terça-feira, 11 de setembro de 2012

HORIZONTE UTÓPICO? RICARDO GONDIM E OS FUNDAMENTALISTAS NUM DEBATE INFINDÁVEL



Não faz muito tempo que surgiu na internet uma árdua discussão sobre o conceito de “horizonte utópico”. Um vídeo do pastor Ricardo Gondim empregando o conceito foi divulgado, e muitos foram os que se colocaram contra o que ele dizia. Eu não gostaria de tomar partido nesse embate, mas acho que posso contribuir a meu modo com a discussão.
O que aconteceu era previsível. Ricardo Gondim sempre foi admirado como pregador evangélico até que seu discurso mudou, ficando inadequado no tradicionalismo evangélico e galgando adversários ferrenhos. Ele passou a ser chamado de “herege”. A mudança no seu discurso é natural, ele foi estudar, fez mestrado, cresceu como pessoa, conheceu pensadores da religião de fora do seu círculo tradicional... Em todo processo de aprendizagem somos confrontados, transformados, e para pessoas que como ele, falam em público com frequência, isso é um risco. Gondim, todavia, possui uma grande virtude; mais do que um pensador, ele é corajoso, e não se importou com o prestígio que porventura tinha, nem com a repercussão negativa de suas novas posturas. Passou a falar o que pensava comprometido com a verdade (que pode ser transitória neste caso), coisa que a grande maioria dos líderes religiosos não fazem, por medo de perder o que construíram. Então, se há uma crítica a fazer a Ricardo Gondim, talvez seja esta: ele expôs suas ideias publicamente cedo demais, e possivelmente faria com mais cautela se desse tempo para que tais ideias amadurecessem. Mas minha crítica não tem tanto valor, já que faço o mesmo, recebo as críticas (não tantas já que não sou tão conhecido na mídia), e mudo de ideia frequentemente sem nenhum constrangimento.
 No caso do “horizonte utópico”, Gondim disse (e sempre há o risco de entendermos mal a questão quando vemos um texto ou vídeo fora de seu contexto existencial) que o conceito se aplicava à volta de Cristo, ou seja, que a promessa de que Jesus voltaria glorificado à terra tinha a função de motivar, incentivar, dar esperança àqueles que creem. Segundo o conceito, que supostamente ele herdou do teólogo Jürgen Moltamnn, essa esperança seria utópica, permaneceria sempre no horizonte, o que, convenhamos, obviamente suscitaria sentimentos violentos e pouco cristãos em muitas audiências. Gondim sabe muito bem que lida com um público fundamentalista, que não sabe ler a Bíblia a não ser de maneira literal. Ele sabia que estava comprando brigas.
Agora ele multiplicava ainda mais o número dos seus rivais. Os fundamentalistas passaram a demonizá-lo na internet, e no fim das contas, todo o embate mostrou-se pouco produtivo. Primeiro, não é possível discutir essas questões com os fundamentalistas, que citam versículos como se fossem provas históricas e científicas de tudo o que eles creem. Os fundamentalistas não sabem ler a Bíblia, e jamais seriam convencidos a não ser que aceitassem passar um bom tempo sentados em salas de aula para aprender a ler. O pastor Ricardo Gondim pode não tido a intenção, mas questionou a “confiabilidade” (equivocada) que os evangélicos atribuem ao texto bíblico, acabou alegando que o “contrato” que há entre Deus e os cristãos é um mero simulacro, e dessa forma deu a eles um motivo para atacar, para expressar toda sua intolerância. Eles agora podiam justificar sua violência como sendo uma reação aos ataques heréticos empreendidos pelos demônios; eles podiam dizer que estavam numa “guerra santa”.
Por sua vez, Gondim também estava errado. O conceito do “horizonte utópico” é útil, mas não nesse caso. Assim como os fundamentalistas, ele também não fez um bom uso do texto bíblico, que concordemos ou não, afirma a volta literal do Cristo. Essa é a fé expressa pelo texto, é sua teologia, e por mais que o cumprimento dessa promessa nos pareça tardio ou improvável, os leitores de fé e o próprio texto acreditam nele. Nesse caso, temos um horizonte, um motivo para esperar e para se inspirar, mas não poderemos esperar que os cristãos aceitem o uso do termo “utopia” para descrevê-lo. A Bíblia nos traz outros “horizontes utópicos”, como por exemplo, quando em 1Pedro lemos “Sede santos, porque eu sou santo”. Nesse caso, todo leitor de fé sabe muito bem que nunca poderá ser santo igual a Deus, mas aceita o convite para continuar procurando a santidade. Pode ser que o alvo nunca seja atingido, e nem por isso dizemos que Deus nos fez um convite falso; o próprio leitor sabe que o objetivo do texto é oferecer um motivo para sermos melhores, mas não espera se tornar um deus.
Certamente não foi o pastor Ricardo Gondim o criador das ideias pelas quais agora é atacado; o problema com ele é especial porque antes ele havia sido um porta-voz evangélico, e as expectativas do público evangélico são frustradas quando o “pastor” passa a falar de coisas que não coincidem com o que eles gostam de ouvir. Também é relevante que, embora Gondim tenha mudado, evoluído, essa nova consciência que assumiu ainda não encontrou lugar apropriado. Embora não o conheça bem, suponho que seu modo de vida não tenha sofrido mudanças na mesma proporção, suponho que sua igreja continue trabalhando segundo o “antigo” modelo evangélico, e que seu público (ideal) ainda possa ser rotulado como “evangélico”. A partir de minha própria experiência, digo que entendo um pouco desse processo, pelo que posso dizer que as mudanças ideológicas se sucedem primeiro, puxando atrás de si um longo caminho de renovações que deve influenciar toda a vida, as relações sociais, familiares, profissionais etc. Gondim está no processo, sofrendo com ele, é verdade, mas espero que apesar dos erros e retaliações, tenha a força para continuar o que já começou. A igreja cristã precisa disso.
Quanto aos fundamentalistas, e provavelmente muitos dos meus leitores estão entre eles, desejo que também enfrentem crises como essas, que aprendam, que cresçam. É decepcionante descobrir que nossa fé estivera baseada em fantasias, eu sei, mas não há outro caminho para aqueles que querem amadurecer na fé. Enquanto os falsos teólogos, líderes cristãos, continuarem usando suas verdades indiscutíveis para justificar o ódio, pouca esperança há de que essa igreja venha a se salvar da estupidez que lhe é peculiar, e que só ela não vê.

4 comentários:

Em busca da verdade disse...

ola anderson... otimo texto... ajuda nos ai e coloca letra branca ja que vc mudou a cor, esta meio ruim de ler. (bom falo por mim) obrigado curto muito seus textos.

Nilson Gomes disse...

Olá meu caro Anderson, fui teu aluno no ICEC tive este privilégio. Lí este texto e confesso, estou maravilhado pela tua postura e pela contribuição que me deste afim de que eu mesmo tenha uma melhor compreensão nas leituras que faço e que devo fazer. Parabéns pelo texto...

Nilson Gomes

Anônimo disse...

Vc pode ter teologia mestrado doutorado,porem,deve aprender a respeitar a fé dos outros,suas afirmacoes e interpretacao da biblia nao é uma verdade absoluta.

Anderson de Oliveira Lima disse...

Mais um "Anônimo" contrário às minhas opiniões! Não é o primeiro.

Caro amigo, a transparência é necessária para que sua opinião seja respeitada. Por que se sente envergonhado em dizer que discorda? Em ambientes civilizados, sabemos discutir e discordar amigavelmente. Lendo outros textos desse blog, vai notar que não excluo os comentários negativos, que por vezes, são muito mais agressivos que o seu.

Curioso é que esse texto em si não traz grandes críticas, nem interpretações bíblicas. Só uma discussão sobre uma polêmica causada pelo Pr. Ricardo Gondim.

Nunca disse que minhas afirmações e interpretação são absolutas. Meus alunos sabem que mudo de opiniões, que peço para que eles não aceitem minhas ideias prontamente...

Também não sei em que momento desrespeitei a fé alheia. Pode me mostrar onde fiz isso? Se realmente há um desrespeito, eu excluo; não é essa minha intenção. Porém, temos o direito de falar do que quisermos, e de apontar os erros dos outros para evitar sua proliferação.