sexta-feira, 15 de março de 2013

BIBLIOGRAFIA PARA O ESTUDO BÍBLICO


Hoje um ex-aluno me escreveu pedindo indicações bibliográficas para o estudo da Bíblia. Atendi seu pedido e quis disponibilizar essa lista bibliográfica a todos os leitores desse blog. Fiz uma seleção limitada de bons livros e artigos que tratam da exegese, e também incluí vários títulos que complementam esse estudo com história e sociologia do mundo bíblico. Só apresento textos em português e que podem ser encontrados nas livrarias e sites. Espero que essa iniciativa incentive vossos estudos, e caso alguém precise novas indicações mais precisas, basta me escrever:


Referências Bibliográficas:

ALTER, Robert. A Arte da Narrativa Bíblica. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ALTER, Robert; KERMODE, Frank (orgs.). Guia Literário da Bíblia. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1997.

AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2011.

CROSSAN, John Dominic. O Nascimento do Cristianismo: O que Aconteceu nos Anos que se Seguiram à Execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.

FRYE, Northrop. O Código dos Códigos: A Bíblia e a Literatura. São Paulo: Boitempo, 2004.

GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia como Literatura. São Paulo: Loyola, 2003.

HORSLEY, Richard A. SILBERMAN, Neil Asher. A Mensagem e o Reino: Como Jesus e Paulo Deram Início a uma Revolução e Transformaram o Mundo Antigo. São Paulo: Loyola, 2000.

LIMA, Anderson de Oliveira. Introdução à Exegese: Um Guia Contemporâneo para a Interpretação de Textos Bíblicos. São Paulo: Fonte Editorial, 2012.

__________. Semiótica Discursiva: Uma Introdução Metodológica para Biblistas. In. Revista Âncora, vol. VIII, ano 7, 2012b, p. 1-21.

MALINA, Bruce J. O Evangelho Social de Jesus: O Reino de Deus em Perspectiva Mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004.

MARGUERAT, Daniel; BOURQUIN, Yvan. Para Ler as Narrativas Bíblicas: Iniciação à Análise Narrativa. São Paulo: Loyola, 2009.

PAROSCHI, Wilson. Crítica Textual do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999.

SCHNELLE, Udo. Introdução à Exegese do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 2004.

SIMIAN-YOFRE, Horácio (org.). Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.

STEGEMANN, Ekkehard W.; STEGEMANN, Wolfgang. História Social do Protocristianismo: os Primórdios do Judaísmo e as Comunidades de Cristo no Mundo Mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.

THEISSEN, Gerd. A Religião dos Primeiros Cristãos: Uma Teoria do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 2009.

__________. O Movimento de Jesus: História Social de uma Revolução de Valores. São Paulo: Loyola, 2008.

TOSAUS ABADÍA. José Pedro. A Bíblia como Literatura. Petrópolis: Vozes, 2000.

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: Manual de Metodologia. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 1998. 
ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007.

ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares; LEONEL, João. Bíblia, Literatura e Linguagem. São Paulo: Paulus, 2011.

terça-feira, 12 de março de 2013

HISTÓRIA DA LEITURA BÍBLICA - As Origens da Bíblia e seus Leitores/Ouvintes



A Bíblia é, como sabemos, uma coleção de textos de datação indeterminada, cujo acesso só é possível através de um custoso processo de comparação de milhares de manuscritos. Na verdade nós sabemos bastante sobre os modos de produção dos textos bíblicos, e temos nesses documentos sinais de práticas literárias de evoluíram por séculos, o que faz com que qualquer tentativa de se escrever sobre a história da leitura bíblica coincida com a própria história da escrita. Por exemplo, podemos notar que a grande maioria dos textos bíblicos são compilações de textos menores e de origens provavelmente independentes; são coleções de fragmentos de tradição oral e escrita unidos por um processo redacional mais recente. Alguns livros bíblicos parecem mesmo sugerir uma herança cultural antiquíssima, refletindo em breves unidades textuais, tempos em que a escrita mais comum devia ser a cuneiforme, em tabletes de materiais simples como argila, pedra ou madeira. 

Mas os materiais mais comuns na produção dos textos bíblicos foram o papiro e depois o couro, que deu origem ao rolo que chamamos de “pergaminho”. Essa nova tecnologia contribuiu com a durabilidade dos textos e com a produção de livros maiores, mas a prática de escrita seguiu em grande parte presa aos modestos limites dos tabletes, pelo que a crítica moderna sempre tem que lidar com a questão da delimitação das perícopes, examinando textos de tempos em que sequer haviam divisões entre as palavras, sinais de pontuação ou mesmo parágrafos.



Nos dias de Jesus e em meados do primeiro século, boa parte das tradições literárias das religiosidades judaicas já havia se consolidado o formavam coleções de textos que depois seriam chamados de Antigo Testamento. Mas é preciso levar em conta que esses rolos não costumavam ser encontrados nas casas das famílias comuns, mas nos templos, nas sinagogas, nas mãos de escribas que também estavam envolvidos com serviços administrativos do império... Além da não padronização de uma coleção canônica desses textos até a virada dos séculos I e II, há vários outros motivos que explicam a escassez de cópias dos textos bíblicos entre as massas: primeiro, devemos nos lembrar que a alfabetização não era uma característica comum a qualquer parte do chamado mundo clássico, e os estudiosos estimam que o nível de alfabetização da terra judaica nos primeiros séculos estava abaixo dos 3%; segundo, mesmo para os letrados a posse de uma grande coleção de textos que tinham que ser copiados manualmente por profissionais e em folhas de papiros importadas era algo economicamente inviável; e mais importante ainda, é que a posse de livros e a atividade da leitura individual eram simplesmente inconcebíveis naquela cultura que quase sempre transmitia seus conhecimentos através da oralidade. Quer dizer que os textos bíblicos não eram copiados para serem comprados, levados para casa e lidos; eles existiam principalmente para serem ouvidos. Ou seja, mesmo nos rituais religiosos, a memória era o principal instrumento, e os textos, quando entravam em cena, eram lidos por algum orador para que os demais ouvissem. Assim, as memórias e tradições orais eram escritas e copiadas de geração em geração para sua preservação, com a finalidade de serem novamente re-oralizadas pela prática da leitura coletiva.



            Sobre a história das práticas de leitura e a predominância da transmissão oral no mundo antigo também escreveu Robert Darnton:

[...] mesmo depois de os livros terem adquirido sua forma moderna, por muito tempo a leitura continuou a ser uma experiência oral, desempenhada em público. Em algum momento indeterminado, talvez em alguns mosteiros no século VII e seguramente nas universidades do século XIII, as pessoas começaram a ler sozinhas em silêncio. É possível que a passagem para a leitura silenciosa tenha implicado uma maior adaptação mental do que a passagem para o texto impresso, pois ela fazia a leitura uma experiência individual e interior. (2010, p. 199)


            O cristianismo antigo ainda desempenhou um papel importante relativo à história do livro por adotar mais cedo que qualquer outro grupo social, o códex de papiro em lugar dos rolos. Segundo John Dominic Crossan, “nos anos 200, a proporção cristã de rolo para códice era de um para treze. Essa vitória do códice para o rolo aconteceu só devagar e tarde para a literatura grega, mas quase instantaneamente e logo para a literatura cristã” (2004, p. 170). É difícil explicar porque os manuscritos cristãos, desde os mais antigos que hoje dispomos, já eram códices; mas ao ajudar a popularizar essa nova tecnologia que diferente do rolo possibilitava consultas quase que instantâneas a qualquer ponto de um livro, os cristãos contribuíam com o futuro do livro como instrumento de pesquisa.



Pode-se imaginar que a partir do momento que o cristianismo galgou seu lugar no mundo gentílico, institucionalizando-se inclusive, o número de cópias dos textos e o número de leitores tenham aumentado bastante. No entanto, é preciso ter cautela para não superestimar os níveis de alfabetismo e as práticas de leitura do Império Romano. Para fechar essa seção, gostaríamos de citar algumas linhas de William V. Harris em Ancient Literacy (1989) que mostram que as condições de leitura bíblica não mudaram muito até o quarto século. Ele escreveu especificamente sobre o começo do cristianismo imperial sob Constantino:

Após a fundação de Constantinopla, em 324, o imperador escreveu a Eusébio para encomendar 50 volumes de pergaminho (somatia) das escrituras para as igrejas da nova capital. Sua ação não teve nenhum tipo de precedente clássico, e se originou de uma importante mudança cultural, a ascensão de uma religião patrocinada pelo Estado, que dependia muito da palavra escrita. Mas ao mesmo tempo a carta do imperador indica a continuidade das condições antigas, pois ele encomendou livros que a maior parte dos fiéis ouviria a partir de leituras em voz alta, e ele esperava que 50 volumes atendessem às necessidades espirituais da cidade capital. (Harris, 1989, p. 285)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

QUANTO ESTUDAR PARA EXERCER O MINISTÉRIO PASTORAL?

            A fé cristã, assim como a Bíblia, é bastante popular aqui no Brasil. Todos podem assumir essa forma de religiosidade, e com essa opção, exercer sua religiosidade de diferentes formas. O que quero dizer por “exercer sua religiosidade” é: frequentar cultos cristãos, estar entre outras pessoas dessa mesma confissão, orar livremente à divindade a que crê, aprender sobre os dogmas de sua religião e até divulgar essas coisas elementares a outros. Mas as coisas não são tão simples quando estamos falando dos líderes cristãos.
            A liderança religiosa pode ser escolhida por inúmeros critérios diferentes, escolhidos pela própria religião. No cristianismo, muitas vezes o tempo de participação é importante, já que indica alguma experiência com os dogmas e também dá mostras de que tal cristão vive sob tais dogmas há anos, sem cometer sérios deslizes. Outras comunidades exigem também algum grau de instrução, talvez uma formação teológica. Outras usam critérios mais subjetivos, como a posse de determinados “dons espirituais”. A questão que me leva a escrever essas linhas está relacionada ao grau de instrução dos líderes cristãos, algo que me parece significativo para o tipo de cristianismo que por aqui se pratica.
Falando brevemente, eu pessoalmente não acho que a educação formal, aquela que se adquire em instituições de ensino, seja necessária para a prática cristã ou para o ato de “pastorear”. Convém lembrar que o cristianismo nasceu entre pessoas de pouca ou nenhuma instrução (me refiro a Jesus e seus apóstolos), onde a leitura de textos era uma questão muito marginal ou mesmo desnecessária, e no meu modo de ver, algo está errado quando a inexistência de diplomas inviabiliza a prática cristã. O problema é que já não é esse o cristianismo que vemos. Eventos como o advento da imprensa, a produção de traduções da Bíblia para praticamente todos os idiomas desde a Reforma Protestante, a popularização da educação formal, e a valorização do conhecimento científico desde o Iluminismo, tornaram os cultos momentos intelectualizados. Hoje, os cristãos valorizam o conhecimento, dedicam boa parte de seus encontros à leitura de seus textos sagrados, e tudo isso tornou o nível de alfabetismo determinante. Os líderes já não são somente condutores de orações, incentivadores de experiências religiosas, manipuladores do sagrado; atualmente eles exercem também a atividade docente.
Nas reuniões cristãs (note-se que me refiro principalmente aos cultos evangélicos) os pastores leem a Bíblia, tentam explicá-la, e esperam que os ouvintes guardem seus ensinos e os ponham em prática. Isso não é culto, é aula, e para isso a educação formal é necessária. Na infância não sabemos ler, e vamos à escola onde somos instruídos, estudamos gramática, temos algum contato com literaturas, e gradualmente vamos nos tornando mais aptos para ler, interpretar, e consequentemente, para ensinar. Assim, se o culto cristãos de hoje se transformou em parte numa atividade de leitura, interpretação e ensino, é obvio que o nível de instrução dos líderes se equivale à qualidade dessa leitura, interpretação e ensino. Noutras palavras, se o cristão quer basear sua fé num texto, é preciso saber ler.
Não posso sugerir que se abandone a prática da leitura, então só posso argumentar a favor da formação dos líderes que, por exigência do cristianismo contemporâneo, também devem exercer a atividade docente. Claro que há pastores eloquentes, convincentes, articulados... mas isso não quer dizer que tenham feito uma boa leitura do texto bíblico. Por minha experiência com o texto bíblico e com a frequência em encontros desse tipo, eu diria que estão aptos para a atividade que comumente chamamos de “pregação”, aqueles indivíduos que não apenas sabem ler e escrever, mas que são capazes de entender o que leem. É difícil falar sobre isso de maneira simples, afirmar que ter o nível fundamental, médio ou superior completos capacita alguém a ler e interpretar. Chamamos de analfabetos funcionais os indivíduos que embora tenham estudado, saibam ler e escrever, não estão aptos para ler livros de dificuldade média, interpretar, compreender e emitir juízos sobre o que lê, e infelizmente, boa parte da nossa população segue nessa condição.
As igrejas que exigem uma escolaridade mínima para o ministério, ao meu ver, estão fazendo algo correto. Reconhecem o papel docente dos pastores e contam, ao menos, com a garantia mínima que um diploma de alguma instituição reconhecida pode oferecer. Algumas pessoas podem discordar do que estou dizendo, alegando conhecer pastores sem formação alguma e que são “uma bênção”. Novamente, acredito que possam ser cristãos honestos, que cuidam (pastoreiam) bem de seus discípulos (ovelhas), e até que possam ser convincentes em seus sermões, mas sigo duvidando da qualidade de suas leituras, da coerência do conteúdo de suas homilias, ou de sua originalidade, já que podem estar se limitando a repetir outros pregadores. Nenhuma inspiração divina me fez reconhecer exceções a essa regra básica até agora: a Bíblia é uma coleção de textos, e sem uma educação formal de qualidade não se alcança uma razoável compreensão de sua mensagem.
Todavia, além desse nível de instrução mínimo que, segundo minha opinião, todo líder cristão que pretende pregar deveria ter, devemos considerar ainda as especializações. Muitas vezes as pessoas se confundem e aceitam instruções de pessoas que são formadas noutra área. Assim, um pastor com nível universitário não é necessariamente um especialista em Bíblia. Se a formação de um líder é em filosofia, psicologia ou mesmo teologia, ele está teoricamente apto para emitir juízos sobre filosofia, psicologia ou teologia. Novamente, minha experiência me fez ver que pastores sociólogos, médicos ou advogados, falam da Bíblia como bons leitores, mas ainda como leigos em Bíblia. Essas formações podem tê-los tornado bons intérpretes de textos, mas alguém com uma boa formação de nível médio saberia ler tão bem quanto eles.
Aí surge outra questão: é necessário ser um especialista em Bíblia para ser um líder cristão? Nesse caso eu diria que não, pelo menos ainda não, já que o ensino de qualidade sobre a literatura bíblica é tão raro. Exigir que pastores saibam traduzir os textos do grego, que façam exegese, que conheçam os princípios da teoria literária, é ir longe demais para a nossa modesta realidade.
Deixo assim minhas breves considerações sobre essa difícil questão que é a necessidade de instrução formal para o exercício do ministério pastoral. Escrevi-as com o intuito de auxiliar, mas se alguém porventura mostrar-se incomodado com meus argumentos, basta matricular-se numa escola. Dificilmente pessoas que tenham gasto dinheiro e tempo em algum curso declara arrependimento ao final.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

AMAR O POBRE OU AMAR A POBREZA? Sobre a missão do cristão e a Teologia da Libertação



É sabido dos leitores desse blog que as discussões aqui levantadas não pretendem ser definitivas. Escrevo ideias, registro pensamentos, desabafos, críticas... No blog convido os interessados a também pensar, e aprecio quando um leitor exprime seu ponto de vista, mesmo quando são contrárias às minhas. Vou fazer isso novamente nas próximas linhas; vou rascunhar algumas ideias, expressar por escrito meus pontos de vista. Dessa vez, escolhi falar sobre um pressuposto da chamada “Teologia da Libertação” Latino-Americana.
É impossível estudar teologia com seriedade nesse país e não ser impactado de alguma forma por essa linha de pensamento teológico que por aqui nasceu no final da década de 60. Trata-se de uma teologia, e que naturalmente traz a fé como pressuposto, mas é o outro lado que me importa, o da “libertação”. Essa teologia lida com o ideal de libertação do “pobre”, dos mais fracos sujeitos da sociedade, clamando por justiça social, igualdade, e para isso evoca princípios teológicos e pacíficos na luta contra as instituições que criam e mantém o estado de desigualdade que testemunhamos. Até aí nenhum problema. Não me considero um teólogo, mas acho que se alguém quer fazer teologia, deve fazê-lo pensando nos efeitos práticos que essa sua teologia pode produzir na sociedade, e segundo esse critério, a TL (Teologia da Libertação) é bastante eficiente. Eu mesmo conheci pessoas maravilhosas que assumiram um compromisso com a ideologia da TL e que se tornaram pessoas admiráveis.
A TL nasceu em contextos sociais específicos, e valeu-se de um instrumental sociológico para fundamentar suas posições. Nela, lê-se a sociedade de modo dualista (ricos e pobres), vê-se os poderosos como vilões e os fracos como vítimas, e seus impulsionadores surgem quase sempre dentre os sujeitos que estão do lado fraco. Como resultado temos uma teologia muito bonita, ideologicamente admirável, e com grande potencial para produzir bons resultados. Todavia, e aqui começam minhas observações pessoais, essa teologia parece girar em torno de si mesma, pelo que poderíamos sugerir algumas pequenas correções terminológicas.
Penso que não posso adotar o “pobre” como sujeito ideal, como eterna vítima imaculada que precisa ser salva. A prática nos mostra que o pobre não é esse sujeito santo que a TL construiu. Os efeitos da desigualdade, da má educação, das condições econômica inapropriada, são terríveis para a construção do indivíduo pobre, pelo que o pobre, embora vítima, mostrar-se-á o sujeito mais violento, menos consciente de sua condição infeliz, menos capacitado para lutar pela transformação da sociedade injusta. Acreditar no seu potencial é uma coisa, considerá-lo um privilegiado eleito por Deus é um exagero. Por isso, acho incorreto o amor ao pobre do modo como os teólogos da libertação pedem. Não se pode amar esse tipo de sujeito a ponto de se esquecer dos efeitos nocivos que a própria pobreza produziu nele.
A pobreza é um estado a ser transformado, pelo que não devo amar o pobre, mas me apiedar dele, e ansiar por sua libertação. Se o pobre precisa ser libertado da pobreza, a oposição semântica mais fundamental me obriga a reconhecer que a libertação do pobre consiste em fazê-lo rico, e aí a TL encontra dificuldade, precisamente porque construiu mal o seu conceito de riqueza.
O pobre é um sujeito destituído dos valores que hoje consideramos necessário para a formação do ser humano, e o nosso papel é tirá-lo da pobreza. Isso não se faz através de esmolas que amenizam o sofrimento e não libertam, mas principalmente através de investimentos na educação, que tira o sujeito daquele estado de ignorância que o impede de lutar por si mesmo pela libertação. Por outro lado, a riqueza não é um estado demoníaco como acreditam muitos. O rico é o indivíduo que por circunstâncias diversas possui bens capazes de lhe proporcionar conforto, e que possui as condições de adquirir a boa educação. Assim, do mesmo modo como o pobre não é um santo, mas uma vítima que deve ser tirada da pobreza, o rico não é um vilão, mas alguém que está livre da pobreza, embora muitas vezes também precise de um tipo de libertação. A libertação do rico é a conscientização de que ele, que atingiu o estado ideal para vida humana digna, deve contribuir para acabar com a pobreza mundial.
Não sei se estou me expressando bem nesse texto que estou escrevendo tão depressa. Quero dizer que não devo “adorar” o pobre. Na verdade, nem acho que seja preciso abraçar as crianças carentes para envolver-se na luta contra a pobreza. Do mesmo modo, não devo menosprezar o rico. Tenho que encontrar no meu modo de viver um meio de libertar-me das limitações da pobreza, e de também proporcionar uma saída a outros. É preciso que todos os seres humanos desfrutem dos avanços da medicina, dos benefícios dos alimentos orgânicos, dos tecidos mais duráveis, dos meios de transportes mais eficientes, da educação de qualidade, do entretenimento mais saudável... Por outro lado, não tenho que exterminar o rico. É verdade que a riqueza excessiva alimenta a desigualdade, mas não tenho que transformar ricos em pobres. Podemos discutir mais noutro momento o que venha a ser essa riqueza, que para mim é o acesso a todos aqueles recursos que hoje estão limitados, mas já não precisamos ser hipócritas e dizer que a riqueza é um mau, enquanto na verdade todos podem ver que é muito bom morar bem, ter um bom carro, conhecer o mundo, comer em bons restaurantes etc.
Enfim, o processo de libertação do pobre é esse: educação. O sujeito educado, seja qual for sua origem, pode lutar por si mesmo contra as limitações da pobreza. Já o processo de libertação do rico é: educação. O sujeito educado, quando em boas condições econômicas, não constrói muralhas em torno de si, mas desfruta do que o mundo pode lhe oferecer enquanto trabalha para tornar tais privilégios cada vez mais acessíveis. Se há uma luta na qual devemos nos empenhar, é a luta contra ignorância; não existem lutas contra os ricos, e não existem lutas de preservação dos pobres. Esses dois grupos não são tão distintos quanto um dia se disse; suas fronteiras são fluídas, e há pessoas passando de lá pra cá o tempo todo. Ricos e pobres não são dois povos, mas um único povo que ainda não adquiriu o equilíbrio mais sadio que poderia acabar com a pobreza extrema e com o medo que os ricos têm dos pobres. Noutras palavras, afirmo que os pobres precisam ser extintos, ou melhor dizendo, precisam ser libertados das correntes limitadoras da pobreza. Todos deveriam ser ricos, e esse é nosso objetivo.
Aí está minha sugestão àqueles que ainda se apegam à TL. Porém, deixe-me fazer uma observação final que amplia a discussão e evita críticas. Como professor, penso sempre nessa ação direta de educar e produzir sujeitos mais preparados para transformar o mundo nesse sentido, mas outros cientistas e profissionais também devem assumir tais ideais e trabalhar para produzir uma humanidade rica, ou seja, que tenha acesso à comida boa e barata, ao transporte eficaz, à educação de qualidade, à saúde, ao lazer... Há muitas maneiras de contribuir com aquele mundo que o Deus dos teólogos deseja.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

NOVO ARTIGO PUBLICADO: BÍBLIA E MATERIALIDADE: O NOVO TESTAMENTO INTERLINEAR COMO PROJETO EDITORIAL

Venho informar a publicação de mais um artigo meu. Dessa vez, por tratar de questões de Bíblia e Materialidade, e não propriamente do conteúdo dos textos bíblicos, optei por buscar publicar meu texto numa revista de outra área. Dessa vez minha obra está disponível na Revista Memento, que é uma revista da pós-graduação em Letras da UninCor, uma universidade mineira.

Mas não abandonei minha área de pesquisa. No artigo falo do "Novo Testamento Interlinear", que sempre indico aos alunos de grego e exegese. A análise trata da publicação em si, dos recursos oferecidos, das notas introdutórias, das versões bíblicas anexadas, e pergunta se a editora atinge seu objetivo. Claro que segundo minha opinião, a leitura vale a pena.