segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O GRANDE TRUQUE: OS PECADOS DA IGREJA NA ÁREA TRABALHISTA

Para tratar do tema que tenho em mente escolhi, nesta ocasião, utilizar-me de dois personagens fictícios cujos nomes irreais serão interpretados pelo leitor facilmente. São eles Crente e Pastor. Queria que a situação narrada também fosse irreal, porém, infelizmente a vi repetidas vezes e sei que muitos dos leitores a reconhecerão. Ela desvenda o “grande” truque realizado em igrejas evangélicas em que um ato de exploração é transformado num passe de mágicas em caridade, onde um explorador fica conhecido como benfeitor, e onde um trabalhador explorado é transformado em pessoa ingrata e devedora.

Não falarei, por mais que possa parecer, de nenhum caso em especial. Também não falo disso com mágoa ou qualquer sentimento de raiva em relação a qualquer pessoa. Meu anseio é revelar um sistema injusto que leva pessoas que no fundo podem ser boas a explorar outros sem notar, acreditando que os ajudam enquanto só agem por seus próprios interesses. Desejo livrar os explorados que inocentemente acreditam que estão sendo ajudados e que se apóiam na esperança de um futuro reconhecimento e sucesso. Vamos à narrativa

I – Essas Coisas Acontecem

Numa cidade brasileira qualquer, aconteceu outra vez. Um mal comum da nossa sociedade atingiu mais uma família. Um homem de meia idade chamado Crente foi surpreendido com a notícia de que a empresa em que já trabalhava havia sete anos o estava desligando. No momento ele nem entendia o que o outro funcionário o estava dizendo, mas quando notou que devia ir embora daquele lugar para sempre, quis saber o motivo.

– Mas por que isso agora? Ninguém me avisou de nada. Fiz alguma coisa de errado?

– Não, Crente, você não está entendendo. – Respondia-lhe o funcionário com pena por notar que surpreendia seu antigo companheiro de trabalho com uma notícia horrível. – Não se trata de você, eu lhe asseguro. São questões administrativas; podia ser qualquer um.

Tentando último recurso desesperado, Crente abriu mão do orgulho, e tentando encontrar lágrimas para os olhos dizia coisas como:

– Pode falar, há algo que eu tenha feito de errado? Posso melhorar. Será que você não pode falar com o chefe por fim?

Sinceramente decepcionado, o funcionário respondeu: – Amigo, creia-me, administradores só vêem os números no fim do mês, não há pessoas, nem famílias, nem sonhos... Infelizmente, tenho que lhe dizer que você é só o primeiro de muitos a serem cortados por esses dias. Temo que eu mesmo esteja entre esses.

Crente não podia acreditar. Estranhava voltar para casa tão cedo, num ônibus tão vazio onde ninguém notava a desolação que havia em seu interior. Ele perguntava a Deus por que aquilo lhe acontecia agora, logo quando tinha comprado um novo dormitório para sua filha que chegaria ao mundo em poucos meses. Entre clamores e cálculos, ele controlava a língua para não dizer qualquer coisa ingrata a Deus, embora não compreendesse como alguém como ele podia sofrer de tal injustiça.

– Essas coisas acontecem, nós vamos superar isso também – disse sua esposa demonstrando um equilíbrio que também lhe fortalecia. – Não tenho dúvidas de que Deus está preparando algo melhor para nós depois de tudo isso.

II – Uma Surpresa

O equilíbrio de Crente e sua esposa desapareceram quando três meses se passaram e nada de novo acontecia. Até que uma nova porta, aparentemente proporcionada por Deus, abriu-se diante de Crente.

Era já a terceira visita que Crente fazia ao seu amigo Pastor, o administrador da igreja evangélica da qual Crente e sua família faziam parte, quando uma notícia lhe foi dada:

– Estive orando e Deus me mostrou um meio de lhe ajudar – disse Pastor – Como você está parado penso que o irmão poderia substituir o antigo zelador, que nos deixou mês passado.

Crente fingiu surpresa, mas já pensara na possibilidade de trabalhar para Pastor mesmo antes de ser demitido. Ele só podia ver nisso uma ação de Deus em seu favor.

Ele quase não ouvia mais nada quando o pastor disse: – Mas o irmão sabe que não estávamos preparados para qualquer investimento no momento, e por isso não posso pagar muito pelo seu trabalho, pelo menos para começar.

Ele aceitou a proposta de receber quase um terço do salário que recebia na antiga função para servir aos irmãos em todos os horários de atividade no templo da igreja. Isso lhe pesou no coração enquanto saía da residência do seu amigo Pastor. Todavia, ergueu a cabeça e disse para si mesmo que essa oportunidade inesperada era prova de que ele podia confiar em Deus, aquele que não desampara os justos. Lembrou-se até de ocasiões em que Deus, ou melhor, um pregador falando supostamente em nome de Deus, prometera que as coisas iam se transformar de repente na vida dele. Era um novo começo.

III – Grandes Amigos

No quarto aniversário de sua filha, aquela que estava para nascer no capítulo anterior, Crente convidou alguns amigos para uma pequena comemoração. A casa ficou cheia como nunca, pois na função de zelador da igreja ele fizera muitas amizades. Mas Pastor não foi convidado, embora todos julgassem que eles fossem grandes amigos.

A festa acabou por entristecer Crente, que não pôde alimentar tantos convidados como gostaria e viu a bebida acabar sem que nenhum cristão transformasse água em refrigerante. Naquela noite, após a festa, decidiu deixar a zeladoria da igreja. Notara que a igreja tinha atividades praticamente todos os dias e o tempo todo, notara que não tivera nada mais que duas semanas de descanso após o terceiro ano de trabalho, e notara principalmente, que a má remuneração que antes era “para começar” continuava a mesma e sem qualquer reajuste depois de tanto tempo.

Naqueles dias sua mulher, revoltada com a situação, repetia suas lamúrias constantemente dizendo que Crente deveria reclamar, procurar seus direitos na justiça... Mas ele não era capaz de fazer tal coisa. Ele dera sua palavra, e a palavra de Crente deve ser honrada. Mas quando finalmente não suportou mais a pressão, simplesmente arrumou uma desculpa e deixou sua função.

Isso também não lhe trouxe paz alguma, antes, mais acusações. Ele dizia a si mesmo: – Desde que me conheço por Crente nunca contara uma mentira. Não tenho entrevista de emprego nenhuma, eu pequei.

Além dele mesmo se acusar, os seus irmãos diziam que ele havia deixado Pastor “na mão”, o que foi um gesto de ingratidão depois de tanta ajuda que recebera.

Não demorou muitos para que a esposa de Crente, mulher submissa mas que sabia tomar as atitudes quando seu marido fraquejava, se irritasse com toda essa situação. Sem que ele soubesse ela foi até a residência de Pastor para lhe dizer tudo o que pensava. Ela ensaiou as palavras pelo caminho, e lá exigiu pagamento por todas as férias não usufruídas pela família, exigiu os décimos terceiros salários não pagos, e tudo aquilo que ela achava que mereciam.

Calmamente Pastor a ouviu falar, e quando ela já não tinha mais nada para dizer, respondeu com voz branda: – Minha irmã, Eu paguei ao seu marido exatamente o que combinamos, e isso é tudo o que nossa comunidade dispunha. Ele se lembra que veio à minha casa pedir ajuda e eu lhe atendi com boa vontade. Na ocasião, nem mesmo devia aceitar novos funcionários, mas o fiz pela grande consideração que tenho por vós. Eu não tirei seu marido do emprego anterior, não fiz qualquer promessa, não lhe dei prazos... Ele vinha semanalmente à minha casa lamentar e eu lhe fiz um favor. – Agora, amada irmã, vejo que vens à minha casa cobrar-me como se eu fosse uma pessoa injusta, o que muito me entristece.

A expressão de ira da mulher se transformava a cada frase emotiva do Pastor, e logo ele chegou à conclusão de que era um erro estar ali. Da maneira mais rápida que pôde encerrou a conversa e se foi. Pediu até que Pastor orasse a Deus por eles nas próximas semanas, quando Crente procuraria por uma nova ocupação.

Enfim, Crente seguiu sua vida sem tanto envolvimento na comunidade, e encontrou uma forma de consolar-se e crer num futuro melhor: ele diariamente repetia dentro de si que não prosperara naquela função porque servira a Deus todos esses anos com um coração ambicioso. E assim, acaba nossa pequena história.

Conclusão

Agora, amigo leitor, deixa-me expressar meu ponto de vista sobre as páginas que lemos. Crente, o personagem que criei é uma pessoa simples, que deseja “servir a Deus” como dizem os evangélicos e vê na oportunidade de trabalhar na igreja uma grande ocasião. Nada há de errado nisso. As igrejas, embora sejam instituições sem fins lucrativos, precisam ser administradas como qualquer outra empresa. Elas precisam de zeladores, secretários, administradores, seguranças, faxineiros, pintores etc.

Contudo, há uma particularidade na igreja como empresa: ela encontra com facilidade pessoas que aceitam exercer para elas atividades voluntárias. Essas pessoas fazem o que fazem para Deus, mas também servem assim a uma instituição humana. Diante dessa realidade, a igreja pode contar com um número bastante reduzido de funcionários efetivos, ou seja, que recebem para trabalhar. A igreja é, por isso, uma má empregadora.

Essa diferença gera outras particularidades. É claro que o serviço voluntário não é como o serviço pago. Quem busca excelência deve contratar alguém qualificado, selecionar currículos, mas contando com pessoas que oferecem apenas algumas horas semanais por uma ajuda não remunerada, que não possuem treinamento especializado, a igreja conta com diversas deficiências.

É aí que entre o Crente, nosso personagem. Ele preenche uma vaga que precisava de mais que um voluntário. O caso é que ele sonhava em um dia trabalhar só para Deus, e preencheu essa vaga após perder o emprego. Isso permitiu ao Pastor lhe pagar pouco, sem registro em carteira, abusando ao negar-lhe direitos trabalhistas garantidos por lei, e ainda por cima dizer que o estava ajudando. Crente é na verdade um trabalhador explorado, que, se procurasse a justiça seria devidamente defendido, mas nessa situação sujeitou-se à exploração e saiu como se devesse algo ao Pastor.

Esse é o “grande” truque. O explorador encontra quem lhe sirva por pouco e ainda saia grato. O explorador se torna um bem-feitor da humanidade, enquanto que o trabalhador que deveria ser recompensado é um eterno devedor.

Não é surpreendente que a igreja, instituição tão moralista quando o assunto é roubar a Deus nos dízimos, ou a opção homossexual de um jovem, ou o divórcio de um casal, torne-se tão cega às injustiças que comete na área trabalhista? Falando em lei, até onde eu seu você só dá ajuda financeira a qualquer instituição não lucrativa se quiser, e o dízimo é contrário a tal lei; até onde eu sei, o cidadão brasileiro tem o direito de escolher sua opção sexual livremente, direito negado pela igreja; até onde eu sei, o divórcio é um direito de todos, e o Estado reconhece novos casamentos como se fossem os primeiro, outro caso em que a igreja nega a validade da lei. Entretanto, a igreja sonega impostos ao manter funcionários sem registro em carteira, fazendo-se uma instituição criminosa.

Então a igreja admite que é contrária à lei? De modo nenhum. Seu um casal de jovens ainda não casados gera um filho, isso é motivo de grande escândalo nas igrejas, e nesse caso, o que se diz é que a lei deve ser obedecida. A igreja só reconhece um matrimônio quando há uma certidão de casamento. Mas curiosamente a mesma lei não é reconhecida nos casos que citei acima. Vai entender!

Devo dizer que condeno um mal estrutural nessa pequena narrativa, um mal sistêmico que em maior ou menor proporção, faz parte do modo de ser de diversas igrejas evangélicas do nosso país. Se alguém incluir aqui o nome de alguma igreja, eu não me responsabilizo por tal acusação direta. Também não condeno aqui ninguém de maneira pessoal, e por isso o personagem Pastor não é uma pessoa má em si mesma; ele é qualquer um que esteja integrado à instituições que alimentam esse sistema explorador.

Para distinguir melhor o problema sistêmico do pessoal, parafraseio J. D. Crossan: imagine um homem bom que trata com todo cuidado de seus escravos. Ele é um bom senhor de escravos, que não bate, não deixa-os famintos, não os desumaniza; todavia, é um senhor de escravos, que está integrado ao seu sistema social e não vê o erro que comete simplesmente por ser parte dele. Assim também trabalha nosso Pastor, destruindo famílias enquanto permite que a injustiça opere por meio de sua instituição cristã. A injustiça não foi criada por ele, mas ele segue ordens e tradições, e não é capaz de ver o mal que comete.

Na verdade estou buscando um meio de terminar esse texto e não o encontro. Então vou deixá-lo assim, meio incompleto, para que cada leitor medite e julgue sua participação em sistemas opressores como o da igreja que criei.

4 comentários:

Leandro disse...

Anderson, não freqüento igreja, tão pouco acredito que a instituição igreja salve, porém nunca tinha pensado no lado trabalhista explorador que as igrejas possuem, ótimo texto para refletir sobre o assunto, essa idéia de fé cega, é o que impera nas igrejas, vejo que as pessoas vão se tornado cada dia mais assíduas a elas, mais por medo do que por prazer, e é ai que ele vira um refém desse sistema e passam a fazer coisas que não fariam em estado normal. Se é que pode dizer assim.

Abraço
Léo

Edson disse...

Li em voz alta para sua mãe e ela está dizendo que tem muito orgulho do filho que tem, e ao mesmo tempo com certo receio pela sua coragem em publicar.
Eu acho que tem que ser assim, para que os próprios envolvidos reflitam se estão fazendo o bem ou mal.

Bjs do papai e mamãe.

Francisco Junior disse...

Eu me identifiquei muito com este texto. Gostei demais. Indico a todos que já passaram por abuso espiritual.

Anônimo disse...

Anderson a Paz do Senhor.
Impressionante este texto, realmente as igrejas neste ponto tem se utilizdo da mão de obra de um trabalhador, e de certa foma acabam descumprindo os direitos trabalhistas. Acredito que tal situação se dá pelo simples fato de serem imunes a tributação de impostos, taxas, e etc., mas mesmo sendo imunes, estão longes de serem isentas dos direitos trabalhista de outrem.
Um agrande abraço. Dailton