segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ESTE É O TEMPO DA IDOLATRIA? PROPOSTA PARA UMA NOVA FORMA DE RELIGIOSIDADE


Meu título já traz uma pergunta, e sugiro que antes de ler o que tenho a dizer, reflita a respeito da questão e ofereça a si mesmo uma resposta. Enquanto pensa, saiba que esta resposta depende em grande medida do que você entende por idolatria. Não quero entrar em discussões sobre teologia sistemática, mas para não deixar termo tão importante sem nenhuma definição, adotemos provisoriamente uma bem simples: idolatrar algo é prestar culto ou adorar algum ídolo, um objeto que em determinado meio representa uma divindade. O idólatra é aquele que, por não poder ou não saber relacionar-se com sua divindade diretamente, adota algo em seu lugar, e este algo, é o que chamamos de ídolo.

É provável que você tenha pensado em algumas formas de religião contemporâneas que estimam determinados objetos para dizer se hoje existe idolatria, mas essa não é a resposta que eu ofereço à pergunta inicial. Para chegar até minha resposta, vou procurar expor com minhas próprias palavras uma teoria que em 2008 ouvi de um professor, o Dr. Jung Mo Sung. Não sei se o próprio Jung Mo Sung já registrou tal idéia nalgum trabalho, e por isso é importante fazer referência a ele, que é o verdadeiro autor desta reflexão.

Eu começo afirmando que nós, por mais religiosos que possamos ser, como homens não conhecemos nem jamais poderemos conhecer a Deus. Se há um Deus e se ele é tão grande quanto dizemos, aí então é que somos obrigados a reconhecer que esta grandeza imensurável não poderia ser conhecida ou plenamente compreendida por qualquer ser humano. Talvez alguém realmente tenha tido suas experiências místicas, suas viagens celestiais, suas visões; mas tais “experiências” não podem ser mais que vislumbres. Embora hoje seja tão comum ouvirmos falar em “intimidade com Deus”, penso que no máximo podemos experienciar algo entre a reverência temerosa do Pentateuco e a certeza de missão que o Novo Testamento apresenta através das narrativas sobre Jesus.

A verdade é que cada um de nós cria uma representação pessoal de Deus. Para uns, que vivem fora de qualquer igreja e que nunca leram a Bíblia, talvez ele seja apenas um administrador invisível do mundo em que vivemos. Para outros, marcados pelas fortes narrativas do Antigo Testamento, ele é acima de tudo um juiz implacável que conta as horas esperando pelo dia do grande julgamento, em que finalmente os pecadores padecerão. Há ainda os modernos evangélicos que são íntimos de Deus, que querem seu toque (que hoje já não mata ninguém), seu carinho, seu amor. Não posso dizer que qualquer um desses muitos deuses criados pela imaginação humana (a partir de sua experiência particular, é claro), é completamente falso ou verdadeiro; não há como avaliar tal coisa.

O ponto principal é que, seja qual for a idéia que temos sobre Deus, trata-se de uma idéia incompleta, limitada, e que fala muito mais sobre nós mesmos do que sobre um suposto Deus. O problema que queremos levantar é que, se este Deus que criamos não é Deus, mas uma imagem humana, limitada às possibilidades da nossa mente e condicionada por nossa existência, adorar este Deus como se fosse o único e verdadeiro Deus é também uma forma de idolatria. Ora, ainda que meu deus possa não possuir forma material, ele é tão fraco como representação da divindade quanto qualquer estátua; é um deus humano, e talvez, quando insisto em adorá-lo estou fazendo o mesmo que aqueles que colocaram suas idéias sobre Deus numa forma material.

Esta era a teoria do professor Jung que queríamos trazer. Quer dizer que todo deus que porventura adoramos não é deus; que toda forma de divindade que podemos conceber por obras artísticas, palavras, canções, ou mesmo pensamentos, é uma espécie de ídolo que quer representar o verdadeiro Deus para nós. Assim sendo, em todas as formas de religiosidade há idolatria, posto que cada religião institucionalizada oferece aos “fiéis” uma imagem divina que lhes parece mais crível. Por isso, eu diria que estamos vivendo num tempo em que a idolatria atingiu proporções nunca vistas, pois se nos dias do Antigo Testamento os homens diziam que era impossível ver Deus, ouvir sua voz, ou ter qualquer contato direto com ele sem ser exterminado, a religiosidade moderna insiste que devemos nos aproximar pessoalmente de Deus, e com arrogância jamais vista, afirma conhecê-lo.

Parece loucura toda esta discussão? Que solução poderíamos sugerir para os muitos religiosos que só querem conhecer a Deus? Quiçá o melhor a fazer é procurar viver como quem é conhecido, mas não conhece, tendo como inestimável privilégio cada possível experiência religiosa. Imaginemos uma religião formada por ignorantes assumidos, que são mais humildes quando ensinam, já que não podem afirmar nada sobre Deus e nem questionar as opiniões alheias. Imaginemos uma religião de pessoas que não levam tão a sério as leis eclesiásticas, já que não sabem se foi Deus mesmo que legou qualquer uma delas aos homens. Uma religião de pessoas que sem se envergonhar, sentem-se desconfortáveis quando oram, pois não sabem se alguém os ouve, não sabem para onde olhar, que expressão corporal assumir, nem sabem com que tom de voz devem falar. E imagine pessoas que se esforçam por fazer o que lhes parece bom, sem saber de verdade se haverá outra vida, se haverá recompensas ou castigos, mas que se deixaram encher de um espontâneo anseio por contribuir com o criador desse maravilhoso mundo, seja ele quem for, e que por isso querem tornar este lugar melhor através de seus pequenos atos.

Se alguém é capaz de viver tal religiosidade, admita, é porque realmente tem fé. Os demais talvez sigam suas religiões por medo do inferno, por ambição, por soberba, por hábito... mas os que conseguem abandonar qualquer forma de idolatria, apenas seguem.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

OS POBRES BEM-AVENTURADOS: MATEUS 5.3-12


Logo no início do grande discurso e famoso discurso de Jesus na montanha, encontramos algumas seções narrativas cuja delimitação não representa grande desafio. A primeira delas traz as famosas bem-aventuranças (5.3-12), que pretende ter como interlocutores um grupo bem definido de seguidores de Jesus, os supostos membros do grupo mateano. As bem-aventuranças os descrevem como pessoas de sorte, abençoadas, detentoras de uma espécie de felicidade ou privilégio de origem divina que os diferencia. Aqui, o texto nos dá bons indícios de que o grupo de Mateus é “pobre” e “perseguido”, e o apelo do texto é para que os destinatários aceitem este destino e suportem as limitações, acreditando que este é o caminho correto. Trata-se de uma exortação para que ninguém abandone a fé ou o grupo por conta das dificuldades que esta opção impõe.

Podemos tratar de alguns detalhes mais específicos, e o primeiro deles é que as bem-aventuranças de Mateus são em maior número do que as da versão de Lucas. Supõe-se, é claro, que ambos os evangelistas herdaram o texto da Fonte Q, e que Mateus teria dado um arranjo mais elaborado à sua versão. Na comparação com Lucas 6.20-23, um detalhe muito debatido da versão de Mateus é o acréscimo “em espírito” que geralmente nossas Bíblias trazem (Mt 5.3). Para muitos comentaristas, Mateus estaria “espiritualizando” o texto, fazendo com que o “pobre” deixasse de ser uma categoria social simples como em Lucas. Porém, essa explicação não condiz com o Evangelho de Mateus num todo, que dá muitíssima ênfase às questões econômicas. A solução que nos pareceu mais coerente para este problema foi oferecida por Paulo Roberto Garcia, que disse que “... o termo em espírito não espiritualiza a palavra pobre, muito pelo contrário, ele aponta o motivo que levou a comunidade a ser pobre. Em outras palavras, pela opção da vida "em espírito", a comunidade passa a ser pobre” (1995, p. 50-52). Garcia entende que o artigo definido grego da frase to pneumati está no caso “instrumental”, o que nos leva a entender a expressão como “por meio do espírito”. Quer dizer que a “pobreza” de Lucas não é excluída por Mateus, mas acrescida de um detalhe importante, que demonstra que para o grupo mateano a pobreza não era uma das vicissitudes que a vida lhes impunha, mas uma consequência da opção de fé que estavam fazendo. Por tudo isso, traduziríamos Mateus 5.3 assim: “bem-aventurados os pobres pelo espírito”.

As demais bem-aventuranças continuam apregoando aos pobres, fracos e poucos discípulos, que eles estão no caminho certo. Fazendo um resumo, o texto trata o próprio grupo como “os que choram”, os “humildes”, “os que têm fome de justiça”, e de “perseguidos por causa da justiça”. Essas expressões nos oferecem vislumbres das condições desvantajosas em que estes cristãos se encontravam, ou pensavam que se encontravam. Por outro lado as bem-aventuranças que os desenhou como grupo marginalizado, fraco, pobre... exalta outras virtudes deles ao chamá-los de “misericordiosos”, “puros de coração” e “pacificadores”. Parece que moralmente eles se consideravam superiores, e tais procedimentos exemplares inspirados na religiosidade talvez seja o que eles chamam de “justiça”. Temos um grupo que pretende ser exemplar no que diz respeito à moral e à religião, mas que julga sofrer preconceitos, sanções econômicas, perseguições, por parte de outros. As bem-aventuranças, então, não só explica ao próprio grupo quem eles são, construindo fronteiras e formatando a identidade social do grupo, como também os consola e motiva, através de promessas religiosas. Por isso, diz que os pobres de hoje serão nobres membros de uma corte quando o Reino dos Céus vier, diz que receberão grande herança, que verão a Deus...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

REFLETINDO SOBRE A NATUREZA DO TRABALHO EXEGÉTICO (PARTE 2)

O Exegeta e seu Público

Para falar da natureza da atividade exegética, temos que considerar que esta exegese a que me refiro é bíblica; trata-se de uma ciência, é verdade, mas de uma ciência cujo objeto de estudo é um ajuntamento de livros que são venerados principalmente por religiosos. Isso não quer dizer que a Bíblia contenha apenas conteúdo religioso, mas que seus leitores comuns a vêem como um livro unicamente religioso. Para falar a verdade, dificilmente encontraremos um exegeta que não tenha, ao menos no começo dos seus estudos, alimentado um relacionamento de fé para com a Bíblia. Essa primeira constatação já possui várias implicações para a nossa reflexão:

Primeiro, vemos que o exegeta é um profissional capaz de desmistificar as narrativas bíblicas e de revelar o valor que elas possuem como artefatos da humanidade. A Bíblia pode ser lida como fonte para a pesquisa sobre a antiguidade, para a compreensão da religiosidade, da cultura, da política, da economia... Segundo meu ponto de vista, é papel do exegeta demonstrar que não é preciso ser judeu ou cristão para apreciar suas narrativas, e que mesmo se a religião cristã um dia chegasse ao fim, a Bíblia mereceria um lugar entre as grandes criações literárias dos povos antigos ao lado de Homero.

Em segundo lugar o exegeta brasileiro deve sempre levar em conta que os cristãos continuam considerando-se os “donos” dessa literatura, o que quer dizer que sempre, por mais acadêmicos que sejamos, os cristãos comporão a maior parte do nosso público. Ora, o exegeta encontrará eventuais resistências às suas ideias, já que a exegese, não comprometida com dogmas, inevitavelmente apresentará leituras que comprometem o status eclesiástico. Felizmente, nos dias de hoje não acredito que tais resistências possam transformar-se em animosidades mais severas, em perseguições. Por outro lado, o apreço que os cristãos dedicam à Bíblia é o grande aliado para que o profissional dedicado à exegese encontre nessa atividade uma fonte de subsistência. O público religioso, em especial os evangélicos que nesses nossos dias demonstram cada vez mais interesse pelo conhecimento bíblico, comporá nossa principal audiência, seja na igreja, nos seminários ou nas universidades... Só posso sugerir que o exegeta seja simpático ao seu público e se aproveite com prudência do próprio fundamentalismo religioso para demonstrar o valor que seu empenho interpretativo possui.

Em resumo, o exegeta tem em suas mãos a responsabilidade de conhecer, preservar e divulgar a literatura bíblica em todas as instâncias da sociedade, o que é um trabalho em favor da humanidade. Mas é em relação ao seu público religioso que o exegeta é mais responsável, pois como são sua principal audiência, este será o público mais influenciado por seu trabalho. A exegese é capaz de transformar a religiosidade dos indivíduos, estudantes de teologia e ciências da religião em primeiro lugar, e dos ouvintes que nas igrejas poderão ser instruídos por sermões mais inteligentes. A exegese pode então transformar grupos religiosos, e quiçá em longo prazo não possa expandir estes resultados à religiosidade de toda uma nação?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

REFLETINDO SOBRE A NATUREZA DO TRABALHO EXEGÉTICO (PARTE 1)

Introdução

Tenho dedicado cada vez mais tempo à leitura de historiadores. O interesse pela historiografia me parece natural, já que como exegeta, tenho que lidar de forma criteriosa, como os historiadores, com documentos antigos que precisam ser interpretados, decifrados, traduzidos, para que se enfim desempenhem seu papel em nossos próprios trabalhos contemporâneos. Mas meu interesse nessas leituras não é pela história, pelo passado humano si; tenho prazer em ler historiadores porque me identifico sobremaneira com a forma com que os historiadores refletem sobre a natureza de sua profissão.

Ao longo do último século os historiadores tiveram que superar crises em sua disciplina. As ciências sociais, de forma bem geral, pareciam em certo momento que suplantariam a historiografia, e a famosa Escola dos Annales (1929) foi motivada em grande parte pela necessidade de redefinir a prática do historiador diante do status científico que estas outras disciplinas adquiriam. Seguindo pelo século XX, a linguística e a semiótica atacaram a própria essência da história levando-os a uma crise de paradigmas; desde então se diz que o historiador tanto pesquisa quanto cria enquanto reconstrói e conta o passado, e daí toda história contada passa a ser uma leitura pessoal, ainda que tenha sido produzida seguindo critérios metodológicos rigorosos. Estas crises não destruíram a historiografia, mas obrigaram os historiadores a refletir sobre sua atividade, delimitar seus objetos, definir seus papéis para a sociedade humana.

Enfim, tenho visto muitos historiadores se arriscarem nesses debates, e parece que algum consenso está sendo alcançado, o de que a história, ainda que só possa nos oferecer reconstruções limitadas do passado, é importante para a “constituição da memória social e configuração de nossa própria identidade”. A verdade é que o tempo passa, e o que fica para a posteridade não são os fatos, mas as narrativas que os historiadores produzem sobre aqueles fatos. Nossa história depende da competência e do empenho desses pesquisadores, e o que somos depende em boa medida do entendimento que temos dessas narrativas. Podemos explicar quem somos como indivíduos, como grupos sociais ou mesmo nações, a partir das narrativas históricas, fazendo o mesmo que os antigos faziam a partir das suas mitologias.

Então me pergunto: em que pé anda a reflexão sobre a natureza do trabalho exegético entre os exegetas? Este é um tema para pesquisa, que demandaria tempo e trabalho árduo. Porém, não é este meu objetivo aqui. Embora eu já tenha escrito centenas de páginas sobre a exegese, imaginei que seria conveniente voltar a estas questões que dão sentido à nossa atividade profissional.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

EX-AMOR - SAMBA




http://www.youtube.com/watch?v=m9eKbqdIlBA&feature=youtu.be

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

POR QUE OS CRENTES NÃO SABEM LER A BÍBLIA?

A reflexão que vos proponho já começa com um problema: o título. Quem disse que os crentes não sabem ler a Bíblia? Bem, eu disse, é minha a afirmação. Vou tentar justificar minha posição nas próximas linhas, mas pode ser que estas não sejam suficientes para alguns leitores.

Como professor de interpretação bíblica e exegeta, não tenho dúvida de que os crentes (epíteto que aplico aqui aos que crêem na própria sacralidade da Bíblia nos círculos cristãos) são maus leitores. Quando tenho o raro privilégio de ver alguém “de fora” lendo a Bíblia, noto imediatamente que a falta de fé libera o leitor para descobrir no texto sentidos muito mais ricos. Todavia, não posso negar que o prestígio que a Bíblia alcançou em nossa sociedade se deve à má leitura dos crentes. Foram eles que me imputaram o amor pelo texto bíblico, e também foram eles que afastaram e afastam os não cristãos da Bíblia, posto que quem não lê a Bíblia, pensa que a lê nos comportamentos dos crentes, que convenhamos, não é nada bíblico.

Mas tenho um motivo muito específico para evocar esta discussão hoje. Quero tentar explicar como se dá a leitura do crente empregando aqui um referencial teórico da linguística. Esta explicação não é a única, não esgota a questão, mas ao menos deve lhe acrescentar algo. Passo então à parte mais técnica deste breve ensaio, onde vamos tratar das chamadas “instâncias da enunciação”.

1 – Quem é o autor da Bíblia?

Há muito tempo criou-se algumas categorias que pretendiam distinguir devidamente os níveis ou instâncias envolvidas num ato de comunicação entre seres-humanos. Eu tenho trabalhado isso com afinco nos meus textos sobre interpretação bíblica, mas quero fornecer aqui uma espécie de resumo simplificado desta teoria. Para começar, todo ato de comunicação, seja ela por meio da fala, da escrita, da pintura ou de qualquer outra forma, sempre pressupõe dois lados. Um lado é o do indivíduo que comunica, e o outro o do que recebe a comunicação. Se eu falo ou escrevo, obviamente penso que alguém me ouve ou lê, e por isso sempre há um receptor da minha comunicação, ao menos na minha imaginação.

Contudo, as coisas são mais complexas, pois entre estes dois lados, passa a existir a comunicação ou enunciado como preferem alguns. Este é o conteúdo da comunicação, minha carta, música, quadro... Aí é importante notar que esta comunicação, depois de criada, é independente do seu autor ou leitor. Por exemplo, eu posso escrever aqui mesmo um parágrafo que não corresponde exatamente àquilo em que acredito, posso falar de mim mesmo de maneira falsa, me retratando como um personagem cheio de virtudes, ou posso falar dos meus alunos sem, contudo, expressar o que eles realmente são. Assim, o enunciado não pode nos dizer tudo sobre o comunicador ou sobre o receptor.

Para finalizar, o problema cresce quando, por meio da análise de um enunciado, tentamos recriar ou criar a personalidade do seu produtor ou de seus destinatários. Um texto pode nos dar informações sobre seu autor, mas não sabemos se estas correspondem à realidade, e por isso, no fim das contas só teremos mesmo acesso a um autor-personagem, ou autor-implícito, que só existe no nível textual, mas que pode não corresponder em nada ao real autor do texto. O mesmo ocorre com o destinatário, que até mesmo na mente do autor podia corresponder a uma imagem deturpada do destinatário real a quem ele pretendia comunicar. Chamo de leitor-implícito aquele destinatário inaginário para quem um texto quer se dirigir.

Essas instâncias da enunciação estão bem estabelecidas há séculos, mas ainda não foram assimiladas pelos leitores não especializados da Bíblia (e de qualquer outro tipo de literatura), talvez porque os teóricos ainda não conseguiram expô-las de maneira simples. Enfim, vamos ver algumas das implicações que estas informações trazem para a leitura bíblica:

1) A Bíblia é um conjunto de enunciados, e ao lermos suas páginas, não temos acesso real nem aos autores nem aos destinatários destes enunciados; daí descobrimos que nossas análises de seus textos sempre se resumem ao estudo de conteúdos que não correspondem, ou melhor, não sabemos quanto correspondem, à realidade histórica. Noutras palavras, ler a Bíblia não é ver os fatos como aconteceram (se é que aconteceram), é ler narrativas fictícias que podem ou não inspirar-se em fatos. Para o estudo da Bíblia, o melhor a fazer é dedicar-se ao seu conteúdo sem ansiedade, sem fazer relações com a história. Os eventos narrados e os personagens que atuam não precisam ter existido para que o conteúdo bíblico nos comunique sua mensagem.

2) Ignorando a necessidade de distinguir as instâncias narrativas, a tradição criou autores, leitores, e deu uma falsa historicidade a eles e aos personagens bíblicos, de modo que hoje, mais que o conteúdo dos textos, estas tradições se tornaram importantes fontes de informações para os leitores da Bíblia. Assim, antes de lermos as cartas de Paulo e as avaliarmos, somos instruídos sobre a erudição e a coragem do apóstolo.

Por isso fiz no início deste item a pergunta: quem é o autor da Bíblia? Esta pergunta é muito importante para nossa discussão, pois determina todo o entendimento que alguém pode ter dos textos. Vamos à próxima seção, onde quero demonstrar onde exatamente se encontra o erro dos crentes.

2 – A Bíblia não traz Contos de Fadas Reais

Quando um crente abre uma Bíblia, ele primeiro ignora a distância cheia de subjetividade que separa um texto de seu autor. Os textos bíblicos, mais ainda, na maioria das vezes não nos dizem nada sobre sua autoria, datação, ou mesmo em que circunstâncias foram produzidos; estas informações, quase sempre são retiradas ou da tradição cristã (que não é segura) ou de informações indiretas tiradas dos textos. Se o crente soubesse quão problemático é aplicar tais dados à leitura dos textos, os deixaria de lado e aproveitaria as narrativas como faz o descrente, mas como não sabe, apropria-se de numerosas fábulas sobre os heróicos apóstolos e profetas e então passa às leituras imaginando que os contos de fadas um dia foram reais.

E isso pode ficar pior. O leitor crente não só confia demasiadamente nos mitos sobre os personagens bíblicos como também possui uma estranha concepção de “inspiração divina” para cada palavra ali registrada. A Bíblia é a Palavra de Deus para o crente, o que infelizmente quer dizer para ele que Deus é um escritor. E se Deus é um escritor, ele deve ser o mais hábil de todos os escritores, não esquece nada, não mente, não comete erros ortográficos... O crente mesmo não sabe explicar bem como se dá essa autoria divino-humana (que neste caso são super-homens, pessoas escolhidas que também não cometeriam erros), então escolhe como lhe convém se um texto é mais divino ou humano. Quando alguém mostra ter encontrado um problema, um erro, uma contradição, ou uma informação que historicamente não se confirma, esse alguém é rebatido com um argumento religioso, e ponto final.

Outra consequência problemática dessa ideia sobre autoria é a de que as narrativas bíblicas são diferentes de todas as outras narrativas do mundo. Só as narrativas bíblicas correspondem aos fatos, posto que por motivo que ainda ignoro, a ideia que os crentes fazem de Deus não permite que ele faça brincadeiras ou conte histórias fictícias. Dizer que alguma narrativa bíblica é mítica é um pecado para o crente, mas para o resto do mundo, certamente é mais pecado dizer que as narrativas bíblicas são históricas. Bastaria lê-las como lemos qualquer outro texto da antiguidade.

O resultado inevitável da prévia e impensada aceitação desses pressupostos equivocados sobre autoria, só pode ser a má leitura de que falei desde o título. Hoje não hesito em dizer que os crentes, os que mais lêem e veneram a Bíblia, são também os que menos desfrutam da riqueza de seu conteúdo. Para o crente a Bíblia quando é lida alimenta a fé, tira-o do mundo e de alguma forma o põe em contato com o Reino de Deus. Essa espécie de experiência religiosa, mais induzida pelas doutrinas do que propriamente mística, deixa de existir quando o estudioso da Bíblia deixa de ler a Bíblia sempre por meio da interpretação dogmática da sua igreja, e deixa também de estudar através das publicações das editoras também cristãs. Não fossem aquelas asserções, leríamos a Bíblia de outra maneira, a entenderíamos melhor, e negaríamos as opressões religiosas que as pessoas aceitam passivamente.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O SERMÃO DA MONTANHA (Mt 5-7): INTRODUÇÃO

O Evangelho de Mateus nos apresentou Jesus nos seus primeiros capítulos utilizando-se de narrativas, de apropriação de profecias, criando uma história mítica, teologicamente relevante, que nos levou a identificar Jesus mais como Messias que traz em si muitas das expectativas religiosas daquela cultura, do que como o homem que ele realmente pode ter sido. A partir de agora, ele vai agora nos aproximar de Jesus através de uma nova estratégia literária, vai nos colocar no lugar de ouvintes, de onde poderemos conhecer parte do conteúdo que, segundo o evangelista, Jesus ensinava. Temos dos capítulos 5 a 7 do evangelho uma grande coleção de textos formulados como um grande discurso às multidões que seguiam Jesus.

Embora este discurso tenha sido construído com abundante material herdado de fontes mais antigas que o Evangelho de Mateus, a verdade é que ele está direcionado para o grupo mateano (Overman, 1999, p. 103), o que levou Paulo R. Garcia a denominá-lo como um “código de pertença à comunidade de fé” (2001, p. 185). Empregando a autoridade de Moisés e de outros célebres personagens vétero-testamentários e aplicando-as a Jesus,[1] Mateus o faz subir a montanha e de lá proclamar a Lei dos judeu-cristãos, a fim que eles se vejam como os fiéis praticantes da Torah, e não como dissidentes seguidores de um líder subversivo que foi morto. Nesta construção, a referência topográfica (montanha) é muito significativa; mais uma vez, não poderemos ignorar os paralelos intertextuais que existem entre os atos e a missão de Jesus com os atos e a missão de Moisés. A subida de 4.25-5.2 marca o início desse conjunto literário cuja moldura se fecha em 7.28-8.1, quando Jesus acaba o seu discurso e desce do monte com muitos seguidores. Vejamos o quadro comparativo das expressões usadas nas duas extremidades dessa moldura, conforme nossa adaptação da proposta de Dale Christian Allison (1987, p. 192):

A) Grandes multidões o seguiram (4.25)

B) Subiu a monhanha (5.1)

C) Ensinava-os (5.2)

C’) Ensinava-os (7.29)

B’) Descendo ele da montanha (8.1)

A’) Grandes multidões o seguiram (8.1)

Esta é a primeira evidência de que o primeiro discurso de Jesus foi composto com grande esmero estrutural. Se o autor dedicou tanta atenção para fazer de seu livro uma obra formalmente criativa, quanto mais atenção dermos a esta característica, mais proveitosa será nossa leitura. Passaremos então, a partir da próxima seção, e comentar cada uma das unidades textuais deste grande discurso sem perder de vista a idéia de que nele, cada passagem foi cuidadosamente encadeada num lugar estratégico.



[1] Veja por exemplo Moisés em Êxodo 19.3; 24.12-13,18; 34.2,4; Dt 9.9; 10.1,3, depois Abraão em Gn 22.2,14, e também Elias nos montes Carmelo e Horebe em 1Rs 18.18-46; 19.8-18.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O DIABO E OS EVANGÉLICOS – EXORCISMOS COLETIVOS NA MÚSICA EVANGÉLICA

Nesta última postagem sobre o tema do Diabo entre os evangélicos vamos tratar brevemente de uma canção intitulada “Levanta-te Senhor”, de Marcos Witt,[1] cantor evangélico mexicano muito popular na América Latina e nos Estados Unidos. No Brasil, há em São Paulo até uma filial do chamado “Instituto Canzion”,[2] instituição idealizada por Marcos Witt e sua irmã Lorena para a formação de “ministros de louvor”.

Há apenas algumas observações a serem feitas. Primeiro, observamos superficialmente que as evangélicas brasileiras parecem receber influências dos círculos pentecostais latino americanos quando o assunto gira em torno das imagens de Satanás e seus demônios de forma mais radical. Neste trabalho não procuramos aprofundar essa constatação, pelo que deixamos os leitores interessados encarregados dessa pesquisa. Para começar a análise, a canção que foi gravada em português e que pode ser ouvida em inúmeras igrejas evangélicas traz uma evocação dizendo: “Levanta-te, levanta-te Senhor”. Daí foi extraído o próprio título da canção (Levanta-te Senhor). Deus é evocado para entrar na guerra e dispersar os inimigos.

Fujam diante de Ti os Teus inimigos

Se dispersem diante de Ti

Todos aqueles que aborrecem Tua presença

Essas primeiras estrofes da canção são evidentemente adaptações de uma passagem do Antigo Testamento, mais precisamente de Números 10.35, que diz: “Era, pois, que, partindo a arca, Moisés dizia: Levanta-te, SENHOR, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os aborrecedores”. O compositor se apropria neste caso de algumas palavras que segundo o narrador de números eram ditas por Moisés sempre que o povo de Israel, que peregrinava pelo deserto, levantava seu acampamento e partia levando para outro lugar levando a “arca da aliança”. Ou seja, o Deus de Israel os guiava e os protegia, era uma entidade convidada a ir diante do povo enquanto andavam e a permanecer com eles quando acampavam. O versículo é empregado na canção de maneira própria, mas também evoca Deus no sentido religioso e militar. Agora não há peregrinos, mas este Deus guerreiro é chamado para auxiliar o povo que canta em suas batalhas contra os inimigos.

Essa questão dos inimigos é particularmente curiosa, pois a princípio, ao apresentá-los, a canção trata de reinos, monarquias, impérios, principados...:

Tua presença reinará sobre todo império

Tua presença reinará, governará sobre todo principado

Se nos limitarmos a ler as palavras a partir de suas relações e oposições semânticas, julgaremos erroneamente que estamos falando de batalhas militares entre poderes políticos, mas este discurso se dá agora num ambiente eclesiástico, onde os signos devem ser lidos a partir de outras referências. Agora, é o Novo Testamento em sua leitura fundamentalista que funciona como elemento formador da linguagem evangélica, que nos oferece os discursos mais úteis para entender o uso religioso dos vocábulos. Primeiro, quando a canção nos diz que a presença de Deus reina, nos faz lembrar do “Reino de Deus”, expressão comum nos evangelhos que desde então já não se refere somente ao poder monárquico e a um domínio territorial, mas que diz respeito às expectativas apocalípticas de transformação da realidade por meio de uma intervenção poderosa e definitiva de Deus. Do mesmo modo, para entender termos políticos como “império” e “principado” temos que nos voltar para o Novo Testamento, talvez agora para as cartas paulinas e deutero-paulinas, que transmitiram aos cristãos de todas as gerações o sentido religioso e demoníaco que se pode dar aos “impérios” e “principados” (1Co 15.24; Ef 1.21). Ali também a expectativa apocalíptica aparece nas afirmações de que estes poderes demoníacos que governam o mundo serão aniquilados quando Deus impor pela força o seu domínio pleno.

Mas a canção ainda segue com uma terceira parte ainda mais curiosa, onde há verdadeiros “exorcismos”. O cantor nomeia diferentes “espíritos”, na verdade chamando-os pela suposta influência que eles exercem sobre os seres humanos. Assim, temos o “espírito de temor”, de “maldade”, de “rancor”, de “prostituição”, de “enfermidade”, e os contraditórios espíritos de “ambição” e “miséria”... Após o cantor evocar estes espíritos, os ouvintes devem em uníssono expulsar os tais ordenando: “fora!”. Trata-se aí de uma canção que é quase um ritual de libertação coletiva, talvez com relações indiretas com a ideia de que o cristão que sofre algum tipo de ataque externo de demônios pode libertar-se a si mesmo.

Há evidentes dificuldades hermenêuticas na canção. Embora nossa análise tenha sido apenas introdutória, já foi possível notar que textos diversos e cuja origem e contexto históricos são bem distintos são aplicados em conjunto; esta forma de apropriação é bastante comum à leitura bíblica religiosa, especialmente à fundamentalista. Não há barreiras para se afirmar que o Deus que se levantava com os judeus peregrinos agora se levanta com todo cristão que precisa combater as forças das trevas; ele luta junto deles não mais contra as nações vizinhas que deveriam ser expulsas da terra de Canaã, mas contra poderes espirituais que exercem diferentes formas de poder e controle neste mundo. A presença de Deus e a vinda do Reino também perderam na leitura seu caráter apocalíptico de esperança escatológica; já não dizem respeito ao futuro, mas ao exato momento em que se canta e expulsa demônios coletivamente. Também notamos que embora os demônios continuem a princípio sendo tratados como impérios e principados como na tradição paulina, a preocupação atual já não é territorial; agora importa o domínio que eles exercem sobre o indivíduo, o que é uma nova redução do coletivo para o pessoal, tendência típica da religiosidade destes nossos dias.

Referências Bibliográficas

BROWN, Rebecca. Ele Veio para Libertar os Cativos. Rio de Janeiro: Danprewan, 1996.

BROWN, Rebecca. Prepare-se para a Guerra. Rio de Janeiro: Danprewan, 1998.

BROWN, Rebecca. Vaso para Honra. Rio de Janeiro: Danprewan, 2001.

CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e Discurso: Modos de Organização. São Paulo: Contexto, 2010.

GINZBURG, Carlo. Controlando a Evidência: O Juiz e o Historiador. In. NOVAIS, Fernando A.; SILVA, Rogério F. da (orgs.). Nova História em Perspectiva (Vol. 1 - Propostas e Desdobramentos). São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 341-358.

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

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[1] marcoswitt.net

[2] http://www.institutocanzion.com.br/