sexta-feira, 14 de setembro de 2012

FILMES RELIGIOSOS, VIOLÊNCIA RELIGIOSA: EVANGÉLICOS E MUÇULMANOS DEFENDEM SEUS PROFETAS


Fiquei surpreso quando, um dia depois de escrever um texto sobre os protestos evangélicos contra o projeto de Renato Aragão (veja a postagem anterior), os jornais noticiaram ataques a representações diplomáticas norte-americanas em diversos países governados por regimes islâmicos.


Eu critiquei no texto anterior a atitude dos evangélicos diante da mera possibilidade da produção de um filme que supostamente diminuiria a importância de Jesus na história, e cheguei a comparar essa atitude àquela típica dos países muçulmanos mais extremistas. Agora, também por causa de um filme muito mais agressivo que parece ridicularizar o islamismo e dizem ofender a memória do profeta Maomé, muitos grupos muçulmanos protestaram violentamente.

Não vi nenhum evangélico defendendo a causa islâmica, apoiando seus ataques, embora tenham feito algo semelhante e antes de assistirem qualquer filme, prova de que eles não agiram antes por princípios éticos, pedindo respeito para com sua confissão de fé, mas por um impulso fundamentalista que os faz crer que são os donos da verdade e que merecem direitos especiais.

Pior é que no caso brasileiro o suposto autor do filme, Renato Aragão, é um cristão católico, que dificilmente faria ofensas à imagem de Jesus como se supôs. Se repudio a violência muçulmana, também tenho que repudiar a atitude dos evangélicos, que pode não ter se mostrado tão violenta a ponto de causar mortes, mas que de forma bem mais arbitrária, nasceu de meros boatos sobre um filme que nem existe.

Enfim, o alerta que pretendo deixar com tudo isso é este: mais um pouco de poder nas mãos dos evangélicos e eles instituirão um regime ditatorial aqui no Brasil, regime muito próximo àquele que muçulmanos de vários países estão rejeitando nos últimos tempos. Volto a esse tema em breve, na próxima postagem.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

OS EVANGÉLICOS E SUAS GUERRAS IMAGINÁRIAS NAS REDES SOCIAIS


Já faz dias que tenho visto essa postagem nas redes sociais, e hoje, por motivo desconhecido, não aguentei ficar calado, resolvi expressar aqui minha decepção, espaço que criei para tais desabafos e experiências.

Vamos ao texto que os evangélicos estão postando: Os evangélicos comemoram porque supostamente frustraram um projeto de um filme supostamente anti-cristão que supostamente Renato Aragão pretendia lançar. Isso tudo é suposição, ok? Dá pra ver que o tal filme não passa de um projeto, pelo que a briga é por conta desse título provisório: "O Segundo Filho de Deus". Também está claro que ninguém leu o roteiro, ninguém sabe do que se trata, nem mesmo o tal Lauro Jardim, colunista do site da Veja que é citado duas vezes apenas para dar credibilidade ao conteúdo.

O texto também apoia sua posição em desconhecidos "portais", mas estes também não são citados, não temos a chance de consultá-los e de nos aprofundar na questão. Esses "portais" também estão presentes de maneira muito imprecisa apenas como recurso retórico, para dar confiabilidade ao texto, para não deixar o leitor notar que tudo não passa de mera especulação. Algo semelhante pode ser dito sobre a data que o texto apresenta (sexta-feira, 31), dia da publicação da Veja, a qual não passa de uma "ancoragem" que de alguma forma liga o texto à realidade, informação que geralmente não é decisiva para o conteúdo em si.

Depois, o próprio texto diz, citando uma tal de "Focus Filmes", que as especulações sobre o conteúdo anti-cristão do filme são falsas, que a história não seria essa. Apesar de tudo o que está dito não ser de grande confiança, o próprio texto nos mostra que não há motivos para se discutir. Estão numa guerra imaginária, e os alvos podem ser inocentes dos ataques sofridos. Outro dado desse tipo que o texto traz é aquele em que a Sony não teria apoiado o projeto por razões desconhecidas. Talvez a Sony tenha influenciado na decisão de adiar o filme mais do que a "retalhiação" dos evangélicos, mas o texto não está interessados nesses detalhes.
Veja na parte de baixo da imagem que a revista Veja é citada como "fonte", o que é uma mentira, posto que o conteúdo não traz citações precisas da revista, mas uma leitura bastante parcial do que ela teria publicado em sua versão digital. Novamente, temos um recurso retórico empregado para manipular o leitor.

Pior ainda, lemos no final um convite: "se você está feliz com isso, compartilhe". Os evangélicos que compartilham esse texto, que curtem, que festejam, estão comemorando o quê? A ideia de que eles podem ter frustrado um projeto cinematográfico que lhes parece contrário à confissão de fé? Não podem as pessoas que pensam diferente se expressar artisticamente? Querem eles restaurar o sistema ditatorial no Brasil? Não é esse um modo de agir próprio dos estados islâmicos extremistas? Depois ainda vão pedir nosso voto para instaurar um Brasil evangélico e opressor da liberdade humana...

Mas além da atitude opressiva que demonstram, de não notarem que podem estar prejudicando inocentes que só queriam produzir um filme como qualquer outro, também me incomoda a falta de sensibilidade artística desse grupo religioso. Os evangelhos do Novo Testamento nos contam uma história bonita, onde um homem admirável foi morto pelos romanos por expressar um discurso religioso de características subversivas. Ali, Jesus, que aos olhos humanos foi derrotado, transforma-se no vencedor; ele volta à vida e assume uma posição de honra e poder que supera a dos seus assassinos. É uma história de fracos que vencem, uma história que transmitem esperança.

Suponhamos que realmente o filme rejeitado de Renato Aragão seja aquele em que um outro "filho de Deus" vem ao mundo para completar a missão de Jesus. Essa história não seria tão absurda artisticamente falando, ela é até criativa. Faz-se uma nova interpretação da história de Jesus, onde um projeto divino é realizado em duas etapas, admitindo que poderia eleger outro messias. Na minha opinião, o tema aproveita bem uma das muitas possibilidades interpretativas que são possíveis para a história da morte de Jesus, embora saibamos que essa leitura não coincide com a adotada pelo cristianismo.

Os evangélicos não sabem brincar... Não sabem o que é ficção, não sabem como funciona o humor, e por isso lêem a Bíblia como verdade histórica e depois tentam evangelizar os outros através da exibição daquele filme do Mel Gibson sobre Jesus, que é católico, fictício, hipotético, e também faz uma leitura muito pessoal e violenta da morte de Jesus. Mas como esse filme serve aos propósitos deles, o apoiaram. Agora, me envergonham (digo "me envergonham" porque talvez ainda seja parte involuntária desse grupo) com essa "festinha" pela vitória numa guerra imaginária e preconceituosa... (e todas as ofensas deselegantes que eu ainda gostaria de dizer aqui estão implícitas nessas reticências).

terça-feira, 11 de setembro de 2012

HORIZONTE UTÓPICO? RICARDO GONDIM E OS FUNDAMENTALISTAS NUM DEBATE INFINDÁVEL



Não faz muito tempo que surgiu na internet uma árdua discussão sobre o conceito de “horizonte utópico”. Um vídeo do pastor Ricardo Gondim empregando o conceito foi divulgado, e muitos foram os que se colocaram contra o que ele dizia. Eu não gostaria de tomar partido nesse embate, mas acho que posso contribuir a meu modo com a discussão.
O que aconteceu era previsível. Ricardo Gondim sempre foi admirado como pregador evangélico até que seu discurso mudou, ficando inadequado no tradicionalismo evangélico e galgando adversários ferrenhos. Ele passou a ser chamado de “herege”. A mudança no seu discurso é natural, ele foi estudar, fez mestrado, cresceu como pessoa, conheceu pensadores da religião de fora do seu círculo tradicional... Em todo processo de aprendizagem somos confrontados, transformados, e para pessoas que como ele, falam em público com frequência, isso é um risco. Gondim, todavia, possui uma grande virtude; mais do que um pensador, ele é corajoso, e não se importou com o prestígio que porventura tinha, nem com a repercussão negativa de suas novas posturas. Passou a falar o que pensava comprometido com a verdade (que pode ser transitória neste caso), coisa que a grande maioria dos líderes religiosos não fazem, por medo de perder o que construíram. Então, se há uma crítica a fazer a Ricardo Gondim, talvez seja esta: ele expôs suas ideias publicamente cedo demais, e possivelmente faria com mais cautela se desse tempo para que tais ideias amadurecessem. Mas minha crítica não tem tanto valor, já que faço o mesmo, recebo as críticas (não tantas já que não sou tão conhecido na mídia), e mudo de ideia frequentemente sem nenhum constrangimento.
 No caso do “horizonte utópico”, Gondim disse (e sempre há o risco de entendermos mal a questão quando vemos um texto ou vídeo fora de seu contexto existencial) que o conceito se aplicava à volta de Cristo, ou seja, que a promessa de que Jesus voltaria glorificado à terra tinha a função de motivar, incentivar, dar esperança àqueles que creem. Segundo o conceito, que supostamente ele herdou do teólogo Jürgen Moltamnn, essa esperança seria utópica, permaneceria sempre no horizonte, o que, convenhamos, obviamente suscitaria sentimentos violentos e pouco cristãos em muitas audiências. Gondim sabe muito bem que lida com um público fundamentalista, que não sabe ler a Bíblia a não ser de maneira literal. Ele sabia que estava comprando brigas.
Agora ele multiplicava ainda mais o número dos seus rivais. Os fundamentalistas passaram a demonizá-lo na internet, e no fim das contas, todo o embate mostrou-se pouco produtivo. Primeiro, não é possível discutir essas questões com os fundamentalistas, que citam versículos como se fossem provas históricas e científicas de tudo o que eles creem. Os fundamentalistas não sabem ler a Bíblia, e jamais seriam convencidos a não ser que aceitassem passar um bom tempo sentados em salas de aula para aprender a ler. O pastor Ricardo Gondim pode não tido a intenção, mas questionou a “confiabilidade” (equivocada) que os evangélicos atribuem ao texto bíblico, acabou alegando que o “contrato” que há entre Deus e os cristãos é um mero simulacro, e dessa forma deu a eles um motivo para atacar, para expressar toda sua intolerância. Eles agora podiam justificar sua violência como sendo uma reação aos ataques heréticos empreendidos pelos demônios; eles podiam dizer que estavam numa “guerra santa”.
Por sua vez, Gondim também estava errado. O conceito do “horizonte utópico” é útil, mas não nesse caso. Assim como os fundamentalistas, ele também não fez um bom uso do texto bíblico, que concordemos ou não, afirma a volta literal do Cristo. Essa é a fé expressa pelo texto, é sua teologia, e por mais que o cumprimento dessa promessa nos pareça tardio ou improvável, os leitores de fé e o próprio texto acreditam nele. Nesse caso, temos um horizonte, um motivo para esperar e para se inspirar, mas não poderemos esperar que os cristãos aceitem o uso do termo “utopia” para descrevê-lo. A Bíblia nos traz outros “horizontes utópicos”, como por exemplo, quando em 1Pedro lemos “Sede santos, porque eu sou santo”. Nesse caso, todo leitor de fé sabe muito bem que nunca poderá ser santo igual a Deus, mas aceita o convite para continuar procurando a santidade. Pode ser que o alvo nunca seja atingido, e nem por isso dizemos que Deus nos fez um convite falso; o próprio leitor sabe que o objetivo do texto é oferecer um motivo para sermos melhores, mas não espera se tornar um deus.
Certamente não foi o pastor Ricardo Gondim o criador das ideias pelas quais agora é atacado; o problema com ele é especial porque antes ele havia sido um porta-voz evangélico, e as expectativas do público evangélico são frustradas quando o “pastor” passa a falar de coisas que não coincidem com o que eles gostam de ouvir. Também é relevante que, embora Gondim tenha mudado, evoluído, essa nova consciência que assumiu ainda não encontrou lugar apropriado. Embora não o conheça bem, suponho que seu modo de vida não tenha sofrido mudanças na mesma proporção, suponho que sua igreja continue trabalhando segundo o “antigo” modelo evangélico, e que seu público (ideal) ainda possa ser rotulado como “evangélico”. A partir de minha própria experiência, digo que entendo um pouco desse processo, pelo que posso dizer que as mudanças ideológicas se sucedem primeiro, puxando atrás de si um longo caminho de renovações que deve influenciar toda a vida, as relações sociais, familiares, profissionais etc. Gondim está no processo, sofrendo com ele, é verdade, mas espero que apesar dos erros e retaliações, tenha a força para continuar o que já começou. A igreja cristã precisa disso.
Quanto aos fundamentalistas, e provavelmente muitos dos meus leitores estão entre eles, desejo que também enfrentem crises como essas, que aprendam, que cresçam. É decepcionante descobrir que nossa fé estivera baseada em fantasias, eu sei, mas não há outro caminho para aqueles que querem amadurecer na fé. Enquanto os falsos teólogos, líderes cristãos, continuarem usando suas verdades indiscutíveis para justificar o ódio, pouca esperança há de que essa igreja venha a se salvar da estupidez que lhe é peculiar, e que só ela não vê.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

DISCURSOS RELIGIOSOS DESIGUAIS EM NOME DO AMOR

Amigos, acabo de ver uma postagem feita no Facebook, de autoria cristã evangélica, que me deixou bastante contrariado. Vou acrescentar a imagem abaixo e peço que leiam. Depois, incluo aqui os mesmos comentários que fiz ao texto na internet. Reflitam e opinem, por favor:



Meus comentários no Facebook: A honra é só para o marido? Só ele é ousado e capaz de enfrentar desafios? De que autoridade estão falando que só uma parte tem? E a esposa é uma criança indefesa agora? Acho que as intenções são ótimas, mas esse ensinamento só mantém as estruturas desiguais que a sociedade machista estabeleceu para a sociedade em geral. As diferenças existem, mas na família e no mundo, a igualdade deve ser o princípio regente. As mulheres deviam questionar qualquer tipo de pedido à "submissão" não justificada a não ser por princípios religiosos tão antigos quanto a poligamia.


Análise Crítica para o Blog:


Realmente, nota-se que o texto foi produzido com a intenção de ajudar casais a viverem de maneira mais harmoniosa. Pede-se respeito, carinho, companheirismo, demonstrações de amor... Todavia, os pedidos feitos a homens e mulheres são diferentes, e não parecem separados com base nalguma explicação psicológica. Notemos que o homem precisa ser apoiado, honrado, respeitado... O marido é um líder na família, um conquistador que enfrenta desafios e precisa de apoio para vencer corajosamente os adversários externos. Ele protege a família, cuida da esposa como se ela fosse uma criança indefesa, e merece respeito especial. Por sua vez, a esposa não parece ter os mesmos desafios, sua atuação é basicamente interna, voltada para o lar e para o marido. A mulher é fraca, precisa que outro a proteja, é dependente, e no final deve respeitar a “autoridade” do homem e não criticá-lo.
É importante ressaltar que a grande manipulação empregada é a intimidação, quando a “inquestionável” autoridade de Deus é evocada para justificar a submissão feminina.
Por fim, nos parece evidente que todo o discurso religioso trabalha pela manutenção da estrutura familiar mais tradicional em os homens são líderes das suas casas, autoridade que não deve ser discutida, apenas aceita. O papel das mulheres é cuidar do lar, servir ao marido; ela é fraca e incapaz de enfrentar os mesmos desafios, pelo que o lugar mais apropriado dela é mesmo o lar. Estamos falando de donas de casa apenas. Em suma, esses conselhos supostamente religiosos só mantêm as estruturas desiguais e machistas que o cristianismo estabeleceu para a sociedade em geral. O texto age como destinador, pedindo que os casais se submetam ao modelo tradicional de família hierarquizada e machista, e seu grande argumento é que esta é a vontade de Deus. Os destinatários cujos valores religiosos são semelhantes serão os mais facilmente manipuláveis, e quando aceitam tal contrato julgam obedecer a Deus, e não a este outro enunciador religioso e antiquado.
Se por um lado podemos dizer que eram boas as intenções, por outro podemos afirmar que o autor do texto é também alguém que foi manipulado pelo discurso religioso formulado a séculos, e que também julga ser alguém a serviço de Deus. A grande questão é pela aplicabilidade desse modelo familiar na sociedade moderna em que as mulheres não atuam exclusivamente no lar, nem são mais aqueles sujeitos frágeis, despreparados para a vida fora de casa, completamente dependentes economicamente dos seus maridos. As mulheres modernas também são confrontadas com outros contratos sociais que sugerem que elas devem ser livres das antigas opressões machistas, que elas não devem aceitar a desigualdade. Assim, a igreja evangélica expressa-se de maneira antiquada, ultrapassada, e produz mais problemas que soluções. Sem dúvida casais passam a viver de maneira mais harmoniosa frente a tais conselhos, mas no geral, o discurso evangélico vai se mostrando cada vez mais desatualizado e desnecessário diante da sociedade que o cerca, produzindo cidadãos conservadores e preconceituosos quanto aos demais, e se tornando cada vez mais depreciada. Sugeriríamos que tais empreendimentos voltados para os valores familiares se tualizassem, mas para isso seria necessário, antes de mais nada, aprender a ler a Bíblia fora da perspectiva fundamentalista que impera nesse meio religioso. Não dá mais para continuar dizendo às mulheres: sejam submissas aos homens, porque é assim que Deus quer e pronto.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

NOVO ARTIGO PUBLICADO: TEOLOGIA E LITERATURA BÍBLICA

Gostaria de comunicar a recente publicação de mais um artigo meu. A Revista Theos (http://www.revistatheos.com.br/), periódico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, novamente abriu-me um importante espaço para compartilhar nossas ideias, contribuindo assim com autores e pesquisadores como e com os estudiosos de teologia em geral.

Acessem o link da revista e baixem este ou outros artigos que lhes interessar.

Anderson.

ISSO É NOTÍCIA OU DISCURSO RELIGIOSO?



O exemplo abaixo foi tirado de um “blog” que defende o chamado “criacionismo científico”, proponho que o analisemos segundo os critérios apresentados nas páginas anteriores, sobre as estratégias dos discursos religiosos:
“MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciência”. Este é o título da matéria feita pelo Jornal Folha de São Paulo, do dia 13/12/2008, onde a secretária da Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar, mostra a opinião do MEC sobre o assunto, informando que não considera a teoria do Criacionismo Científico uma ciência, tendo como base a opinião da maioria dos cientistas na área. Leia sua declaração: "[O ensino do criacionismo como ciência] é uma posição que consideramos incoerente com o ambiente de uma escola em que se busca o conhecimento científico e se incentiva a pesquisa".
Opinião divergente tem o grupo Pueri Domus Escolas Associadas, uma rede laica que reúne 160 escolas no Brasil inteiro, que apoia a exposição da teoria criacionista nas salas de aula, e sobre o assunto vale o comentário do Lilio Alonso Paoliel-lo Júnior, diretor de conteúdo da rede associada, informando que o ensino das duas teorias é um benefício para promover o debate: "Negativo seria não deixar que a discussão acontecesse. É uma questão de posição pedagógica. O conteúdo é aceito por pais das escolas laicas e das religiosas", diz o diretor.
Como dissemos, essa suposta notícia está postada num blog de opinião declarada a favor do criacionismo (teoria baseada na leitura literal de relatos míticos da Bíblia que contam como Deus criou o mundo, teoria religiosa que vê do darwinismo evolucionista seu grande rival). Saber qual a posição do enunciador já nos ajuda a identificar os caminhos da argumentação. Notemos que o texto segue os critérios jornalísticos, parece imparcial, narrado em terceira pessoa, e o narrador nunca expõe sua opinião diretamente.
Aqueles recursos que criam a sensação de imparcialidade, objetividade, cientificidade, estão todos presentes. Vemos toda a atenção dada aos nomes das pessoas, à data e fonte da publicação, às instituições envolvidas. Temos também as citações, e a primeira, que está de acordo com a posição do MEC e com “cientistas da área”, e da secretária da educação. Nesse caso a citação é completamente desnecessária; as palavras de Maria do Pilar não dizem nada que já não tenhamos compreendido a partir do texto anterior. Temos aí um recurso de ancoragem do texto com a realidade, e como leitores, sentimos que estamos sabendo das coisas como realmente aconteceram.
Mas o narrador quer ir adiante, quer demonstrar que há um problema na decisão dos primeiros, então usa outra instituição, o colégio Pueri Domus que é uma instituição de ensino voltado para crianças cujas famílias possuem alto padrão econômico. É interessante notar que, embora essa instituição não tenha a mesma “autoridade” que o MEC nem o conhecimento específico dos “cientistas da área”, o narrador quer exaltar suas virtudes para fazer de sua opinião algo convincente. Então ele usa a designação “laica”, para dizer que eles não são cristãos fanáticos defendendo uma causa religiosa (acusação certamente recorrente contra os defensores dessa opinião), e diz que o Pueri Domus conta com 160 escolas no Brasil, um recurso quantitativo que procura dar importância à instituição. Só então vemos a segunda citação, desta vez, de um representante do Pueri Domus que apoia o ensino do criacionismo nas escolas de nível fundamental.
O diretor do colégio diz que seria negativo não deixar que a discussão ocorresse, ou seja, não permitir que se ensinasse o criacionismo ao menos junto com outras teorias supostamente mais científicas. O argumento é de caráter científico, evoca a liberdade de expressão e o direito que temos à informação, a liberdade de escolha. Todavia, ignora que a questão é outra; o problema é que a escola é, na primeira opinião, lugar para se discutir temas científicos, e o criacionismo, por não ser considerado científico por aqueles, não deve ser discutido na escola. Claro que o direito a se discutir o tema é dado a todo cidadão, mas noutro ambiente, quiçá, na igreja. Mas não é isso o que o texto quer nos dizer; lendo-o, temos a impressão de que o MEC está infligindo os nossos direitos, que há uma espécie de “perseguição” ou de preconceito contra o criacionismo. Todavia, o que está em pauta é a cientificidade do criacionismo, que parece ser questão resolvida para o enunciador, e que por isso apresenta a notícia tentando defender sua causa diante de um público religioso e de pretensões racionais.

Fonte: http://criacionismocientifico.blogspot.com.br/2008/12/saiu-na-folha-mec-diz-que-criacionismo.html

terça-feira, 21 de agosto de 2012

OS DISCURSOS RELIGIOSOS E SEUS RECURSOS RETÓRICOS


Já dedicamos algumas páginas à análise dos discursos religiosos, mas até então, nossas observações se resumiram ao conteúdo dos discursos. Nossa atenção esteve voltada para as ofertas, tentações, intimidações... Desta feita nossa análise dos discursos religiosos se voltará para questões externas, para recursos retóricos, características literárias, estratégias empregadas durante o processo de enunciação dos discursos que têm por objetivo conduzir o leitor à aceitação dos valores defendidos no texto. Passamos a outro nível da linguagem, o discursivo, e já não será apenas o conteúdo que nos importará, mas principalmente o modo como esse é transmitido.
            Conhecemos diversas estratégias linguísticas que visam criar no texto sentidos de realidade, objetividade, imparcialidade, e é claro que esses recursos são abundantemente empregados nos textos religiosos. Sabemos, por exemplo, que a narração em terceira pessoa transmite ao leitor a impressão de distanciamento, de racionalidade, diferente da passionalidade comum aos textos narrados em primeira pessoa. Não é por acaso que os textos acadêmicos são narrados em terceira pessoa, e geralmente no plural, para o leitor tenha a sensação de estar lendo teses, hipóteses e argumentos não de um sujeito individual, mas de toda uma comunidade científica. Assim, em vez de dizer “minha hipótese é...”, o acadêmico diz “nossa hipótese é...”. Também são recursos desse tipo o emprego de muitas aspas com citações alheias que servem mais para confirmar uma ideia defendida do que propriamente para acrescentar algo novo. Nas citações, o autor toma emprestado a autoridade de outro, tenta nos convencer por meio de breves fragmentos descontextualizados de que suas afirmações são verdadeiras e de ampla aceitação. Apesar da aparente objetividade desse linguajar acadêmico, a própria evolução de cada uma das áreas do conhecimento humano é prova de que mesmo os argumentos mais bem desenvolvidos acabam, num momento futuro, sendo reconsiderados.
            Outro exemplo de discurso que faz uso abundante desses recursos retóricos é o discurso jornalístico. Faz-se na imprensa o uso constante de citações, exibe-se amostras de documentos, trechos de supostas gravações telefônicas, e tudo isso passa a ideia de que realmente foi empreendida uma grande investigação. Apesar de toda a informação ser selecionada e interpretada pelo autor do discurso, têm-se a impressão de que este apenas está transmitindo a notícia, contando os fatos sem emitir opiniões pessoais ou fazer julgamentos; isso, contudo, é mera sensação criada pelo modo como o texto está construído, é o resultado das estratégias literárias bem empregadas para convencer o outro. O curioso é que lendo os jornais, pensamos que as evidências de um determinado crime que anunciam parecem claras, e somos conduzidos a fazer julgamentos precipitados; depois, quando um verdadeiro julgamento ocorre, os advogados tratam de esclarecer quantas daquelas evidências podem ser interpretadas de outras maneiras, como um olhar diferente revela a insuficiência das provas, e nós, que só tivemos acesso à informação parcial dos jornais, ficamos revoltados quando os supostos criminosos são inocentados e não compreendemos como aquelas “provas indiscutíveis” não foram consideradas.
            Nesses textos jornalísticos, também encontramos o uso abundante de menções a lugares, datas precisas, horários exatos, nomes completos, idade e profissão de pessoas envolvidas na notícia... Muitas vezes, se prestarmos atenção podemos notar que muitos desses detalhes eram simplesmente desnecessários, porém, eles também são recursos retóricos. O vínculo que este detalhamento cria com a suposta realidade histórica faz o destinatário sentir que o assunto realmente aconteceu como está sendo narrado. Amarrar a ficção com aquilo que nos parece histórico confunde nosso senso de realidade, assim como também o seu contrário, quando elementos fantásticos nos levam desacreditar os fatos possivelmente históricos que estão contidos num determinado discurso.
            Falamos de discursos acadêmicos e jornalísticos porque ambos são bons exemplos de como algumas estratégias podem produzir o sentido de distanciamento entre os fatos narrados e o próprio narrador, passando a impressão de imparcialidade, objetividade. Mas também devemos considerar as estratégias contrárias, que procuram aproximar o leitor através de discursos mais passionais.
            Tomemos como exemplo agora os discursos publicitários. Um dos recursos retóricos empregados pelos publicitários é criar uma identificação entre o produto que oferecem e o público. Para isso, eles precisam determinar com exatidão seu público alvo, e produzir discursos capazes de atingi-los. Temos assim a criação de um destinatário da mensagem, um estereótipo que o discurso quer manipular. Por vezes, podemos mesmo notar que tal mensagem não nos causa nenhum interesse, mas isso pode ser apenas um resultado previamente previsto; ou seja, pode ser que não estejamos entre os sujeitos que são “alvos” da mensagem. Para criar identificação com o destinatário, é sempre melhor usar uma linguagem mais informal, narrações em primeira pessoa, se dirigir ao outro como “você”, criar cenários com os quais o outro se identifique. É assim que procedem, por exemplo, os políticos antes das eleições. Se eles querem atingir os evangélicos, aparecem na TV com ternos, bíblias, visitam igrejas, terminam seus discursos falando de Deus... O objetivo é fazer com o público evangélico pense que o tal candidato é “um deles”. Caso determinada empresa automobilística queira vender um carro luxuoso e de valor elevado, ela tentará atingir um público de poder econômico elevado com imagens que enaltecem o conforto, a classe ou o status das pessoas que possuem tal automóvel, e fará o seu carro circular em lugares bonitos, com ruas limpas e sem trânsito.
            Literariamente, vemos que para obter esse efeito de proximidade, de identificação, o autor cria personagens, cenários e enredos que parecem reais para seu público. Isso também acontece nos discursos religiosos; na Bíblia, Jesus, seus discípulos e os fariseus, são personagens que mudam de acordo com os interesses dos autores. Como eles são verdadeiros papéis temáticos, poderemos sempre notar que Jesus fala o que Deus falaria, que não erra, que não se confunde, e é de quem podemos esperar sempre verdades absolutas. Por outro lado, os discípulos são os personagens com os quais os leitores dos evangelhos deveriam se identificar, e se numa comunidade eles precisavam ser repreendidos, Jesus trata nos textos de chamar a atenção deles; mas se noutro grupo os discípulos precisam de consolo e motivação, Jesus trata de exaltá-los e reafirmar o privilégio que eles têm. Os fariseus não são diferentes, como rivais, assumem a cada evangelho novas características que facilitam a identificação desses personagens com os rivais concretos do grupo que produzia o evangelho.
            Ainda falando dos evangelhos, vemos que seus narradores, embora sejam diferentes entre si, assumem características comuns. Nenhum deles tem nome, não estão envolvidos pessoalmente na história que contam e por isso narram sempre em terceira pessoa, possuem conhecimentos privilegiados que só eles e Deus poderiam ter, estão sempre de acordo com Jesus, procuram se ocultar deixando muitos dizeres importantes por conta dos próprios personagens... Nas chamadas “cartas paulinas”, por sua vez, as estratégias do narrador são outras. Ele usa a primeira pessoa, e embora diga que a carta seja de autoria coletiva, fala como se só houvesse um autor a maior parte do tempo, e este autor assume a personalidade de um apóstolo Paulo ideal. Enfim, vamos a seguir nos dedicar a alguns poucos fragmentos religiosos, bíblicos ou não, para ver mais de perto o funcionamento desses recursos retóricos que temos discutido.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O TEXTO E SUAS LACUNAS: CHICO BUARQUE




Estamos começando um novo estudo, que como sempre, tem por finalidade nos ensinar a ler textos bíblicos. Dessa vez o tema que nos importa são as "lacunas" das narrativas bíblicas.  Estamos falando de espaços deixados em branco que nem sempre são falhas ou carência de detalhes; essas lacunas podem mesmo ser propositais, e seja como for, se lá estão, acabam servindo para impulsionar a criatividade do leitor, que as preenche por conta própria.

Quando falamos dessas lacunas em relação à literatura bíblica, o estudo de tal recurso retórico mostra-se de especial complexidade. A confusão se instala mais na exegese bíblica do que noutras leituras, porque os estudiosos das metodologias de interpretação bíblica aprendem com muita ênfase a não criar sentidos durante a interpretação, a apenas averiguar o que o próprio texto está dizendo. A exegese por muito tempo afirmou que a busca do exegeta era pelo sentido literal do texto, e esta história acabou por “engessar” a criatividade da leitura bíblica.

Antes de falar de textos bíblicos, vamos lidar como exemplo de uma canção de Chico Buarque chamada “Aquela Mulher”, gravada no álbum “As Cidades” de 1999. O ponto que nos toca está logo no início da letra da canção, que começa dizendo:

Se você quer mesmo saber
Por que que ela ficou comigo
Eu digo que não sei.

            Já nessa primeira estrofe vemos que o autor faz uso de um narrador com identidade própria. Ou seja, não é o próprio Chico Buarque quem fala, mas um personagem seu, um homem que no tempo narrativo tem algum tipo de relação amorosa e sexual com uma mulher. Esta mulher é apenas mencionada, não atua, não fala, não aparece, porém, é construída como um valor desejado por dois sujeitos. O narrador é uma das partes interessadas, e a outra é representada por outro sujeito, também do sexo masculino, que convém chamarmos de narratário. Aí já podemos notar quantas informações estão implícitas, como o texto está construído como uma imitação da vida, de um diálogo entre dois homens que parecem desejar a mesma mulher. De tudo isso, o único elemento que podemos considerar uma realidade histórica extra-textual, é o desejo dos sujeitos do sexo masculino por outro do sexo feminino, e a possibilidade de que a coincidência dos seus desejos os faça atuar como anti-sujeitos, disputando de alguma forma o amor da mesma mulher.
            Mas o que há de mais importante é que o começo do texto não nos apresenta o verdadeiro começo do diálogo. Temos uma conversa incompleta; nos foi permitido ouvir apenas a voz de um dos sujeitos (o narrador), cuja fala já se constitui numa resposta a uma pergunta feita. Aqui temos uma verdadeira “lacuna” sugerida pelo texto. Sabemos que a pergunta que originou a resposta deve ter havido, porém, só podemos imaginá-la. A pergunta que o narratário teria feito ao narrador pode ser depreendida da própria resposta: ele perguntou por que a mulher ficou com o narrador.
Na estrofe seguinte há novas respostas, provavelmente oferecidas a outras perguntas feitas:

Se ela ainda tem seu endereço
Ou se lembra de você
Confesso que não perguntei

A grande atratividade da canção é a ironia com que o narrador responde àquelas perguntas aparentemente indiscretas e indesejadas. Ele mostra respeito aos contratos sociais de civilidade, mas provoca o seu rival de diversas maneiras, e a primeira delas é demonstrando desinteresse completo. Ele diz que durante as “noites”, o que já sugere a intimidade sexual entre ele e a mulher, eles não cuidam do mundo. É assim que ele explica porque (segundo ele) eles nunca conversaram sobre o narratário. Notemos que tal detalhamento é desnecessário; bastava dizer “não sei”, mas ele procura ressaltar provocativamente sua intimidade com a mulher dizendo coisas como “que noites de alucinação passo dentro daquela mulher”.
A ironia se dá pelo fato de o enunciado, o conteúdo da mensagem, que é provocador e até agressivo, negar o estilo ou o gênero. Apesar de tudo parecer uma conversa entre sujeitos civilizado, a provocação contraria as aparências, e atinge seu ápice quando na próxima estrofe o narrador passa a mencionar as supostas palavras da mulher, ditas, tudo leva a crer, exclusivamente a ele. Segundo sua explanação, a mulher teria dito que com “outros homens” sempre se exibiu e “até fingiu sentir prazer”, e que nunca soube antes dele “que o amor vai longe assim”. Tudo isso desqualifica o narratário, o primeiro amante da mulher; tudo desqualifica seu desempenho sexual, deslegitima-o como candidato a amante. É interessante sempre observar como em todas essas provocações, o narrador manteve-se “educado”, sendo capaz de diminuir seu anti-sujeito abertamente sem que isso fosse interpretado como agressão explícita. A ironia é o recurso que o permitiu fazê-lo.
Por fim, ele volta a nos lembrar que o motivador daquelas respostas foi o outro, dizendo: “Não foi você quem quis saber?”. Provavelmente, o narrador sentiu-se desafiado quando o ex-amante o havia abordado com perguntas sobre sua intimidade. Ele extrapolara alguns limites invisíveis ao questionar o outro querendo saber se a mulher se lembrava dele. Sentindo-se desafiado, o narrador parte em contra-ataque, e munindo-se da ironia luta por superar seu rival naquela disputa psicológica. Mas, como temos afirmado, isso tudo aconteceu antes de o texto começar, e por isso este é um caso em que nossa imaginação é instigada, convidada a participar do texto e criar junto com o autor. O que não poderíamos fazer, é criar novos diálogo, acrescentar palavras àquelas que o narrador disse. Isso o autor tomou para si, fez o trabalho completo. Contudo, também nos foi dado o direito de imaginar o final da história, e podemos conjeturar livremente sobre as possíveis reações do narratário, vendo-o constrangido, raivoso, envergonhado...
Por termos ouvido apenas a voz do narrador, que parece atacar o narratário em legítima defesa, obviamente nos identificamos com ele, desfrutamos da sua ironia e achamos “bem feito” que o outro tenha tido que suportar tais palavras. Mas a verdade é que não sabemos, nem nós nem o narratário, se toda aquela história é verdade ou mera ficção retórica. Nunca será possível saber se realmente a mulher disse aquelas coisas, se o amor deles é tão perfeito, se ela deveras despreza o antigo amante como o narrador quer fazer acreditar. Como expectadores, essas dúvidas nos são colocadas para que fiquem, não para que tentemos resolvê-las, o que seria, outra vez, superinterpretar o texto.
Ouça a canção em: http://www.youtube.com/watch?v=CQyBNfxEc2c