quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CONHEÇA OS MANUSCRITOS DA BÍBLIA

Hoje não trago nenhuma reflexão nem exegese. Trago curiosidades bíblicas, imagens para complementar nossos conhecimentos.

Nas aulas, falo muito sobre a construção dos textos bíblicos, sua história, e sobre o processo que nos permite ter acesso hoje a um texto coeso e completo. Resolvi então indicar aqui dois sites que nos permitem visualizar alguns desses manuscritos.

O primeiro é: http://www.csntm.org/manuscript. Este site traz breves descrições dos manuscritos do Novo Testamento e nos deixa visualizar muitos deles em fotos de alta resolução. É um excelente auxílio para a crítica textual do Novo Testamento.

O outro site que quero indicar é este: http://dss.collections.imj.org.il. Este traz alguns dos mais completos textos achados em Qumran, os Manuscritos do Mar Morto. Vejam, por exemplo, o rolo de Isaías, que está muito bem preservado. É possível ampliar a imagem e ver até a tradução instantânea ao passar o mouse pelos textos.

Detalhes, as imagens são universais, mas os textos bíblicos são mais limitados, em grego e hebraico. Os sites são em inglês, mas só de poder ver como são alguns dos manuscritos que hoje dispomos já vale a consulta.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DE CHICO BUARQUE À BÍBLIA: PARA ANÁLISES EXTRA-TEXTUAIS

O texto que lhe apresento é parte do “curso de exegese bíblica” que estou produzindo. Preparei uma introdução ao capítulo sobre as análises extra-textuais fazendo uma breve análise de uma canção de Chico Buarque, para que os mesmos problemas depois sejam transferidos à tarefa de analisar textos bíblicos.

Vamos direito ao ponto. A canção que estudaremos parcialmente é “Barafunda”, do disco “Chico” de 2011 (http://www.youtube.com/watch?v=ioq7DaOCU_8). No samba, o enunciador ou narrador é construído como um homem de idade avançada, que lembra fatos históricos passados e apresenta problemas com a própria memória. Nesta canção ouvimos o seguinte verso:

E salve este samba / Antes que o esquecimento

Baixe seu manto / Seu manto cinzento.

A princípio o pedido para “salvar” o samba pode parecer uma exclamação ou exaltação, mas no contexto do esquecimento ele também nos remete à necessidade de registrar o samba, num armazenamento digital de um arquivo de som, por exemplo. Ou seja, o próprio samba que está sendo cantado deve ser preservado para que não se perca em meio às falhas da memória do seu compositor. Ao ouvir esta canção, alguém que aprecie este gênero musical pode se lembrar de outro samba mais antigo chamado de “Cor de cinza” de Noel Rosa, que só foi gravado em 1955, vários anos após a morte do compositor. O caso é que este belíssimo samba já trazia o termo “cinzento” várias vezes (todo o céu ficou cinzento..., ao ver o carro cinzento..., de pelica e bem cinzento...), e conta exatamente a história de um “esquecimento” (A luva é um documento / com que provo o esquecimento / daquela que me esqueceu / A luva é um documento / de pelica e bem cinzento / que lembra quem me esqueceu). A referência ao samba de Noel Rosa não e explícita, mas como intérpretes, podemos levantar a hipótese de que exista alguma relação entre os dois sambas.

Poderíamos argumentar para defender nossa hipótese dizendo que o compositor mais recente, numa entrevista à Rádio Eldorado em 1989, quando respondeu quais são seus compositores favoritos, citou o nome de Noel Rosa em primeiro lugar, e depois disse: “Eu citava Noel no samba A Rita. Eu fiz algumas canções à maneira de Noel. Claro que Noel me marcou muito”.[1] Provavelmente Chico Buarque ainda tem na memória muitos fragmentos de Noel Rosa, e nesta canção mais recente utiliza-o novamente, embora não possamos afirmar que esta ligação tenha se dado de maneira consciente.

Este tipo de relação entre dois textos é o que chamamos de intertextualidade. Mesmo que a lembrança tenha se dado de maneira inconsciente, isso não mudaria nosso juízo sobre a relação intertextual entre as duas canções. Não sabemos se Chico Buarque, o autor-real, pensou em colocar Noel Rosa no seu novo samba, mas isso não é tão importante, pois esta pergunta nos dirige a uma instância que não é relevante para nós, intérpretes de documentos milenares. Se nosso narrador é um compositor de samba de idade muito avançada, é natural no nível literário que este personagem, o autor-implícito, tenha na sua desfocada memória reminiscências do talentoso Noel Rosa. É bem verdade que talvez não sejam muitos os ouvintes capazes de entender o jogo intertextual, o que é uma característica da intertextualidade.

Mas isso não é tudo. Na mesma canção há outro verso que podemos empregar como exemplo. Chico canta:

Foi Garrincha

Não, foi de bicicleta

Juro que vi aquela bola entrar na gaveta

Tiro de meta...

Ainda demonstrando confusões com suas lembranças, o cantor agora traz palavras que não são de conhecimento tão limitado quanto aquelas que desenterramos de um samba de Noel Rosa; elas já não se restringem a um livro ou a uma canção mais antiga, e o uso que delas é feito não pode ser compreendido simplesmente por meio de uma consulta ao dicionário. Agora, a interpretação das expressões dependem de conhecimentos externos, que estão disponíveis na cultura, na sociedade do compositor e de muitos dos possíveis destinatários dessa comunicação.

Os dicionários coletam algumas das possibilidades interpretativas para as palavras, aquelas possibilidades mais comuns, mais prováveis, mais recorrentes, mas não todas. Neste caso, é provável que a consulta a um deles não ajudasse muito para entender que “bicicleta” é, na linguagem futebolística, um tipo de chute em que o atleta acerta a bola no ar enquanto gira o corpo para que ela se projete para trás de si. Tampouco os dicionários nos ajudariam a entender que “gaveta”, na linguagem futebolística, se refere aos cantos superiores do gol, locais considerados privilegiados para um chute, pois os goleiros geralmente não são capazes de alcançá-los. Agora estamos diante de um caso de interdiscursividade.

Não fomos capazes de identificar uma fonte privilegiada para a compreensão dessas palavras como fizemos no primeiro exemplo; as significações que estão em pauta não são tão formalizadas, e por conta disso uma interpretação mais adequada só será simples para aqueles que pertencem a comunidades próximas à do autor, que compartilham desses mesmos conhecimentos acordos de linguagem socialmente desenvolvidos. Agora o personagem de Chico Buarque não se comunica com os ouvintes por meio de textos, canções, livros; não quer lançar códigos decifráveis apenas àqueles que também tiveram acesso àquelas mesmas fontes; desta vez ele se comunica através de acordos tácitos da cultura brasileira, para um público mais amplo, porém, utilizando-se de fontes informais.

Essas nossas observações sobre as canções podem não parecer simples, agora imagine se não soubéssemos nada sobre Noel Rosa e Chico Buarque, se em vez de ouvir os sambas só tivéssemos pedaços de papel com as letras, evidências que talvez nem nos permitissem saber quem se inspirava em quem. E se estivéssemos fazendo essa análise num tempo e lugar em que termos como “garrincha” são enigmáticos, e onde o futebol inexistisse. Talvez toda aquela estrofe que têm o esporte como pano de fundo permaneceria indecifrável. Antes de analisar o significado dos termos e as relações de intertextualidade, precisaríamos estudar o próprio país e tempo dos textos, e quem sabe reconstruir o futebol e seu vocabulário típico. Imagine agora quantos problemas desse tipo não existem para impedir nossa compreensão dos textos bíblicos, que foram escritos há milênios e em lugares e culturas completamente diferentes das nossas. É por essa dificuldade que para a interpretação bíblica não podemos abrir mão das análises extra-textuais, onde definimos uma “teoria literária” com hipóteses sobre o tempo e o lugar do texto, e verificamos suas relações intertextuais e interdiscursivas.



[1] http://www.chicobuarque.com.br/texto/mestre.asp?pg=entrevistas/entre_eldorado_27_09_89.htm

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DICAS PARA A SUA BIBLIOTECA PESSOAL

Aprendi com os anos a apreciar o conhecimento, e com ele o estudo e a leitura. As coisas não foram sempre assim comigo, não fui bom aluno até os últimos anos do ensino médio, mas desde a faculdade (que terminei em 1999), tornei-me um excelente aluno. Segui sempre estudando desde então, fiz um daqueles antigos cursos técnicos de processamento de dados, fiz música, mais música, teologia, até estudei para ser corretor de seguros, pós-graduação, mestrado e estou no doutorado. Nestes anos, ganhei experiência no estudo e aprendi a aproveitar melhor meu próprio tempo de estudo, assim como meu dinheiro. Este texto tem por objetivo transmitir parte dessa experiência, especialmente no que diz respeito aos livros. É bom dizer que tenho em mente os estudantes de teologia com os quais convivo atualmente, embora as dicas possam ser aproveitadas por todos os leitores que gostam de estudar e ler como eu.
A primeira dica pode parecer surpreendente, mas é a seguinte: você não precisa de milhares de livros em sua casa, pense em ter uma biblioteca limitada, mas que dê prioridade à qualidade dos volumes. Aprendi a não comprar todos os livros, pois a grande maioria dos livros que adquirimos só ocupam espaço. Os livros certos para comprar são aqueles que usaremos pela vida toda, ou por muitos anos. São os dicionários, as gramáticas, os manuais de metodologia, os livros que tratam de temas abrangentes, e que vez ou outra estamos consultando. Aqueles livros que lemos de uma vez e não voltam a ser consultados, não são boas compras. Não quero dizer que não devemos ler estes livros, só que deveríamos evitar comprá-los.
Quem gosta de ler deve ter amigos que gostam de ler, e trocar livros para economizar. Quem gosta de ler deve ter acesso a alguma biblioteca, de onde possa tomar livros desse tipo emprestados sem ter que gastar dinheiro com eles. Caso você já tenha muitos desses livros que só servem uma vez, faça como eu, venda-os ao sebo. Eu não tenho qualquer relação sentimental com os livros, e por isso não tenho problema em vendê-los, ou doá-los. O que me incomoda é ver aquele livro que com certeza eu nunca mais vou ler na minha prateleira. Com o tempo nós evoluímos, e os livros não, e por isso é muito comum deixarmos de apreciar livros que no passado foram importantes. Pare de ser materialista e dê um fim nisso. Ah! Se o livro não presta, deve ir para o lixo; não presenteie ninguém com lixo.
Outra dica importante é aprender a usar a internet. Eu tenho uma biblioteca com centenas de títulos no computador, com mais títulos do que tenho em minha biblioteca física. Livros que eu não poderia ter em mãos, a maioria importados, caros, mas que pela internet eu pude adquirir. Sei que há quem não goste de ler no computador, mas a tecnologia está evoluindo para acabar com essa dificuldade, e provavelmente num futuro breve só pessoas que realmente não se adaptam a novas tecnologias farão questão de ler no papel. Atualmente também prefiro ler no papel, mas isso não me impede de usar muito o computador. Há muitos livros que só queremos por um capítulo ou outro, e o computador é o melhor meio de acessá-los.
Então eu diria que não devemos comprar todos os livros que queremos ler. Por outro lado, também não precisamos ler todos os livros que compramos ou que temos em mãos. Desisti faz tempo dessa mania perfeccionista de sempre querer terminar os livros que começo a ler. Isso é um grande desperdício de tempo! Há livros que são horríveis, e não merecem tanto tempo assim. Aprenda a parar a leitura, e a selecionar bem o que realmente deve ser lido, e a pular de capítulo quando notar que esse não é o que procurava. Se você é dessas pessoas que amam mais o livro do que o conhecimento, comece a se libertar fazendo algumas doações e vendas, aprenda a riscar os livros pra valer, o que facilita na hora de novas consultas.
Outra dica, mais específica aos estudiosos da religião. As editoras católicas são muito melhores que as evangélicas, e até os bons autores evangélicos só são publicados pelos católicos. Assim, se você é evangélico, precisa aprender a entrar nas livrarias católicas da Praça da Sé e nunca mais pisar na rua Conde de Sarzedas. Quer saber o que é bom nas edições evangélicas? Só as capas, o conteúdo costuma ser horrível, limitado a repetir os dogmas da denominação que está por trás da editora. Para não generalizar, procure saber mais sobre os autores dos livros. Cuidado com pastores sem formação que um dia resolvem escrever para aproveitar um pouquinho mais do seu público; cuidado com os “grandes” relançamentos de clássicos do século XVI que já deveriam ter sido enterrados, mas que sobrevivem porque seus editores ainda estão no século XVI; cuidado com quando ver evangélicos discutindo ciência e evolucionismo; e cuidado com o fundamentalismo e com as promessas de prosperidade dos norte-americanos.
Outra maneira de economizar dinheiro com seus livros é ter paciência e pesquisar. É assim, descobriu que há um título importante que precisa ler, ou há um assunto que precisa pesquisar, então não vá comprando qualquer coisa que encontrar. Primeiro entre na internet e veja se não encontra esse autor ou outros livros sobre o mesmo tema para baixar. Mesmo se você não gosta de ler no computador, pode ler algumas poucas páginas para avaliar o livro antes de comprar. Para comprar, pesquise sobre o seu autor ou seu tema no site das grandes livrarias, aí você saberá quando custa o livro, e provavelmente descobrirá que há vários outros títulos que talvez sejam melhores que o que tinha mente. Segundo, faça uma lista dos livros que lhe interessam, e procure comprá-los de algum distribuidor conhecido, ou espere por eventos como feira de livros, que sempre oferecem descontos atrativos. Mesmo assim, sempre esteja ciente de que o livro (falo do material e não do conhecimento nele contido) não vale o que você pagou, a não ser que tenha pago algo em torno de 5 reais por cada 100 páginas, o que é muito raro.
Se quer saber um modo mais inteligente para fazer boas comprar, consulte pessoas mais experientes. Se você quer um livro de história da igreja, por exemplo, procure um professor da área e anote suas sugestões. Os riscos de errar na compra serão bem menores. Se o livro que ele lhe indicar for ruim, mude de professor; é o jeito.
Eu só tenho uma dica que talvez te faça gastar mais dinheiro em vez de economizar, mas as ocasiões são raras. Como trabalho com exegese, ou seja, com interpretação bíblica, eu leio muito a respeito, e tenho vários livros do mesmo assunto. Se você se identifica com algum tema, ou se quer mesmo se especializar nalgum assunto, tal dedicação é necessária. Neste caso, eu prefiro ler três livros diferentes sobre o mesmo assunto do que ler o mesmo livro três vezes. Com o tempo você aprende a avaliar pelos sumários os livros de sua área, e já não comprará qualquer coisa.
Falando agora de Bíblias, pare de ser um colecionador, ninguém precisa de 15 Bíblias. Para os estudiosos, três ou quatro são suficientes, para os demais, bastam uma ou duas. A Bíblia é um livro barato, de domínio público, cujos autores não recebem direitos autorais, e por isso nenhuma Bíblia deveria custar mais do que 30 reais. Dê preferência às mais baratas, e tenha duas ou três versões bem diferentes umas das outras. As Bíblias de estudo são lançadas para que se possa cobrar 70, 100 ou mais por elas. Fuja imediatamente de todas essas publicações! Na maioria das vezes aquelas notas de rodapé só atrapalham sua própria interpretação, tentam doutrinar o leitor. Então, não é com Bíblias que vamos gastar nosso dinheiro. E mais uma coisa: uma Bíblia é um punhado de papel como qualquer outro livro, e se você acha que algo ali é sagrado, é só o conteúdo, não o papel. Com o desgaste, acredite, até as Bíblias precisam ser descartadas. Não é pecado jogar uma Bíblia fora; pecado é usar a mesma Bíblia por vinte anos, e quanto ela estiver caindo aos pedaços, fazer caridade, levar à igreja para “ajudar” os irmãos. Também não seja idólatra a ponto de fazer um sepultamento para o livro, pode jogar fora sua Bíblia velha e comprar outra.
Mais algumas dicas: Jesus não foi médico, nem advogado, nem administrador de empresas, nem psicólogo ou qualquer coisa parecida. Ele foi um carpinteiro (o termo pode servir para diferentes atividades braçais, como pedreiro ou ferreiro), e foi um curandeiro mesmo, mas ninguém quer dizer isso hoje em dia. Ele também não foi evangélico, nem protestante, nem católico, ele foi judeu, como judeus eram todos aqueles que nasciam sob aquela etnia e cultura. Por favor, queime todos os livros que façam essas afirmações ridículas. Se não é para o seu bem, pense naqueles que porventura podem abrir um livro desses algum dia, ou imagine que um dia algum arqueólogo desinformado pode encontrar essas porcarias que você preservou soterradas por aí e achar que toda a nossa geração era assim ignorante. Brinquei com alunos esses dias dizendo que deveriam queimar alguns livros nas fogueiras de São João, mas lembrei que eles são evangélicos, e então sugeri a “fogueira santa de Israel”, o que já seria uma opção mais ortodoxa.

sábado, 3 de setembro de 2011

DE ONDE É O EVANGELHO DE MATEUS?: TEORIAS LITERÁRIAS A PARTIR DE MT 4.23-25

A próxima unidade textual de nosso comentário ao Evangelho de Mateus está em Mt 4.23-25. Aí temos um sumário parecido com aqueles que são comuns em Atos dos Apóstolos, que unem perícopes, abreviam o tempo e passam um resumo da situação geral da história que está em andamento. Vale a pena falar dessa passagem porque as conclusões que os leitores tiraram a partir desses versículos exerceram grande influência na história da interpretação de Mateus.

Lendo os versículos vemos que se trata de um grande resumo das atividades de Jesus, que viajava, ensinava, curava, e acumulava seguidores e admiradores pela Galiléia e regiões adjacentes. O primeiro ponto que merece destaque é que ao falar que Jesus ensinava pelas sinagogas da Galiléia, o texto se refere a esses centros da religião judaica chamando-as de “sinagoga deles” (v. 23). “Deles” quem? Pelo menos, para o autor, a sinagoga não é “nossa”. Há um claro distanciamento em relação às sinagogas, mas que não pode ser generalizado rapidamente. O distanciamento é, como mostram muitos outros textos do evangelho, somente em relação às sinagogas da Galiléia, e esse detalhe costuma ser deixado de lado pelos exegetas. De qualquer maneira, essa estranha referência expressa novamente a rivalidade entre o grupo que o evangelho pensa representar e os judeus da Galiléia, que são vistos como um grupo cada vez mais distantes. Eles, embora sejam judeus, já não são dos “Nós”, estão mesmo se distanciando e já há quem diga que fazem parte do “Eles”. Daí alguns leitores vão dizer que provavelmente Mateus é originário da Galiléia, e que ali estaria enfrentando essa crise inter-religiosa. Será?

Nesta passagem há também uma menção estranha à fama de Jesus na Síria (v. 24), dado que não consta na versão de Marcos (que é a fonte de Mateus para essa passagem), e que leva muitos estudiosos a crerem que Mateus seja originário desta região. As informações novamente são poucas, e não é possível tirar grandes conclusões a partir delas. A menção à Síria pode estar aí por vários motivos, mas indica pelo menos que o local possuía alguma importância especial para este evangelho. Uma das hipóteses para explicar o acréscimo é a de que o evangelho esteja localizado na Síria, e assim ele estaria dizendo que seu “cristianismo” é muito antigo. Mas poderíamos supor ainda que ele só quisesse justificar a força do cristianismo na Síria, sem exatamente estar lá; talvez esta referência que enobrece a Síria na história do cristianismo fosse do interesse de outrem, de algum “leitor” para quem o evangelho se dirigia. Ou seja, são só conjeturas, mas há outras evidências (também não decisivas) que realmente tornam a hipótese de Mateus ser da Síria uma possibilidade atraente.

E agora, diante das duas estranhas expressões (“sinagoga deles” e “Síria”), o que fazer? Uma possibilidade conciliatória é a de que Mateus possa ser da Síria, provavelmente de Antioquia, uma grande cidade do Império Romano, e de lá estaria sofrendo pressões por parte dos judeus da Palestina, que naquele período começavam a formar uma coalizão em busca de consolidar a religião judaica pós-70 a partir do farisaísmo. Os fariseus, como faziam os “judaizantes” dos dias de Paulo, locomoviam-se da Galiléia até a Síria para combater o florescimento de seitas como a dos cristãos mateanos. Essa é uma hipótese que precisar ser mais estudada, testada, e estamos neste processo. Até o momento, ela parece dar conta dos conflitos presentes no evangelho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

NOVO ARTIGO PUBLICADO: EMPRÉSTIMO NÃO É CARIDADE (MT 18.21-35)

Temos novidades!



Agora faço parte do corpo editorial da Revista Âncora de Teologia, e é com alegria que venho divulgar a publicação no novo número da revista, que disponibiliza artigos de qualidade para serem baixados em pdf.



Nesta edição, também publico um novo artigo meu, uma análise exegética de Mateus 18.21-35, texto que fala sobre o perdão de dívidas. O texto é útil para os interessados em Mateus, para estudantes de exegese bíblica, e para aqueles que querem saber mais sobre o tema do perdão, que é muito relevante nos discursos de Jesus.



Além do meu texto, há outros que exibem exegeses do Antigo Testamento, e um que trata de 1Enoque, texto não canônico que vale a pena conhecer.




Acessem a revista em: http://www.revistaancora.com.br/

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

NOVO ARTIGO PUBLICADO - MITOLOGIA, HISTÓRIA E EXEGESE

Quero informar a publicação de um novo artigo meu, desta vez, na Revista Theologando, da Fonte Editorial.

No artigo trabalhei as definições de mitologia, história e tentei oferecer um panorama de como essas definições influenciam a interpretação bíblica. As conclusões podem ser polêmicas, não convencionais, mas as sugestões finais que o artigo traz certamente serão muito úteis para exegetas, professores e pregadores.

A revista acaba de sair, e não possui versão on-line. Assim, para ler o artigo deve-se adquirir o exemplar impresso, que conta com vários artigos, incluindo excelentes autores como Júlio Zabatiero e José Adriano. Aos interessados, entrem em contato com a Alessandra ou o Eduardo da Fonte Editorial (alessandra@fonteeditorial.com.br, eduardo@fonteeditorial.com.br).

LIMA, Anderson de Oliveira. Mitologia, História e Exegese: Atualizando Conceitos para uma Nova Leitura de Textos Antigos. In. Theologando, ano V, n. 5. São Paulo: Fonte Editorial, 2011, p. 45-58.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SOBRE O TRABALHO: UMA PEQUENA AUTO-BIOGRAFIA PROFISSIONAL

O tema que pretendo abordar é delicado, pois estou ciente de que algumas das opiniões que vou expressar são contrárias ao “censo comum”. Ao falar dele é inevitável que eu também trate de minha vida pessoal, e isso me faz lembrar de momentos não muito agradáveis. Vou falar sobre o trabalho.

Minhas idéias a respeito nasceram de reflexões pessoais, da observação da vida em sociedade. Hoje mesmo, antes mesmo do meu desjejum já olhava para a rua de meu apartamento pouco antes das 7 da manhã e pensava na suposta necessidade de trabalho. Vi o grande fluxo de pessoas que saía de casa no frio, se dirigindo ao metrô para espremidos chegarem aos seus locais de trabalho. A “Radial Leste”, via que permanece movimentada por todas as 24 horas do dias, é a principal “paisagem” que vislumbro. Foram essas imagens que suscitaram em mim, uma vez mais, estas antigas idéias.

Sei que há um ditado popular que diz que “o trabalho enobrece o homem”, mas será verdade? Esse tipo de vida que as pessoas estão levando é enobrecedor? Honestamente, tenho dúvidas. Vejo que a grande maioria das pessoas trabalha (ou se locomove até o trabalho) durante todas as horas de sol que a semana lhes dá; sobram-lhes algumas poucas horas da noite, para um jantar, uma conversa em família, uma brincadeira com os filhos, para um rápido passeio, e para um momento de amor. Alguns acabam desperdiçando estes prazeres limitados com brigas, novelas, bebidas etc., mas esse assunto fica pra outra hora. Logo chega outra vez o cansaço, o sono, e a preparação para mais um dia de trabalho. Assim se vão pelo menos cinco dias da semana, às vezes seis, às vezes mais... E finalmente chega o fim de semana, o feriado, as férias, e então poderão gastar o dinheiro que ganharam e finalmente aproveitar o melhor da vida. Ou seja, estamos gastando nossos poucos dias no trabalho, e nos contentando com poucos momentos de verdadeira satisfação. Isso é enobrecedor? Não estou certo disso.

Sempre fui realista demais para encontrar satisfação na idéia de que terei minha casa própria. Sei que vou morrer e a casa, seja própria, seja de aluguel, vai apodrecer aí. Não acho que vale a pena perder a vida para dizer que conquistei qualquer coisa material na minha velhice. Então, desde cedo tive problemas com o trabalho, com a exigência social de que eu me estabelecesse profissionalmente. Eu demorei mais que a maioria dos amigos da mesma idade para comprar um carro, e até hoje sou estudante. Até na mitologia bíblica o trabalho é uma maldição, e não uma dádiva. Em Gênesis o homem só trabalha porque é obrigado, porque está pagando pelos seus erros. O trabalho, ali, é uma punição, e confesso que esta mesma impressão eu tive muito antes de conhecer a Bíblia.

Aonde eu quero chegar com isso? Será que quero agora incentivar as pessoas a abandonarem suas profissões? Claro que não. Eu encontrei uma solução pessoal para este problema, e é ela que quero compartilhar com meus leitores. A expectativa que tenho é a de que alguns, que também sofrem com a imposição social do sucesso profissional, se identifiquem com minhas palavras e encontrem um caminho mais adequado e que lhes traga felicidade.

Usei o mesmo modo realista de pensar para concluir que eu não ia conseguir mudar as coisas. As pessoas continuarão “se matando” no trabalho, e se contentando com aquelas poucas faíscas de vida. Mas eu não queria isso pra mim. Então, a solução era aderir ao modelo, trabalhar muito, fazer bem o que fazia, procurar destacar-me, obter sucesso profissional... porém, eu decidi fazer isso numa profissão que para mim fosse uma “diversão”. Esta é a solução que encontrei, fazer do trabalho um prazer; e na juventude, só encontrei prazer tocando violão. Dediquei-me à música por anos, tornei-me bacharel em violão erudito, estudei na Escola Municipal de Música de São Paulo, e me tornei professor. Foram mais de dez anos, e esta profissão já não me trazia a mesma alegria. Sempre ganhei pouco com esta atividade, e no ramo da música erudita, as exigências são tantas que o prazer torna-se rapidamente numa tortura. Aquilo que antes me dava prazer se tornou um peso, consequentemente, era hora de mudar de vida.

Continuo tocando violão hoje, e gosto muito. Também não me arrependo de ter cursado música. Digo que com meus 18 anos, se eu não tivesse estudado música, eu não teria estudado nada (ou teria feito outro curso que hoje não seguiria). Por conta de minha opção religiosa eu comecei aos poucos a substituir a música pelo estudo da Bíblia. Hoje posso dizer isso de maneira clara. Não era a igreja que me agradava; não eram as reuniões, que na verdade me desagradam. Eu gostava de algumas pessoas, e gostava da Bíblia. Fui estudando, fazendo cursos, lendo muito, fiz uma pós-graduação em Bíblia, mestrado, e hoje faço doutorado. Mudei de profissão, e novamente as muitas horas que passo lendo, traduzindo, interpretando, escrevendo e ensinando, se tornaram momentos de grande satisfação.

Falando assim resumidamente da minha vida profissional, você deve imaginar que as questões econômicas sempre foram um problema pra mim. Foi o acaso. As coisas que me dão prazer não me dão dinheiro. Mas acho que isso não seria assim com todos. Até brinco com os estudantes de teologia dizendo que para uma boa carreira como teólogos eles devem evitar a todo custo se casar com pessoas que conheceram nas faculdades de teologia. Afinal, dois teólogos numa mesma família é um problema. Por isso me casei com a Angela, que não quer nem saber de teologia.

Acho que o leitor entendeu minha mensagem: Eu gostaria muito de ver as pessoas trabalhando, ganhando dinheiro, realizando seus sonhos, de uma maneira que não lhes custasse a semana. Deixar de trabalhar continua sendo “vagabundagem”, eu não incentivei isso; mas procuro demonstrar que é possível termos prazer enquanto trabalhamos. Podemos ser felizes no trabalho, e não só no lazer. Para isso, a prioridade no momento de escolher uma profissão deve ser sua afinidade com aquela área (afinidade é pouco, talvez devêssemos dizer paixão), e não as possibilidades financeiras. Depois de feita sua escolha (mas sempre há possibilidades de mudar, de recomeçar), é hora de se dedicar. Não há desculpas para profissionais preguiçosos, displicentes, incompetentes. Não tenho filhos, mas um dia vou dizer pra eles (ou para algum sobrinho ou vizinho), que o importante não é o que se faz, mas como se faz. Se você escolheu uma profissão incomum, não precisa se envergonhar quando as pessoas lhe perguntarem se você só canta, se não trabalha (por exemplo); vergonha é só cantar e ainda cantar mal.


Imagem: Pieter Aertsen: Market Scene (1561)


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

JESUS EM CAFARNAUM E SEUS PRIMEIROS SEGUIDORES: MATEUS 4.12-22

Quando João Batista é preso, Jesus deixa a Judéia e volta para a sua terra natal, a Galiléia. Porém, Jesus já não vai para Nazaré, mas vai para Cafarnaum (v. 12-13), que talvez fosse uma alternativa economicamente mais viável para Jesus e sua família naqueles dias (veja: Lima, 2010, p. 8-10). É importante repetir o nome de Cafarnaum, que será verdadeiramente a sede do ministério de Jesus ao longo do evangelho todo. Em Cafarnaum Jesus estará em casa, e veremos como astutamente aparecerão oposições de significado entre este e outros índices topográficos. Jesus começa a pregar em Cafarnaum (v. 17), e neste ponto é interessante notar que ele repete literalmente as palavras que resumem a pregação de João Batista, seu mestre transformado em mero introdutor. Quem sabe, Jesus tomara conhecimento de sua missão através de suas experiências místicas no batismo, e agora começava a trabalhar por conta própria seguindo rigorosamente o exemplo de seu predecessor? Será que não há no evangelho um plano evolutivo para Jesus, sua compreensão de si mesmo e de seu ministério?

Em Cafarnaum Jesus começa a reunir seus discípulos, que são chamados a renunciar os vínculos profissionais, sociais e familiares, e aderir ao itinerantismo (v. 18-22). Os homens chamados são: Pedro e André, e Tiago e João. Sabemos que dentre eles sairão os apóstolos cujos nomes o Evangelho de Mateus e o cristianismo primitivo de muitas regiões mais privilegiariam. E não é por acaso que eles são logo apresentados como bons exemplos. Ao lado de Mateus (veja Mateus 9.9), esses homens aceitam o chamado radical de Jesus, e não olham para os tesouros terrenos que prendem muitos. O exemplo negativo que se opõe a eles é o “jovem rico” de Mt 19.16s, que como veremos, recusa este mesmo chamado por possuir muitas propriedades. Além do “jovem rico”, veremos outros dois exemplos negativos no capítulo 8, dos versículos 18 a 22. Este ideal de discípulos completamente desprendidos dos bens materiais perpassa todo o Evangelho de Mateus, como veremos, e por isso sabemos que essa breve apresentação dos primeiro discípulos de Jesus, é bastante honrosa e serve como um exemplo permanente para os leitores implícitos.[1]


[1] Aqui empregamos um termo próprio da Narratologia, que é explicado nas chamadas “instâncias narrativas” (Marguerat; Bourquin, 2009, p. 84-86). Em resumo, no lugar da busca por um autor real e sua intenção, fala-se da busca pelo “autor implícito”, que é o autor/personagem que o próprio texto nos permite encontrar. Da mesma forma, já não nos perguntamos pelos destinatários originais de um texto, mas podemos perguntar pelo “leitor implícito”, o leitor/personagem imaginado pelo autor que é a quem ele destina seu texto.