sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O COLETIVISMO COMO CHAVE DE LEITURA BÍBLICA

Introdução

Se estás entre os poucos leitores que lêem os textos que escrevo com freqüência, já deves ter notado que na maior parte do que escrevo trato das dificuldades intrínsecas à prática da interpretação bíblica.[1] Esse é o tema que me fascina, e para o qual tenho me dedicado dia após dia. É sobre ele que outra vez quero trabalhar nas próximas páginas, procurando compreender um dos vários empecilhos que conduzem os leitores modernos da Bíblia a inúmeros equívocos. O problema desta ocasião não é muito simples, pois temos que tratar de aspectos sociológicos para diferenciar a nossa cultura com sua própria maneira de pensar, daquela cultura em que estavam imersos os escritores da Bíblia. Assim, começaremos estudando as características mais marcantes dessas duas formas de sociedade a partir de Bruce J. Malina, escritor que trata do tema em O Evangelho Social de Jesus.[2]

Após essa primeira abordagem, que faremos da maneira mais sucinta possível, veremos também brevemente alguns exemplos, para que compreendamos como a imersão em um determinado tipo de sociedade pode condicionar nossa leitura e nos afastar do sentido pretendido pelo texto, fruto de uma cultura distinta. Imagino que será uma tarefa instrutiva, para ser lida pausadamente. Também creio que ao final nosso empenho terá sido gratificante, já que novos sentidos se abrirão diante dos olhos do leitor que até agora fora ignorante sobre o problema em pauta. Então, mãos à obra?

Culturas Individualista e Coletivista

Bruce J. Malina é um estudioso do Novo Testamento que faz uso abundante das ciências sociais. Neste caso, ele aproveita-se do trabalho de pesquisadores como Harry Triandis, que ele chama de “psicólogo social”, para explicar o funcionamento da cultura dos homens bíblicos. Temos assim duas formas de cultura social, a individualista, com a qual nós, brasileiros do século XXI, habitantes de ambientes urbanos como o de São Paulo, nos identificamos. Em contrapartida temos a cultura coletivista, que foi praticamente o único tipo de sociedade no mundo antigo e que predomina ainda hoje fora dos grandes centros urbanos influenciados pelos europeus e norte-americanos. Primeiro tratemos da cultura individualista, citando não todas, mas as mais significativas de suas características:

Os individualistas priorizam a pessoa e sua individualidade, dão ênfase às metas pessoais, e não às metas de seu grupo social. Como exemplo claro da transição para este tipo de cultura, temos a mudança de atitude social em relação ao casamento. Hoje as pessoas escolhem seus parceiros desconsiderando as opiniões dos pais, coisa que seria incompreensível antigamente. Como em primeiro lugar está a satisfação pessoal, as decisões são tomadas solitariamente, enquanto que a opinião dos outros é secundária. Mesmo dentro de uma família, cada indivíduo possui seu próprio senso de destino, o que se vê na religião dos individualistas, onde a salvação é uma conquista individual, e cada um dá conta de seus próprios atos.

Podemos dizer, então, que em nossa sociedade cada pessoa é definida por suas próprias realizações, não tendo tanta importância se somos filho de um doutor ou de um catador de lixo. Tu és para os outros o que tu fazes; o que conta são teus próprios diplomas e conquistas, e não mais as dos teus pais.

Como o que importa é a realização pessoal, nossa cultura acaba por sofrer com uma exacerbada competitividade, e geralmente temos dificuldades para nos integrarmos em grupos como igrejas, associações ou partidos políticos, dando a eles apenas uma porção limitada de nossa vida. Queremos, acima de tudo, manter nossa autonomia.

A distinção ficará mais clara a partir de agora, quando falaremos das culturas coletivistas: Neste tipo de sociedade estranha aos leitores citadinos de hoje, os objetivos do grupo a que se pertence estão acima dos objetivos individuais; o sucesso do grupo é o alvo, ainda que seus indivíduos sofram. Isso nos permite vislumbrar a razão pela qual membros de grupos islâmicos extremistas e coletivistas explodem-se a si mesmo como ato supremo de dedicação aos interesses coletivos; estes “mártires” não são loucos, antes são pessoas dedicadas ao seu grupo, e por tal ação são honrados entre eles mais do que se fossem doutores. Nessas sociedades, a integridade da família, do clã ou tribo, determinam o comportamento dos indivíduos.

Nas sociedades coletivistas, repito, não são as realização pessoais que determinam o status da pessoa, mas sim sua participação no grupo. Onde se nasceu, sua descendência e classe social, definem quem você é, e daí explica-se a ênfase bíblica em genealogias e na preocupação com a filiação tribal. Os evangelistas se preocuparam e criaram diversos mitos sobre o nascimento de Jesus simplesmente porque os judeus não podiam aceitar que o Messias fosse um carpinteiro de Nazaré; então fizeram Jesus nascer em Belem, como um novo Davi, fizeram-no vir do Egito, como um novo Moisés, etc. Hoje não haveria problemas em pregar Jesus como homem sem posses, de pai desconhecido, de uma aldeia sem importância... mas na época isso era determinando para o sucesso da missão cristã.

Dissemos que hoje vivemos sob o mal da competitividade, mas os coletivistas também competem a seu modo. Eles possuem grande dificuldade de envolver-se com membros de grupos externos, e nalguns casos, a simples filiação a um desses grupos distintos é motivo suficiente para que todos eles sejam vistos como inimigos. Mesmo hoje, islâmicos já nascem inimigos dos israelenses, e por isso, na “guerra santa” que travam incessantemente, não há mortos inocentes; todos da raça alheia são inimigos, indistintamente. Na Bíblia, temos várias proibições a respeito de casamentos entre judeus e gentios, e quando um judeu presta serviço terceirizado ao império romano coletando impostos dos seus patrícios como faziam os publicanos, é visto como um inimigo mais desprezível do que os próprios estrangeiros.

Fica fácil entender porque nas culturas coletivistas não é nenhum problema que os pais escolham os cônjuges dos filhos, sempre zelando pelos interesses do grupo acima dos interesses individuais. Uma possível fuga de um jovem para casar-se com um mulher de um grupo inimigo, como o cinema dos individualistas sempre retrata, é naquelas culturas uma traição extrema. E isso se estende a todos os aspectos da vida, sendo que a religião do grupo é a religião do indivíduo, a posição política do grupo é a posição política do indivíduo, e a condição econômica do grupo é a condição do econômica do indivíduo.

Certamente isso não é tudo o que pode ser dito sobre as distinções sobre culturas individualistas e coletivistas, mas é o suficiente para que passemos à análise de algumas passagens da Bíblia, que afinal, é o que nos importa.

Economia e Religião: o Reino de Deus é dos pobres

Começo a abordagem dos textos citando uma conhecida bem-aventurança que em sua versão em Lucas 6.20 diz:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”

Primeiro, tratando do aspecto econômico, o texto menciona os “pobres”. Não há dúvidas de que o texto se dirige ao grupo de judeu-cristãos que produziu e utilizaria o texto, o que nos leva a entender que todos eram considerados “pobres”, ou despossuídos de bens materiais. O segundo aspecto do texto é religioso, trata dos bem-aventurados (abençoados) que herdam o Reino de Deus. Então, o texto é bastante fechado por limitar a posse do Reino somente aos pobres, como se no grupo ninguém pudesse ficar rico, e como se ninguém fora dessa classe social pudesse almejar o Reino.

Leitores individualistas como nós, se estiverem dispostos a herdar o Reino de Deus, logo entendem que devem abrir mão de suas posses. Contudo, o texto é fruto de um autor coletivista, e mesmo que no cristianismo primitivo existissem algumas pessoas não tão pobres, isso não implica que eles perderiam o acesso ao Reino de Deus. Ou seja, as caracterizações são amplas, abrangentes; como a maioria deles era pobre, e como seus opositores (a elite sacerdotal ou romana) eram “ricos”, eles usam “pobre” e “rico” para se referir a grupos, e não a indivíduos. Quem herda o Reino não são os despossuídos, mas os que pertencem ao grupo que eles chamam aqui de “pobres”.

Na mentalidade bíblica, um romano, seja ele rico ou pobre, não entra no Reino de Deus, enquanto que um judeu-cristão, seja rico ou pobre, entra. A salvação na Bíblia não deve ser entendida como conquista pessoal, mas como um direito coletivo. Nos tempos bíblicos cada grupo social via-se como o povo eleito, hoje, mesmo entre os calvinistas não há mais esse tipo de eleição coletiva que depende apenas da pertença ao grupo escolhido, agora dentro de um mesmo ajuntamento há salvos e não-salvos.

Estendendo essa conclusão a outra passagem, podemos ver que quando Jesus disse: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” (Lc 18.24), o problema não estava na riqueza material em si, mas num mal sistêmico da sociedade, em que todo tipo de riqueza era fruto da exploração de outrem. Assim, os ricos, por mais distintos que fossem uns dos outros, eram vistos como um só grupo de opressores. Por sua vez, os pobres, ainda que entre eles houvessem bandidos e assassinos, são em termos gerais chamados de “justos”, posto que não compartilham da mesma vida confortável e desumanizadora da qual participam os ricos. Como escreveu J. D. Crossan, “O Deus judaico não tem opção preferencial pelos pobres; antes, o Deus judaico tem opção preferencial pela justiça”.[3] Quando os já citados publicanos passavam a trabalhar para o sistema opressor do império, automaticamente eram tratados como os ricos ou gentios, como se tivesse se desvencilhado de sua raiz e também do destino comum deles.

Eis aí a fonte de muitos equívocos em nossas interpretações da Bíblia, nós vemos as distinções de classes, as opções religiosas, e o destino eterno de maneira individual, enquanto que na verdade, todas elas eram aplicadas de maneira coletiva.

Família e Política

Seguindo em nosso estudo, voltamo-nos agora para outro texto que nos dará a ocasião para falar de outros dois aspectos sociais que são tratados de maneira coletivista na Bíblia. O texto é Marcos 6.17-18, e diz o seguinte:

“Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe (porquanto Herodes se casara com ela), mandara prender a João e atá-lo no cárcere. Pois João lhe dizia: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão.”

O texto fala da prisão de João Batista. O ocorrido foi o seguinte: Herodes Antipas governava a Galiléia e casara-se com Herodíades, que antes fora a mulher de seu irmão Herodes Filipe. O profeta João criticara publicamente o ato de Antipas, dizendo que isso não era lícito, o que levou o tetrarca a prendê-lo e depois matá-lo. Nós, da cultura individualista, não tardamos a relacionar a morte de João Batista com o pecado de Antipas, que forçara o divórcio da mulher para levá-la a um segundo casamento (Lv 18.16). Nós, à primeira vista, só vemos Antipas agindo por um interesse pessoal, como um homem moderno que se apaixona e comete erros em virtude dessa paixão irracional. Todavia, o problema é maior ainda.

Antipas não casara-se com Herodíades simplesmente por interesse pessoal, ele tinha também um interesse político. Antipas estava com sua popularidade em baixa, pois havia construído uma nova cidade em estilo helenístico para ser sua nova capital; ele até chamou-a de Tiberíades, em homenagem ao imperador Tibério. Além disso, a cidade foi edificada sobre um antigo cemitério, o que segundo a lei judaica a tornava permanentemente impura. Com efeito, sofrendo oposição popular por ir contra os interesses coletivos do povo, Antipas decide desposar Herodíades, que era descendente da antiga e ainda reverenciada linhagem asmonéia.[4] Como já foi dito acima, o vínculo familiar possuía grande relevância em termos de aceitação coletiva, e tudo isso nos leva a crer que o casamento de Antipas com Herodíades tinha o propósito de torná-lo um governante mais legitimamente judaico, mais aceito, culturalmente e coletivamente falando.[5]

A crítica de João Batista pode, portanto, ser vista pelos dois ângulos, mas o problema coletivo sem dúvida é mais relevante do que o individual. O Batista pode até ter criticado Antipas por somar mais um pecado pessoal à sua já extensa coleção, entretanto, era-lhe mais importante as ofensas à tradição judaica que esse tetrarca estava praticando; essa era a ofensa que atingia João e todo o povo. Tanto a atividade profética de João quanto sua prisão se explicam melhor a partir desse embate político do que numa mera discussão doutrinária. A voz de João estava destruindo os planos políticos de Antipas, ameaçando a estabilidade do seu governo, denegrindo sua já abalada imagem pública... Por isso Antipas, o tetrarca, se incomodou com o pregador e teve de calá-lo.

Outra vez vemos que os objetivos coletivos predominam sobre os individuais. Antipas, a exemplo de tantos outros líderes políticos, fazia casamentos por interesses políticas, e não por buscar a felicidade pessoal. Curioso é que não existe nenhuma menção à opinião do irmão de Antipas, Herodes Filipe, que perdera a esposa nessa transação, o que também pode nos servir para confirmar que tudo não passava de um acordo feito a partir dos interesses da família, e não de um caso de amor irresponsável como geralmente julgamos. Da mesma forma interpretamos a ação do profeta João Batista, que estava mais preocupado com a forma culturalmente inaceitável com que Antipas conduzia a nação do que com a salvação da alma do tetrarca.

Conclusão

É verdade que vimos apenas dois exemplos bíblicos com um pouco mais de detalhes, o que é uma amostragem irrisória diante da extensão da Bíblia. Mesmo assim, já ultrapassamos o número de páginas que esperávamos e penso que o nosso objetivo com esse texto já foi alcançado. Tivemos uma introdução à leitura que distingue os conceitos próprios da cultura coletivista enraizados a cada página da Bíblia dos nossos conceitos individualistas. O leitor certamente poderá, se assim desejar, continuar a ler a Bíblia por conta própria a partir desses novos conceitos, e poderá testar o que temos dito por si mesmo. Veja, por exemplo, o valor que tem a coragem de Davi ao enfrentar Golias em favor do seu povo; veja como é admirável a misericórdia de José que perdoa os irmãos que tiveram a coragem de trair seu próprio sangue; veja como é nobre a atitude de Jesus, que compartilha o pouco pão que tinha com a multidão, por considerá-los seus próximos...

Enfim, demos mais um passo em direção à leitura consciente da literatura bíblica, o que é nosso alvo individual e também coletivo.



[1] Veja outros textos do mesmo autor em “www.compartilhandonoblog.blogspot.com”.

[2] MALINA, B. J. O Evangelho Social de Jesus: O Reino de Deus em Perspectiva Mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004, pp. 322-330.

[3] CROSSAN, J. D. O Nascimento do Cristianismo: O que Aconteceu nos Anos que se Seguiram à Execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 362.

[4] Os asmoneus foram líderes político-religiosos da Palestina anterior a Jesus. Eles descendiam dos antigos libertadores populares conhecidos como Macabeus, que tomaram a liderança da nação da mão dos dominadores selêucidas em 162 a.C.

[5] CROSSAN, J. D. Texto e Contexto na Metodologia dos Estudos Sobre o Jesus Histórico. In. Jesus de Nazaré: Uma Outra História. Vários Autores. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006, pp. 165-192.

Um comentário:

edson disse...

Parabéns, Mestre. A cada texto publicado, voce ensina mais do que qualquer culto evangélico.Continue assim, e um dia, quando tudo estiver reunido em um livro, será referência para os futuros Líderes religiosos.Agradeço a Deus todos os dias a benção de ter sido escolhido para ser seu pai.