sábado, 3 de setembro de 2011

DE ONDE É O EVANGELHO DE MATEUS?: TEORIAS LITERÁRIAS A PARTIR DE MT 4.23-25

A próxima unidade textual de nosso comentário ao Evangelho de Mateus está em Mt 4.23-25. Aí temos um sumário parecido com aqueles que são comuns em Atos dos Apóstolos, que unem perícopes, abreviam o tempo e passam um resumo da situação geral da história que está em andamento. Vale a pena falar dessa passagem porque as conclusões que os leitores tiraram a partir desses versículos exerceram grande influência na história da interpretação de Mateus.

Lendo os versículos vemos que se trata de um grande resumo das atividades de Jesus, que viajava, ensinava, curava, e acumulava seguidores e admiradores pela Galiléia e regiões adjacentes. O primeiro ponto que merece destaque é que ao falar que Jesus ensinava pelas sinagogas da Galiléia, o texto se refere a esses centros da religião judaica chamando-as de “sinagoga deles” (v. 23). “Deles” quem? Pelo menos, para o autor, a sinagoga não é “nossa”. Há um claro distanciamento em relação às sinagogas, mas que não pode ser generalizado rapidamente. O distanciamento é, como mostram muitos outros textos do evangelho, somente em relação às sinagogas da Galiléia, e esse detalhe costuma ser deixado de lado pelos exegetas. De qualquer maneira, essa estranha referência expressa novamente a rivalidade entre o grupo que o evangelho pensa representar e os judeus da Galiléia, que são vistos como um grupo cada vez mais distantes. Eles, embora sejam judeus, já não são dos “Nós”, estão mesmo se distanciando e já há quem diga que fazem parte do “Eles”. Daí alguns leitores vão dizer que provavelmente Mateus é originário da Galiléia, e que ali estaria enfrentando essa crise inter-religiosa. Será?

Nesta passagem há também uma menção estranha à fama de Jesus na Síria (v. 24), dado que não consta na versão de Marcos (que é a fonte de Mateus para essa passagem), e que leva muitos estudiosos a crerem que Mateus seja originário desta região. As informações novamente são poucas, e não é possível tirar grandes conclusões a partir delas. A menção à Síria pode estar aí por vários motivos, mas indica pelo menos que o local possuía alguma importância especial para este evangelho. Uma das hipóteses para explicar o acréscimo é a de que o evangelho esteja localizado na Síria, e assim ele estaria dizendo que seu “cristianismo” é muito antigo. Mas poderíamos supor ainda que ele só quisesse justificar a força do cristianismo na Síria, sem exatamente estar lá; talvez esta referência que enobrece a Síria na história do cristianismo fosse do interesse de outrem, de algum “leitor” para quem o evangelho se dirigia. Ou seja, são só conjeturas, mas há outras evidências (também não decisivas) que realmente tornam a hipótese de Mateus ser da Síria uma possibilidade atraente.

E agora, diante das duas estranhas expressões (“sinagoga deles” e “Síria”), o que fazer? Uma possibilidade conciliatória é a de que Mateus possa ser da Síria, provavelmente de Antioquia, uma grande cidade do Império Romano, e de lá estaria sofrendo pressões por parte dos judeus da Palestina, que naquele período começavam a formar uma coalizão em busca de consolidar a religião judaica pós-70 a partir do farisaísmo. Os fariseus, como faziam os “judaizantes” dos dias de Paulo, locomoviam-se da Galiléia até a Síria para combater o florescimento de seitas como a dos cristãos mateanos. Essa é uma hipótese que precisar ser mais estudada, testada, e estamos neste processo. Até o momento, ela parece dar conta dos conflitos presentes no evangelho.

2 comentários:

Ademir Goulart disse...

Prof. Anderson, Talvez Mateus conhecesse alguém daquela região, isto poderia abrir uma outra possibilidade de ele ter morado ali. Será?

Marcelo Carneiro disse...

Anderson,essa é exatamente a tese de Warren Carter no comentario dele sobre Mateus, a partir das margens, do lugar como sendo Antioquia.
Entretanto, há outras evidências que mostram um lugar não tão cosmopolita, e a estrutura quiástica do livro aponta para um grupo letrado, mas muito arraigado ao judaísmo.
O cenário que Paulo nos aponta em Gálatas parece indicar que a comunidade de Antioquia era mista, e que os judaizantes eram vistos como "intrusos", não como parte dela. Pense nisso...