Temos novidades!
terça-feira, 23 de agosto de 2011
NOVO ARTIGO PUBLICADO: EMPRÉSTIMO NÃO É CARIDADE (MT 18.21-35)
Temos novidades!
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
NOVO ARTIGO PUBLICADO - MITOLOGIA, HISTÓRIA E EXEGESE
Quero informar a publicação de um novo artigo meu, desta vez, na Revista Theologando, da Fonte Editorial.
No artigo trabalhei as definições de mitologia, história e tentei oferecer um panorama de como essas definições influenciam a interpretação bíblica. As conclusões podem ser polêmicas, não convencionais, mas as sugestões finais que o artigo traz certamente serão muito úteis para exegetas, professores e pregadores.
A revista acaba de sair, e não possui versão on-line. Assim, para ler o artigo deve-se adquirir o exemplar impresso, que conta com vários artigos, incluindo excelentes autores como Júlio Zabatiero e José Adriano. Aos interessados, entrem em contato com a Alessandra ou o Eduardo da Fonte Editorial (alessandra@fonteeditorial.com.br, eduardo@fonteeditorial.com.br).
LIMA, Anderson de Oliveira. Mitologia, História e Exegese: Atualizando Conceitos para uma Nova Leitura de Textos Antigos. In. Theologando, ano V, n. 5. São Paulo: Fonte Editorial, 2011, p. 45-58.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
SOBRE O TRABALHO: UMA PEQUENA AUTO-BIOGRAFIA PROFISSIONAL
O tema que pretendo abordar é delicado, pois estou ciente de que algumas das opiniões que vou expressar são contrárias ao “censo comum”. Ao falar dele é inevitável que eu também trate de minha vida pessoal, e isso me faz lembrar de momentos não muito agradáveis. Vou falar sobre o trabalho.
Minhas idéias a respeito nasceram de reflexões pessoais, da observação da vida em sociedade. Hoje mesmo, antes mesmo do meu desjejum já olhava para a rua de meu apartamento pouco antes das 7 da manhã e pensava na suposta necessidade de trabalho. Vi o grande fluxo de pessoas que saía de casa no frio, se dirigindo ao metrô para espremidos chegarem aos seus locais de trabalho. A “Radial Leste”, via que permanece movimentada por todas as 24 horas do dias, é a principal “paisagem” que vislumbro. Foram essas imagens que suscitaram em mim, uma vez mais, estas antigas idéias.
Sei que há um ditado popular que diz que “o trabalho enobrece o homem”, mas será verdade? Esse tipo de vida que as pessoas estão levando é enobrecedor? Honestamente, tenho dúvidas. Vejo que a grande maioria das pessoas trabalha (ou se locomove até o trabalho) durante todas as horas de sol que a semana lhes dá; sobram-lhes algumas poucas horas da noite, para um jantar, uma conversa em família, uma brincadeira com os filhos, para um rápido passeio, e para um momento de amor. Alguns acabam desperdiçando estes prazeres limitados com brigas, novelas, bebidas etc., mas esse assunto fica pra outra hora. Logo chega outra vez o cansaço, o sono, e a preparação para mais um dia de trabalho. Assim se vão pelo menos cinco dias da semana, às vezes seis, às vezes mais... E finalmente chega o fim de semana, o feriado, as férias, e então poderão gastar o dinheiro que ganharam e finalmente aproveitar o melhor da vida. Ou seja, estamos gastando nossos poucos dias no trabalho, e nos contentando com poucos momentos de verdadeira satisfação. Isso é enobrecedor? Não estou certo disso.
Sempre fui realista demais para encontrar satisfação na idéia de que terei minha casa própria. Sei que vou morrer e a casa, seja própria, seja de aluguel, vai apodrecer aí. Não acho que vale a pena perder a vida para dizer que conquistei qualquer coisa material na minha velhice. Então, desde cedo tive problemas com o trabalho, com a exigência social de que eu me estabelecesse profissionalmente. Eu demorei mais que a maioria dos amigos da mesma idade para comprar um carro, e até hoje sou estudante. Até na mitologia bíblica o trabalho é uma maldição, e não uma dádiva. Em Gênesis o homem só trabalha porque é obrigado, porque está pagando pelos seus erros. O trabalho, ali, é uma punição, e confesso que esta mesma impressão eu tive muito antes de conhecer a Bíblia.
Aonde eu quero chegar com isso? Será que quero agora incentivar as pessoas a abandonarem suas profissões? Claro que não. Eu encontrei uma solução pessoal para este problema, e é ela que quero compartilhar com meus leitores. A expectativa que tenho é a de que alguns, que também sofrem com a imposição social do sucesso profissional, se identifiquem com minhas palavras e encontrem um caminho mais adequado e que lhes traga felicidade.
Usei o mesmo modo realista de pensar para concluir que eu não ia conseguir mudar as coisas. As pessoas continuarão “se matando” no trabalho, e se contentando com aquelas poucas faíscas de vida. Mas eu não queria isso pra mim. Então, a solução era aderir ao modelo, trabalhar muito, fazer bem o que fazia, procurar destacar-me, obter sucesso profissional... porém, eu decidi fazer isso numa profissão que para mim fosse uma “diversão”. Esta é a solução que encontrei, fazer do trabalho um prazer; e na juventude, só encontrei prazer tocando violão. Dediquei-me à música por anos, tornei-me bacharel em violão erudito, estudei na Escola Municipal de Música de São Paulo, e me tornei professor. Foram mais de dez anos, e esta profissão já não me trazia a mesma alegria. Sempre ganhei pouco com esta atividade, e no ramo da música erudita, as exigências são tantas que o prazer torna-se rapidamente numa tortura. Aquilo que antes me dava prazer se tornou um peso, consequentemente, era hora de mudar de vida.
Continuo tocando violão hoje, e gosto muito. Também não me arrependo de ter cursado música. Digo que com meus 18 anos, se eu não tivesse estudado música, eu não teria estudado nada (ou teria feito outro curso que hoje não seguiria). Por conta de minha opção religiosa eu comecei aos poucos a substituir a música pelo estudo da Bíblia. Hoje posso dizer isso de maneira clara. Não era a igreja que me agradava; não eram as reuniões, que na verdade me desagradam. Eu gostava de algumas pessoas, e gostava da Bíblia. Fui estudando, fazendo cursos, lendo muito, fiz uma pós-graduação em Bíblia, mestrado, e hoje faço doutorado. Mudei de profissão, e novamente as muitas horas que passo lendo, traduzindo, interpretando, escrevendo e ensinando, se tornaram momentos de grande satisfação.
Falando assim resumidamente da minha vida profissional, você deve imaginar que as questões econômicas sempre foram um problema pra mim. Foi o acaso. As coisas que me dão prazer não me dão dinheiro. Mas acho que isso não seria assim com todos. Até brinco com os estudantes de teologia dizendo que para uma boa carreira como teólogos eles devem evitar a todo custo se casar com pessoas que conheceram nas faculdades de teologia. Afinal, dois teólogos numa mesma família é um problema. Por isso me casei com a Angela, que não quer nem saber de teologia.
Acho que o leitor entendeu minha mensagem: Eu gostaria muito de ver as pessoas trabalhando, ganhando dinheiro, realizando seus sonhos, de uma maneira que não lhes custasse a semana. Deixar de trabalhar continua sendo “vagabundagem”, eu não incentivei isso; mas procuro demonstrar que é possível termos prazer enquanto trabalhamos. Podemos ser felizes no trabalho, e não só no lazer. Para isso, a prioridade no momento de escolher uma profissão deve ser sua afinidade com aquela área (afinidade é pouco, talvez devêssemos dizer paixão), e não as possibilidades financeiras. Depois de feita sua escolha (mas sempre há possibilidades de mudar, de recomeçar), é hora de se dedicar. Não há desculpas para profissionais preguiçosos, displicentes, incompetentes. Não tenho filhos, mas um dia vou dizer pra eles (ou para algum sobrinho ou vizinho), que o importante não é o que se faz, mas como se faz. Se você escolheu uma profissão incomum, não precisa se envergonhar quando as pessoas lhe perguntarem se você só canta, se não trabalha (por exemplo); vergonha é só cantar e ainda cantar mal.
Imagem: Pieter Aertsen: Market Scene (1561)
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
JESUS EM CAFARNAUM E SEUS PRIMEIROS SEGUIDORES: MATEUS 4.12-22
Quando João Batista é preso, Jesus deixa a Judéia e volta para a sua terra natal, a Galiléia. Porém, Jesus já não vai para Nazaré, mas vai para Cafarnaum (v. 12-13), que talvez fosse uma alternativa economicamente mais viável para Jesus e sua família naqueles dias (veja: Lima, 2010, p. 8-10). É importante repetir o nome de Cafarnaum, que será verdadeiramente a sede do ministério de Jesus ao longo do evangelho todo. Em Cafarnaum Jesus estará em casa, e veremos como astutamente aparecerão oposições de significado entre este e outros índices topográficos. Jesus começa a pregar em Cafarnaum (v. 17), e neste ponto é interessante notar que ele repete literalmente as palavras que resumem a pregação de João Batista, seu mestre transformado em mero introdutor. Quem sabe, Jesus tomara conhecimento de sua missão através de suas experiências místicas no batismo, e agora começava a trabalhar por conta própria seguindo rigorosamente o exemplo de seu predecessor? Será que não há no evangelho um plano evolutivo para Jesus, sua compreensão de si mesmo e de seu ministério?
Em Cafarnaum Jesus começa a reunir seus discípulos, que são chamados a renunciar os vínculos profissionais, sociais e familiares, e aderir ao itinerantismo (v. 18-22). Os homens chamados são: Pedro e André, e Tiago e João. Sabemos que dentre eles sairão os apóstolos cujos nomes o Evangelho de Mateus e o cristianismo primitivo de muitas regiões mais privilegiariam. E não é por acaso que eles são logo apresentados como bons exemplos. Ao lado de Mateus (veja Mateus 9.9), esses homens aceitam o chamado radical de Jesus, e não olham para os tesouros terrenos que prendem muitos. O exemplo negativo que se opõe a eles é o “jovem rico” de Mt 19.16s, que como veremos, recusa este mesmo chamado por possuir muitas propriedades. Além do “jovem rico”, veremos outros dois exemplos negativos no capítulo 8, dos versículos 18 a 22. Este ideal de discípulos completamente desprendidos dos bens materiais perpassa todo o Evangelho de Mateus, como veremos, e por isso sabemos que essa breve apresentação dos primeiro discípulos de Jesus, é bastante honrosa e serve como um exemplo permanente para os leitores implícitos.[1]
[1] Aqui empregamos um termo próprio da Narratologia, que é explicado nas chamadas “instâncias narrativas” (Marguerat; Bourquin, 2009, p. 84-86). Em resumo, no lugar da busca por um autor real e sua intenção, fala-se da busca pelo “autor implícito”, que é o autor/personagem que o próprio texto nos permite encontrar. Da mesma forma, já não nos perguntamos pelos destinatários originais de um texto, mas podemos perguntar pelo “leitor implícito”, o leitor/personagem imaginado pelo autor que é a quem ele destina seu texto.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
O LOUVOR À MEDIOCRIDADE: UMA CRÍTICA PESSOAL
Quero compartilhar aqui, rapidamente, algumas coisas que neste momento me incomodam. Em parte é um desabafo, mas como de costume, ele é reflexivo. Como sempre, gosto de divulgar também os caminhos que percorri para chegar às minhas conclusões, e desta vez, não uso qualquer método científico, apenas observações pessoais que me fizeram interpretar o mundo a partir de dois eventos que aconteceram nesses dias.
Começo por expressar minha revolta diante do jogo de ontem. É, pode acreditar que estou falando da derrota do Brasil para o Paraguai, disputa que só se resolveu nos pênaltis. Hoje as pessoas estão criticando a seleção brasileira, dizendo que foi uma vergonha, mas eu discordo. Embora o nosso time não seja perfeito, ele vinha melhorando, e ontem exibiu um bom futebol, dominando o adversário o tempo inteiro e demonstrando algo do conhecido talento brasileiro. No final, o resultado foi uma grande injustiça. O que eu quero ressaltar é que infelizmente o futebol deixa os melhores perderem, e nesta Copa América em particular, é só isso o que estamos vendo. Vergonha mesmo é jogar como o Paraguai, como a Bolívia, como o Perú... eles jogam para conseguir um empate, jogam pelo resultado, e quem perde não é o Brasil, mas os torcedores que pagaram para ver um espetáculo e tiveram que aturar aquela porcaria. O Brasil e a Argentina, as equipes de maior talento do futebol mundial, hoje sofrem para ganhar dos “retranqueiros” que não se importam com mais nada a não ser com o resultado. O mundo se esqueceu que o futebol é só um show? Esqueceram que taças não valem nada se não curtirmos a competição, e claro, os gols? O jogo defensivo, violento, está acabando com o talento, com a arte do futebol. Quem vai pagar para ver um jogo entre Perú e Venezuela? Deus me livre!
Viram que foi um desabafo né? Mas é claro que este blog sobre religião não vai se tornar uma crítica esportiva. O meu objetivo é usar minha impressão sobre o lixo que está sendo este campeonato para dizer que o mesmo espírito competitivo está nos prejudicando em muitas áreas. Hoje, só se pensa em vencer. Só queremos ganhar, e não importa como isso vai acontecer. No futebol os times fingem que jogam, e isso porque sabem que podem “ganhar” por zero a zero (como ontem). Os grupos musicais fazem grandes produções, com iluminação, dançarinos, figurinos brilhantes, compram horários na TV e no rádio e ganham (ou melhor, compram) muitos fãs... mas música que é bom, está difícil. Os artistas em geral estão se vendendo; hoje é melhor pintar aquela paisagem que qualquer iniciante em pintura faz, do que exercitar sua criatividade e não encontrar quem compre seus quadros. E muitos dos estudiosos da Bíblia que tenho conhecido, quando começam a entender o que a Bíblia realmente diz, voltam às suas igrejas como se nada tivessem ouvido e falam as mesmas bobagens que falavam quando eram ignorantes. Quem lhes dará ouvidos se disserem a verdade? Assim, meus amigos, a mediocridade se tornou louvável neste mundo, e eu lamento muito. O interesse exacerbado obscurece o que o ser humano tem de melhor.
O outro evento que vou mencionar é bem diferente. Não tem nada a ver com o futebol, mas como foi através dele que cheguei às conclusões de hoje, acho que vale a pena mencionar. Fui quinta-feira a um sepultamento, e encontrei pessoas que sofriam pelo falecimento do senhor Benedito Barbosa. Não pedi autorização à família para falar disso, mas farei esperançoso de que me entendam (ou perdoem). Ele era pai do meu cunhado, Alexandre, e tive pouco contato pessoal com ele. Todavia, no caminho do cemitério eu pensava que ouvira falar dele muitas vezes, e sempre como um homem muito bom, dedicado à família, que ofereceu durante a vida bons exemplos aos filhos, e deu-lhes boa educação, e continuava a ser aos quase 80 anos a principal referência para todos. Sempre houveram muitos elogios àquele homem, mas chegando lá eu também pensei que as pessoas que ali estiveram para despedir-se eram em número muito reduzido diante do número de pessoas que um dia o conheceram. Foi um sepultamento familiar, de um senhor que muitos chamariam de “anônimo”, mas que merecia incontáveis homenagens pelo legado sólido que deixou na vida daqueles que com ele conviveram. É um privilégio imensurável ter dentro de casa pessoas assim.
Não sei se vocês estão me entendendo. O texto de hoje é diferente, é pessoal, é passional. O objetivo é parar para pensar no fim a que o louvor à mediocridade vai nos levar. Hoje todos têm espaço para se comunicar, e isso é ótimo, mas dar voz a todos não quer dizer que devamos louvar a mediocridade. Deixar os artistas populares cantarem o que vivem e incentivar a arte nas periferias é necessário, mas quando um cantor de funk recebe mais elogios do que um Chico Buarque, aí temos um problema cultural. Os artistas sem formação e cultura estão influenciando mais que os demais, e este fenômeno social faz com que grande parte de uma nação se adéque à ignorância. Os jovens desta geração prefeririam em ser como o zagueiro reserva e “perna de pau” do time que ganhou a Copa América de ser como o senhor, pai de família honrado que mencionei acima. É melhor ter sucesso, disfarçando a mediocridade, já que qualquer outra posição é considerada derrota.
Eu disse que ia ser breve hoje e já escrevi demais. Enfim, eu vou continuar aplaudindo o Brasil, que ainda sabe como ninguém fazer do futebol um espetáculo bonito de se ver, mesmo quando perde. E vou vaiar o Paraguai, que ganhou, mas que é incapaz de conquistar a admiração de qualquer pessoa que não seja um paraguaio patriota. Presto homenagem a Benedito Barbosa, que talvez nem tenha notado muito minha presença nas oportunidades em que nos encontramos (como por exemplo, quando ele comemorava 50 anos de casamento), um homem que segundo o testemunho daqueles que o conheciam, era um “anônimo” digno de louvor. E termino dizendo a vocês, leitores amigos, que aquilo que o nosso mundo chama de “ganhar” nem sempre é o melhor. Prefira ser anônimo do que ser alguém que compra a celebridade e manipula a opinião pública; prefira não ser campeão se para isso você tiver que abdicar da arte; em todos os casos, prefira o talento à mediocridade, e a honra à vitória imerecida.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES: UMA PROMESSA DE SUPRIMENTO, NÃO DE PROSPERIDADE
Há algumas semanas eu li em sala de aula juntamente alguns dos meus alunos do STBI (Seminário Teológico Batista Independente) o texto da “Multiplicação dos Pães” de Mateus 14.13-21, e tive uma agradável surpresa. Confessei aos meus companheiros de leitura que eu não esperava muito dessa passagem, mas que ela me surpreendeu sobremaneira. Empolgado, meditei novamente sobre ele, repetindo as “descobertas” anteriores aos alunos do ICEC (Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos). Dei seguimento ao trabalho escrevendo sobre o texto e seu contexto próximo, num trabalho de longo prazo que venho produzindo sob o título de “Teologia do Evangelho de Mateus”. E ontem, dia 10 de Julho de 2011, voltei a falar sobre o assunto na “Comunidade Cristã Palavra e Vida”, tendo a alegria de compartilhar com outros a surpresa e o aprendizado que este texto me proporcionou. Hoje acordei com o texto em mente e pensei em compartilhar também com os leitores deste blog estas mesmas descobertas.
Não vou transcrever o texto bíblico aqui, mas sugiro que você não conte com sua memória apenas. O ideal é que o leitor vá à sua Bíblia para ver com seus próprios olhos o que estou observando no texto, pois assim seu entendimento, aprendizado e memorização, serão bem melhores. Todos já lemos e ouvimos falar desse texto, mas isso não basta, é preciso um novo olhar, e por isso gasto um parágrafo com essa preocupação didática.
Começo falando do meu método interpretativo. Eu fui influenciado nos últimos anos (graças às preciosas indicações bibliográficas do professor Paulo Nogueira da Universidade Metodista de São Paulo)[1] pela Narratologia, que é um método para a interpretação de narrativas. Neste caso, uma simples análise do “tempo narrativo” administrado pelo autor do texto é capaz de nos revelar quais são os temas mais relevantes e quais são os temas secundários da história. Em termos simples como os que utilizei aos meus amigos da “comunidade”, eu gosto de pensar que quando vamos contar uma história, qualquer que seja, fazemos uma seleção das coisas que vamos dizer, pois nem tudo é relevante para o ouvinte. O exemplo que usei foi este: se eu quero lhe contar sobre algo importante que me ocorreu no trabalho, posso resumir toda a manhã dizendo “hoje eu fui trabalhar, e chegando lá...”. Eu não preciso dizer o que comi no café da manhã, que roupa eu usava, que horas acordei, como foi meu trajeto etc. O que é importante neste caso é algo que aconteceu já no trabalho, então posso resumir todo o restante, fazendo o “tempo narrativo” passar depressa.
No texto da multiplicação, Jesus é perseguido pela multidão carente e acaba curando muita gente (Mt 14.13-14), mas isso é descrito em poucas palavras, sem grandes detalhes. Claro que todos esses milagres, nessa história, são considerados secundários. Outro ponto secundário na história é o “milagre da multiplicação”. Ele acontece de maneira oculta entre os versículos 19b e 20. Nós, leitores, continuaremos sem saber como foi que aquela multidão consegui se satisfazer com cinco pães e dois peixes. O contador da história considerou este milagre algo secundário, e nós, se formos bons leitores, entenderemos estes sinais que ele nos deixou.
Aí está uma grande novidade para os leitores da Bíblia. O milagre da multiplicação dos pães é secundário! Embora nos sermões e livros que já ouvimos e lemos ele seja central, e nossas Bíblias usem a palavra “multiplicação” no título da perícope, no texto o milagre é secundário. E o que é essencial então? O ponto mais importante do texto está na parte em que o tempo narrativo é mais lento, onde o contador da história faz o tempo passar devagar para que possamos ver os eventos com mais detalhes, e isso está exatamente no diálogo entre Jesus e os discípulos, dos versículos 15 até 19a. Neste ponto o narrador achou necessário relatar cada palavra proferida (embora isso não queira dizer que elas correspondam aos fatos “reais”), nos deixou ouvir a conversa dos bastidores entre Jesus e os discípulos, coisa que a multidão não ouviu.
Atentando então para esse clímax da narrativa, temos: 1) Os discípulos se preocupam com a fome das pessoas que seguem Jesus; 2) Eles tinham pouca provisão, que provavelmente era suficiente apenas para o grupo dos doze e Jesus comerem aquela noite; 3) Jesus pede que eles dêem de comer à multidão, ou seja, pede que eles dividam o pouco que possuem; 4) Jesus mesmo toma o alimento, agradece a Deus por ele, e o reparte. Esquecendo por hora o milagre, que como eu já disse é um elemento secundário, o que fica ao leitor é a sugestão para se preocupe com os famintos, e que divida com eles o que Deus lhe deu, ainda que seja pouco. Essa é a parte que devemos guardar, obedecer, viver como discípulos de Jesus.
E o milagre? O milagre, insisto, é secundário. Deus, neste caso, multiplicou o alimento e ninguém teve fome, mas só fez isso porque alguém obedeceu a ordem de repartir. Sem esta atitude, nada de milagres. Deus só cumpriu a promessa feita, de que e buscássemos primeiro o Reino e sua justiça, se não guardássemos tesouros na terra, se não nos preocupássemos com o que vamos comer, beber ou vestir (veja Mateus 6 inteiro), e ele nos daria o necessário. Lemos que Jesus e os discípulos seguiram essas instruções, e Deus cumpriu sua promessa e não deixou faltar pão. Portanto, se há algo para guardar a partir desse texto, guarde isso: Deus não deixa faltar aos que dividem, aos que fazem caridade, aos que não se conformam com a fome alheia.
Porém, antes de encerrar, deixe-me vos alertar para um fato importante. O texto diz que Deus alimenta os discípulos que dividem seu pão. Ele multiplica pães para os caridosos, para que eles tenham o que comer. Por favor, não use este texto bíblico tão bonito para falar que Deus multiplica qualquer outra coisa. O texto não diz que Deus multiplica dinheiro na conta bancária, nem milagres, nem carros, casas, clientes, saúde, emprego, namorados ou qualquer outra coisa. Deus promete que não deixa faltar pão na sua mesa, e é só o que o texto diz. Não caia na conversa das pessoas que “grifam” o milagre colocando seus interesses acima da Palavra da Deus, e negligenciam o mais importante, que é a ordem para que aprendamos a dividir o que pão de cada dia que Deus nos dá. A multiplicação anunciada não é motivo para esperar prosperidade, mas para confiar num Deus que conhece suas necessidades e, caso você esteja trabalhando pelo Reino, o ajuda a receber a cada dia o que você precisa para viver. Não peça a Deus mais do que o necessário, não colha mais maná do que você precisa, pois o compromisso de Deus com os seus é o de suprimento básico, de “um denário” pelo seu dia de trabalho (Mt 20.1-16), e nada mais.
Em suma, é isso o que eu tinha para dizer. Lhes ofereço assim uma parte igual do “pão” que Deus me deu para hoje. Divido com vocês minha dádiva. Ele tem me alimentado a cada dia, e realmente nunca me faltou nada. E mesmo de um texto como esse, que para mim parecia uma “panela vazia”, talvez uns poucos pães e peixes se o espremêssemos, o Senhor proporciona alimento que pode suprir momentaneamente a fome de multidões. Agora, me ajude a ser a Deus, me ajude a alimentar o mundo, compartilhe esse texto com os famintos deste tipo de alimento que você conhece.
[1] Aos interessados no método, há muitos livros principalmente em inglês, que você pode encontrar no site “library.nu”, mas eu sugiro que procurem pelo livro Para ler as Narrativas Bíblicas: Introdução à Análise Narrativa, publicado no Brasil em 2009, de Daniel Marguerat e Yvan Bourquin.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA: SOBRE ESTE BLOG E SOBRE A VIDA
Trago aqui apenas uma reflexão pessoal que nasce a partir do meu próprio olhar sobre este blog. Eu me explico: Olho para as últimas postagens e vejo meus textos seguindo dois caminhos distintos. Alguns são bem científicos, e acho que já não sei avaliar quão difíceis ou até inacessíveis eles são aos leitores deste blog. Continuo os escrevendo e postando, e não faço isso porque pretendo exibir conhecimento acadêmico (na verdade tento me fazer compreender e até simplifico alguns textos para este blog), mas porque eles expressam bem o que realmente ando pensando, aprendendo, trabalhando... Por outro lado, me orgulho quando consigo postar textos mais práticos. Eles também são reflexivos, às vezes teóricos, às vezes discutem interpretação de textos bíblicos, mas o número de acessos e de comentários destes textos demonstram que são de interesse bem maior para os leitores em geral. São dois caminhos que considero necessários, o teórico e o prático.
Anos atrás, a vida me exigia mais trabalhos práticos. Não que eu fosse um leigo desinteressado nas teorias, mas escrevia para a igreja, era uma necessidade, e acho que conseguia atingir os objetivos. Naquela época eu já fazia algumas tentativas mais teóricas, mas hoje vejo que toda a produção daqueles dias se caracteriza pela superficialidade. Aos poucos, vou apagando os arquivos, jogando fora os papéis, excluindo as postagens mais antigas do blog... Pode ser que eu, sem notar, esteja apagando minha própria história, mas estes gestos demonstram o meu amadurecimento.
A vida mesmo me levou a novos caminhos, e estas veredas acadêmicas que para alguns são penosas, me apaixonam. Conheci pessoas, livros, idéias e teorias. Fiz pós-graduação, mestrado e hoje faço doutorado, um desenvolvimento que pouco a pouco me faz cada vez mais teórico, cada vez mais científico, e ao mesmo tempo, menos popular. A tese que hoje desenvolvo me parece fascinante, mas sei que ela só será bem recebida nos círculos acadêmicos.
Pois bem, este blog, então, é minha “válvula de escape”. Faço aqui desabafos, falo outra vez de questões eclesiásticas, reflito sobre a minha vida e procuro também influenciar a vida de outros. O exercício da linguagem coloquial que aqui faço sempre me ajuda a manter-me próximo do leitor cristão não interessado nas teorias, mas hoje, vejo que mesmo estes textos que chamo de “práticos” possuem um nível de profundidade argumentativa que excede muito àquela dos antigos textos práticos. Enfim, a teoria me cativou e me fez mais cientista que cristão, porém, ela também me fez um cristão mais profundo.
É isso o que eu queria dizer nesta postagem: Tanto a preocupação teórica quanto a prática são indispensáveis. Quem deixa de ser um ouvinte “leigo” e entra para o time dos pregadores, escritores, professores e líderes, deve se preocupar com o aprimoramento teórico, com o estudo. Se queremos formar opiniões, que pelo menos formemos opiniões sensatas. O isolamento acadêmico também não é um bom caminho, tanta experiência deve sempre oferecer ao mundo alguma contribuição direta.
Enfim, eu temo falar de coisas que não conheço, e sou resistente àquelas pessoas que falam demais e acabam palpitando sobre tudo (pior ainda quando usam os “altares” ou os “títulos” para legitimar suas falas). Eu já fiz isso, mas o conhecimento me ajudou a evitar emitir meus juízos e falsas “verdades” de maneira descuidada. Quem possui conhecimento teórico, e preocupação com uma prática responsável, não cometerá tantos erros.
domingo, 12 de junho de 2011
EXPERIÊNCIAS MÍSTICAS E A INICIAÇÃO DE JESUS: MATEUS 3.16-4.11
Entre o final do capítulo 3 e o capítulo 4 há o que poderíamos chamar de “eventos visionários de Jesus. Pelo menos é assim que lemos estes textos, como experiências extáticas que iniciaram Jesus no ministério. Vamos falar rapidamente dos dois eventos místicos que envolvem o começo do trabalho de Jesus, sugerindo que os mesmos eventos juntam-se ao batismo já comentado, e formam uma espécie de estatuto para a iniciação de todo cristão. Noutras palavras, acreditamos que o cristianismo primitivo poderia ler estes eventos (batismo, visão, exorcismo e ascenção) como passos necessários a todos os discípulos de Jesus.
Primeiro, Jesus tem uma visão ao sair da água em seu próprio batismo (3.16-17). É difícil dizer se este evento foi testemunhado por outras pessoas presentes, ou se o propósito é dizer que apenas Jesus o vivenciou. Pode ser também, que só aqui Jesus tomou conhecimento direto de sua identidade messiânica. Pode ser que aquela voz ouvida tenha sido o momento decisivo que separou o Jesus galileu filho do carpinteiro, do Jesus messias de todos os povos.
O segundo momento começa quando, após o batismo, Jesus é “arrebatado” pelo espírito e vê-se no deserto, onde é provado antes de iniciar seu trabalho libertador em Israel (4.1-11). Na versão de Marcos não há um relato de tentações, mas apenas a idéia de que Jesus foi tomado pelo Espírito e levado ao deserto para ser tentado. Em todo caso, o importante é que este texto liga-se perfeitamente à tradição apocalíptica judaica, onde muitos visionários viam-se tomados por anjos ou seres celestiais e viajavam aos céus (Cf. Schiavo, 2003). No misticismo posterior, na literatura da chamada Hekhalot, estas ascensões tornaram-se verdadeiras aventuras, e os viajantes não apenas contemplavam os céus e as coisas que haveriam de acontecer ao mundo no futuro, mas eram provados, tinham que vencer obstáculos... Talvez estas tradições expliquem de alguma maneira a viagem de Jesus.
Então, não vemos a visão do batismo ou a ida até o deserto como eventos históricos, reais, mas como experiências extáticas, como arrebatamento dos sentidos, o que nos mostraria que estes textos não narram a vida de Jesus como alto tão próprio, como um desenrolar exclusivo, mas que há muitas similaridades com a vida de muitos outros profetas e visionários apocalípticos, místicos da religião judaica.
Voltamos então a anunciar nossa hipótese: acreditamos que a sequência de eventos pelas quais Jesus passa no texto antes de seu ministério poderiam servir entre os leitores dos evangelhos como um estatuto para novos adeptos. Se estivermos certos, todos deveriam imitar a trajetória de Jesus, batizando-se, jejuando, sendo exorcizados dos demônios, e vivenciando experiências místicas visionárias.
JESUS PROCURA JOÃO, O BATIZADOR: MATEUS 3.13-15
Nova perícope se inicia, e narrativamente há uma mudança que vale a pena observar. A partir do versículo 13 o narrador diz que Jesus vai até a Judéia (sul do país) para procurar o profeta João Batista. A impressão que temos é a de que está por traz da narrativa deste encontro um evento histórico, que é busca de Jesus por João e seu batismo. Porém, no processo de organizar as tradições sobre Jesus num evangelho, as coisas foram interpretas de forma que confirmassem a mensagem de fé dos cristãos de então. Assim, o Jesus que um dia foi discípulo de João, e que submeteu-se ao batismo confessando os seus pecados (conforme a exigência para todos os candidatos ao batismo), foi transformado. Ele não possuía pecados segundo os evangelhos, e por isso, seu batismo não passou de um gesto de obediência a normas religiosas; ao mesmo tempo, o profeta João que aparentemente foi um mestre de Jesus, é devidamente colocado num lugar mais secundário.
Em Mateus esse texto é particularmente estranho. O evangelho se nega a cumprir normas religiosas como essas. É uma contradição teológica: jejuns, orações rituais, sábado, sacrifícios... atos religiosos como esses são todos relativizados por Mateus, alguns até mesmo substituídos por “obras de misericórdia”, como veremos nos capítulos futuros. Mas o batismo parece ser um ritual que Mateus aceita, e por isso o texto faz Jesus, o homem que não tinha pecados, batizar-se para legitimar o ritual da comunidade. Os problemas teológicos foram resolvidos com aquele argumento de que Jesus, até ele, batizou-se para cumprir as normas do grupo que integrava. Nenhum leitor está livre para negar o batismo como rito de iniciação necessário, pois segundo o evangelho, até Jesus, que não precisava confessar pecados, não precisava de nenhum perdão, e que não tinha que mudar de vida, o fez para servir de exemplo.