítica do Dr. Josgrilberg, pois além daqueles que delegam ao pastores a interpretação do texto, também considero quase sempre inútil a iniciativa dos cristãos quando lêem a Bíblia e permanecem vendo nela aquilo que antes ouviram da igreja. As postagens recentes sobre os textos de Mateus, pretendem exatamente testar e ensinar os cristãos, para que leiam a Bíblia diretamente, com transparência e honestidade, sem preconceitos, sendo capazes de exprimir opiniões pessoais sobre o que o texto lhes parece, mesmo quando essas impressões contrariam a fé evangélica.

Mas as palavras do meu professor também falavam da terceirização da “experiência religiosa”. Eu vou definir isso de maneira bem simples, como as experiências que temos com Deus, seja qual for nossa fé. Estados alterados de consciência, oráculos, expressão de dons espirituais, possessões, sensações de toque pessoal ou audições de palavras não humanas... tudo isso pode ser experiência religiosa. Estas, que para mim, são as verdadeiras razões para que alguém creia nalguma coisa, também são terceirizadas hoje em dia. Muitas pessoas não encontram Deus em casa, nas suas orações, nas suas meditações, em cultos particulares; elas preferem esperar pelo domingo, para que a música da igrejas lhes comova, para o pastor, com mais encenação do que conteúdo, lhes emocione. São necessárias campanhas, vigílias, rituais e mais rituais, todos com o propósito de proporcionar experiências religiosas para cristãos dependentes.

Entendo a Bíblia como parte fundamental da minha fé, da minha vida religiosa. Sou apaixonado pelos princípios que dela aprendi e ainda guio-me por suas palavras, ainda que não as entenda como as igrejas entendem. Mas acima disso, eu também acredito, e defendo sempre diante dos meus alunos e amigos, que os alicerces da fé não estão no conhecimento, em provas, na razão, e nem mesmo nos texto Bíblicos, mas nas experiências religiosas pessoais que temos. Até a Bíblia, quando lida sem esta experiência, é apenas um livro antigo, motivo pelo qual incentivo a busca pessoal por Deus, sem moletas, sem auxílios eclesiásticos, sem métodos teológicos. Acho que não devemos permitir que as experiências e interpretações de outros, que não são em nada superiores, guiem nossa fé. Essa liberdade é um direito nosso, do qual não devemos abrir mão.

6 comentários:

anderson lima disse...

Muito bom!
Embora nunca tivesse pensado nisso, inconscientemente existem muitos que, assim como eu, temos fé baseado nas experiências e buscas individuais.
Parabéns bom post! Gostei muito deste e fica para os meus favoritos. Abraços!

keiker disse...

E eu me atrevo a usar como titulo Voz de Denuncia, como eu queria que todos pudessem ler esse texto, formidavel fantastico...

Como e dificil ler um texto sem os dogmas de nossas intiuições, a igreja como intermediadora deveria nos proporcionar ferramntas de ajuda na interpretação biblica, mas pacotes prontos são o que as igrejas oferecem, eo que os fieis adoram.

É bem mais facil reproduzir o que o semi-analfabeto do Pastor fala do que buscar as minhas proprias respostas, isso exige tempo, trabalho, e estamos no tempo do fast food.

Veleu foi de grande proveito.

Espero ancioso pelos estudos de Mateus.

Francisco Junior disse...

Depois de um longo tempo ser ler seus textos por falta de tempo, hoje renovei minhas esperanças com este belissímo texto.

Com certeza irei compartilhar com outras pessoas está bela proposta.

Apesar de encontrar resistência em alguns "solos sagrados" lido com isto como uma missão, levar o Evangelho que liberta da "gaiola da religião"

Suas observações vão muito além das minhas percepções que descrevi.

Com sempre faço, farei uma segunda leitura. Quero trazer a "praxis" a liberdade de ler as Escrituras sem lentes alheias.

Anderson de Oliveira Lima disse...

Oi amigos!!!

Fico feliz de ver que este texto, escrito despretenciosamente, lhes alcançou. O evangelho libertador que aí está não se deve às minhas posições políticas, é apenas o resultado de minhas leituras honestas. Mais do que ler meus textos, não desistam de estudar a Bíblia sob uma ótica pessoal, sem preconceitos, para que encontrem também a mensagem de vida que ela traz, e para que se juntem a mim como mensageiros de um Jesus muito mais humano do que aquele que as pessoas procuram nas suas "campanhas".

Abraços. Obrigado pela atenção mais uma vez.

Olher disse...

Não acredito que seje tão difícil ler e entender a bíblia, como dizem e pensam muitos dos cristãos, acredito que o maior problema está nisso;quando nos chegamos a bíblia, já vamos a ela como que sabendo de tudo, que ela nos quer falar e ensinar.
Gostei quando você disse: que os alicerces da fé não estão no conhecimento, em provas, na razão, e nem mesmo nos texto Bíblicos, mas nas experiências religiosas pessoais que temos. Poxas isso é demais... pois é isso que imagino que impulsionou o escritor da carta aos Hebreus a relatar aqueles nomes dos HEROIS DA FÉ, " experiência com DEUS, e não com texto".
abraços mestre

Silvinha disse...

ótimo texto e seus comentários idem. vou partilhar no meu Mural do Facebook pra que mais pessoas venham a ter seus olhos abertos. obrigada :-)