quarta-feira, 30 de março de 2011

JESUS É OU NÃO É DE NAZARÉ? MATEUS 2.19-23

A história da infância de Jesus chega ao final em Mateus 2.19-23. Nos versículos 19 e 20, o anjo volta a aparecer a José em sonho, dizendo-lhe que Herodes, que procurava matar Jesus havia morrido e que eles poderiam voltar à sua terra natal. Literariamente, Mateus é fiel à sua estratégia. José continua sendo o personagem ativo, quem recebe as mensagens, quem toma as decisões, quem conduz os caminhos do menino Jesus.


A volta de Jesus do Egito, como já dissemos ao comentar os textos anteriores, é uma referência simbólica a Moisés, que quando nasceu escapou à milagrosamente e foi criado no Egito. De lá, veio o libertador e legislador Moisés para tomar posse da terra de Canaã; também é do Egito vem o novo libertador e legislador de Israel (v. 21). Porém, há algo estranho na narrativa. Quando chegam na sua terra no sul de Israel (Judéia), a família fica sabendo que Arquelau, o filho do antigo Herodes Magno, estava governando a região (v. 22). José teve medo de voltar a Belém, e outra vez, o anjo lhe fala por meio do sonho para que vá para o norte do país, para a Galiléia; mais especificamente para a cidade de Nazaré (v. 23a). Temos que dizer que o argumento para esta mudança territorial é estranho. Historicamente falando, é verdade que o filho de Herodes, Arquelau, assumira o controle da Judéia depois da morte do seu pai. Ele foi o Etnarca da Judéia de 4 a.C. até 6 d.C. Porém, a fuga para a Galiléia não livra a família desta ameaça, como o texto pretende dizer, pois a Galiléia estava também sob o domínio de outro filho de Herodes, o famoso Antipas, que foi Tetrarca da região de 4 a.C. até 39 d.C.


Arquelau não durou muito no poder, foi deposto e o controle da Judéia passou a ser exercido diretamente pelos romanos. Tanto, que nos dias da morte de Jesus quem governava a região era o romano Pôncio Pilatos (26-36 d.C.). Mas Antipas, que herdou o domínio da Galiléia, ficou no poder por décadas, e nós ainda ouviremos falar dele como o Herodes que mata o profeta João Batista no capítulo 14. Mais estranho ainda, é que esse mesmo Herodes Antipas tinha fixado a sua capital na cidade de Séforis, na Galiléia. Séforis, embora não seja mencionada nos evangelhos, era na época a maior cidade da Galiléia, onde a presença imperial romana e a cultura grega eram mais presentes. E o mais curioso: Nazaré, para onde foge a família de Jesus, ficava a cerca de quatro quilômetros de distância de Séforis. Há até uma hipótese de que José e Jesus, como artesãos (o grego tekton pode referir-se a diferentes atividades manuais com ferro, madeira ou pedra), não teriam como exercer sua profissão em Nazaré, uma pequena aldeia de camponeses, mas provavelmente prestavam serviço à cidade de Séforis (Lima, 2010, p. 8-9). Então, é muito estranho o que nos diz o texto bíblico, que a família de José fugiu para a Galiléia por medo de Agripa, sendo que eles tornaram-se vizinhos do irmão dele, Antipas.


A verdadeira explicação para essa suposta fuga é outra, e está expressa no versículo 23b. Lemos que mais uma vez, o autor de Mateus acredita que tal fuga possui base bíblica. Na suposta profecia, o Messias deveria ser conhecido como Nazareno. O problema é que esta profecia simplesmente não existe em nossas Bíblias. Pode ser que o autor esteja citando uma tradição oral, ou uma versão que nós não conhecemos mais, ou pode ser que tenha entendido mal a leitura que algum dia ouviu na sinagoga. Lembremos que no mundo antigo ninguém tinha Bíblia para consultar em casa, e que estas citações, além de estarem baseadas na leitura de uma tradução do Antigo Testamento para o grego, a Septuaginta, eram feitas de memória. Enfim, parece haver um erro na citação mateana.


Para fechar a questão, o que nos parece realmente é que Jesus nascera em Belém apenas literariamente, ou seja, a história do seu nascimento na Judéia foi criada para atender às expectativas messiânicas de este seria um rei como Davi. Porém, a tradição preservava uma versão mais real, a de que Jesus nascera mesmo em Nazaré. O evangelista precisou reunir as duas versões, a histórica e a mítica, e ao fazê-lo, cria motivos estranhos para que Jesus vá de um lugar para outro. Apesar das incompatibilidades narrativas, esta versão tranqüiliza o autor, que pode chamar seu senhor por Jesus de Nazaré, ao mesmo tempo que crê nele como um novo rei davídico. Para ele, está explicado porque tanta gente chamava Jesus de nazareno, enquanto que o Messias, como sabiam, devia nascer em Belém.



Referência Bibliográfica


LIMA, Anderson de Oliveira. Roma e os Camponeses da Galiléia: Os Motivos que Proporcionaram o Nascimento do Movimento de Jesus de Nazaré. In. Revista Jesus Histórico, n. 4, vol. 1. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010, p. 1-14. Disponível em

segunda-feira, 28 de março de 2011

NOVO ARTIGO PUBLICADO


Volto a escrever para divulgar a publicação de um novo artigo meu, desta vez na Revista Orácula n. 11, que trabalha temas relacionados ao misticismo judaico e métodos de leitura. Meu artigo é um exercício que aplica a “narratologia” na interpretação de Atos 5.1-11, o texto que fala sobre a morte de Ananias e Safira.



O artigo pode ser baixado em pdf no site da revista: www.oracula.com.br

terça-feira, 22 de março de 2011

NOVO ARTIGO PUBLICADO


Costumo sempre divulgar no blog, não apenas os textos mais breves que escrevo especialmente para este meio de comunicação, mas também anuncio aos meus leitores a publicação de artigos acadêmicos. Desta vez, quero divulgar a publicação de um novo artigo meu intitulado “O Casamento de Jesus: Um Enredo do Antigo Testamento na Construção da Narrativa de João 4”. O artigo trata do emprego de um padrão de linguagem do Antigo Testamento na construção da história do encontro de Jesus e da mulher samaritana. A estrutura da narrativa segue os passos de um casamento, e um leitor atento, que conhece bem as histórias de casamento do Antigo Testamento, fica cada vez mais convencido, durante a leitura, de que no final Jesus vai se casar com a mulher samaritana. Claro que isso não acontece, é uma “pegadinha” do autor, que acaba fazendo Jesus “casar-se” com todos os samaritanos de fé.

Infelizmente, o site da PUC-Minas, publicadora da Revista Horizonte, não disponibilizou dois artigos para o leitor em PDF, dentre os quais, está o meu. Assim, até o momento, esse artigo de que gosto tanto só é acessível para aqueles que encontrarem a revista em sua forma impressa. Caso isso mude, informarei a todos aqui pelo blog. Por enquanto, a referência exata para quem quer procurar o artigo é:

LIMA, Anderson de Oliveira. O Casamento de Jesus: Um Enredo do Antigo Testamento na Construção da Narrativa de João 4. In. Revista Horizonte, v. 8, n. 19. Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte, 2010, p. 138-152.

JESUS É O NOVO MOISÉS: MATEUS 2.13-18

Leia mais essa passagem de Mateus e note que José continua dominando a narrativa, guiando o menino Jesus e orientando-se a partir dos desígnios divinos. Como já dissemos, ele é, em Mateus, bem mais importante que Maria. Agora, o anjo lhe diz para que fuja para o Egito com a família, a fim de livrar o menino Jesus da violência de Herodes, que ainda planejava matar o suposto futuro rei dos judeus (v. 13). José, claro, faz o que o anjo manda, e fica no Egito até que Herodes morre (v. 14).

Aqui, como de costume, Mateus inclui uma citação do Antigo Testamento que lhe parece relacionada à vida de Jesus. Outra vez, ao citar Oséias 11.1, Mateus lê o texto desconsiderando seu significado primevo; ele nem mesmo menciona que Jeremias falava do êxodo, da saída do Egito, mas vê apenas a volta de Jesus do Egito, como um novo libertador semelhante a Moisés. Novamente, o texto é lido a partir da perspectiva exclusiva do leitor, a despeito de seus significados históricos.

É bom aproveitar a ocasião para ver que há uma costura de perícopes neste ponto do evangelho. Nos versículos 13 a 15 temos um texto completo, com uma citação do Antigo Testamento que completa a idéia. Herodes já morreu, o menino Jesus já pode voltar, mas o evangelista une a essa passagem outra em que Herodes Magno ainda vive, a fim de tornar sua narrativa mais completa. A narrativa retrocede cronologicamente, deixando-nos ver um problema de coesão. Passemos então a esta segunda parte, que segue a mesma estrutura com uma breve narrativa e uma citação bíblica como conclusão.

Herodes, ainda vivo, manda matar todos os meninos de dois anos para baixo em Belém e nas proximidades (v. 16). Jesus, como sabemos, já não está na região, fugiu para o Egito, para que de lá voltasse, simbolicamente, como um novo Moisés libertador. Nem vem ao caso se esta matança de crianças realmente aconteceu na história; no texto, ela é importante porque mais uma vez nos faz lembrar de Moisés, que por pouco livrou-se da morte quando o faraó ordenou que matassem os meninos hebreus, em Êxodo 1. A mensagem não precisa de comprovação histórica, pois tem o objetivo de anunciar Jesus como um Messias mosaico, e trabalha com uma perspectiva intra-textual, fazendo-nos viajar pelas histórias da Bíblia.

Uma nova citação de Jeremias 31.15 fecha a perícope. Uma leitura rápida desta passagem de Jeremias e dos versículos subseqüentes é suficiente para nos revelar que mais uma vez Mateus não faz uma grande exegese. A Raquel é simbólica, e chora por seus filhos por conta do exílio babilônico; Mateus aplica esta passagem à morte dos meninos em Belém.

A conclusão que podemos tirar dessas duas passagens é a seguinte: o evangelho de Mateus quer nos convencer de que Jesus é o Messias, fazendo-o semelhante a Moisés. Vemos que esta é mais uma característica de sua própria expectativa messiânica, a de que o Messias seria como Moisés. Os sinais para que o identifiquemos desta forma estão aí: Jesus é perseguido no nascimento, como Moisés; Jesus escapa da morte no Egito, e de lá sai como um libertador para a sua nação, como Moisés.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A TERCEIRIZAÇÃO DA FÉ



Ontem, numa aula do doutorado, o professor que conheci recentemente, Dr. Rui de Souza Josgrilberg, comunicou-nos algumas palavras que achei que poderia transmitir aos leitores deste blog. A aula era sobre um texto difícil de Paul Ricœur, mas o que entendi mesmo foi o que ele disse sobre um fenômeno que atinge as igrejas protestantes desses nossos dias. Vou então resumir com minhas palavras o que disse o professor, e depois, quem sabe, acrescentar algumas reflexões próprias.

Segundo Josgrilberg, os cristãos de hoje têm terceirizado, a exemplo do que têm acontecido no mundo corporativo, a própria experiência religiosa e a leitura da Bíblia. Embora a reforma protestante tenha nos legado o direito de ler a Bíblia pessoalmente, em nossa língua, em diferentes traduções, e com preços bem acessíveis, os cristãos do século XXI não usufruem deste direito, e deixam por conta dos pastores a tarefa de escolher os textos, lê-los, e interpretá-los. É verdade, grande parte dos cristãos não lê a Bíblia a não ser pequenas porções que são lidas coletivamente nos cultos. Eles preferem acreditar que o pastor é mais apto para tal tarefa e que o que ele lhes transmite é correto e suficiente. Isso, obviamente, é um engano. A Bíblia não está sendo bem lida, bem interpretada e transmitida; na verdade, de maneira consciente ou inconsciente, os líderes religiosos acabam por utilizar-se dessa exclusividade no acesso às Escrituras para manipular o povo crédulo.

Digo sempre as pessoas, mesmo aquelas que lêem a Bíblia, na verdade não e ouvem. Acontece que as igrejas em geral possuem já suas próprias interpretações, e fazem questão de ensiná-las a todos, com a intenção de auxiliá-los no seu caminhar cristão. Todavia, essa ajuda é também a maneira de não permitir que nós tenhamos acesso ao texto diretamente, há sempre esse filtro, essa interpretação “oficial” se interpondo entre nós e o texto, e nos impedindo de ouvir a verdadeira voz do texto. Neste caso, eu levo mais adiante a crítica do Dr. Josgrilberg, pois além daqueles que delegam ao pastores a interpretação do texto, também considero quase sempre inútil a iniciativa dos cristãos quando lêem a Bíblia e permanecem vendo nela aquilo que antes ouviram da igreja. As postagens recentes sobre os textos de Mateus, pretendem exatamente testar e ensinar os cristãos, para que leiam a Bíblia diretamente, com transparência e honestidade, sem preconceitos, sendo capazes de exprimir opiniões pessoais sobre o que o texto lhes parece, mesmo quando essas impressões contrariam a fé evangélica.

Mas as palavras do meu professor também falavam da terceirização da “experiência religiosa”. Eu vou definir isso de maneira bem simples, como as experiências que temos com Deus, seja qual for nossa fé. Estados alterados de consciência, oráculos, expressão de dons espirituais, possessões, sensações de toque pessoal ou audições de palavras não humanas... tudo isso pode ser experiência religiosa. Estas, que para mim, são as verdadeiras razões para que alguém creia nalguma coisa, também são terceirizadas hoje em dia. Muitas pessoas não encontram Deus em casa, nas suas orações, nas suas meditações, em cultos particulares; elas preferem esperar pelo domingo, para que a música da igrejas lhes comova, para o pastor, com mais encenação do que conteúdo, lhes emocione. São necessárias campanhas, vigílias, rituais e mais rituais, todos com o propósito de proporcionar experiências religiosas para cristãos dependentes.

Entendo a Bíblia como parte fundamental da minha fé, da minha vida religiosa. Sou apaixonado pelos princípios que dela aprendi e ainda guio-me por suas palavras, ainda que não as entenda como as igrejas entendem. Mas acima disso, eu também acredito, e defendo sempre diante dos meus alunos e amigos, que os alicerces da fé não estão no conhecimento, em provas, na razão, e nem mesmo nos texto Bíblicos, mas nas experiências religiosas pessoais que temos. Até a Bíblia, quando lida sem esta experiência, é apenas um livro antigo, motivo pelo qual incentivo a busca pessoal por Deus, sem moletas, sem auxílios eclesiásticos, sem métodos teológicos. Acho que não devemos permitir que as experiências e interpretações de outros, que não são em nada superiores, guiem nossa fé. Essa liberdade é um direito nosso, do qual não devemos abrir mão.

terça-feira, 15 de março de 2011

OS MAGOS E O MESSIAS DAVÍDICO: MATEUS 2.1-12

Nossa leitura do evangelho de Mateus, como já se pode notar, não é tão exegética quanto poderia ser. Não estamos trabalhando os textos em todos os seus detalhes e nem pesquisando fontes bibliográficas que nos auxiliariam na tarefa de interpretar o texto. O objetivo aqui é exercitar nossa leitura espontânea, aguçar nossa percepção aos enfoques do texto sem a influência de terceiros. Essa leitura espontânea, todavia, mostra-se insuficiente em alguns textos, como Mateus 2.1-12. O texto é misterioso para nós, contém detalhes que a mera leitura não nos permite desvendar. É provável que sua audiência primitiva compreendesse seus símbolos, mas nós permanecemos ignorantes. Mesmo neste caso, nossa leitura é capaz de destacar pontos de primeira importância para o evangelho.

O texto fala dos magos. Não diz que são três, não diz que são reis, e nem diz quais são seus nomes ou origem. A informação escassa dá margem à imaginação, e a tradição cristã é prova disso. Para os cristãos de hoje é difícil compreender o que fazem esses magos no texto. São gentios que se caracterizam por atividades “mágicas”, talvez como curandeiros populares, ou milagreiros, ou videntes, ou talvez consultem oráculos... Em todos os casos, a prática deles seria recusada pelo cristianismo. Então, o que fazem esses magos no texto de Mateus?

O texto começa dizendo que Jesus nasceu em Belém da Judéia (v. 1). Não é segredo que esta é a cidade que também deu origem ao rei Davi, lembrado pela tradição popular como o legítimo rei de Israel. A família de Jesus, em Mateus, não vem de Nazaré como em Lucas, eles já moram em Belém; o menino não nasce durante uma viagem e nem numa manjedoura, mas em casa (v. 11). O evangelista Mateus também tenta ligar as memória históricas de um Jesus de Nazaré com a cidade de Belém, da qual ele acreditava que sairia o Messias (segundo sua leitura de Miquéias 5.2); mas para isso usa uma narrativa totalmente diferente. O importante aqui, é que Jesus deve ser visto como um novo Davi, é um Messias rei, que veio ao mundo para assumir o lugar de líder da nação. Noutras palavras, ao relacionar Jesus com Belém, Mateus está ensinando seu leitor a entender Jesus como um novo Davi. Esse é o Messias que ele esperava, e é preciso fazer Jesus atender a esta expectativa.

Herodes, o Grande, entra em cena como um rei fingido que secretamente planeja destruir o menino Messias. Ele também parece acreditar nas profecias, já que elas trouxeram do oriente os magos que procuravam pelo “rei de Israel”. Como sabemos, Herodes morreu em 4 a.C., e isso nos aproxima um pouco da data que Mateus atribui ao nascimento de Jesus.

Enfim, nossa opinião é a de que este texto pretende, acima de tudo, legitimar Jesus como o Messias, o novo Davi que reinará sobre Israel. Ele, contra as probabilidades históricas, faz Jesus nascer em Belém, e ser perseguido por Herodes. Os magos, neste caso, exercem um papel importante, pois são gentios que provavelmente entenderam que o Messias estava para nascer em Belém através de suas próprias magias. Isso serve como uma advertência aos judeus, que não reconheciam com a mesma prontidão o Messias que Deus enviou diante dos seus olhos, e mostra que Jesus, desde o princípio, veio para ser adorado por todas as nações. O texto de Mateus 2.1-12 dá-nos, assim, as primeiras indicações de que o evangelho judaico-cristão de Mateus é, na maioria das vezes, aberto aos gentios que ignoram as Escrituras e crêem, e hostil para com o povo judeu que não aceita sua mensagem. O bom leitor deve, daqui por diante, ler o evangelho consciente de que o mundo está aberto para Jesus, mas nem tanto os judeus; e deve também lembrar-se de que este Jesus, anunciado pelas profecias, atende às expectativas daqueles que esperavam um novo governo davídico.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O JUSTO JOSÉ E O NASCIMENTO DE JESUS: MATEUS 1.18-25

Depois da genealogia de José, o autor do evangelho de Mateus dedica-se à impossível tarefa de fazer da vida de Jesus o cumprimento de profecias do Antigo Testamento. Ele narra eventos fictícios como se fossem reais, moldados cuidadosamente para que se encaixem nas suas próprias expectativas messiânicas. Veremos isso passo a passo, para começar, com a história do nascimento de Jesus.


Quando Maria ficou grávida, ela era uma moça provavelmente muito jovem, já prometida em casamento a José, um homem de mais idade. Mas em Mateus o conflito é com José, a narrativa foca-o e faz de Maria personagem secundário. Na verdade, no evangelho de Mateus e em sua história da infância de Jesus, não há nenhuma ênfase na personagem Maria, como vemos em Lucas. Sempre é José quem recebe os avisos em sonho e conduz o menino Jesus pelos caminhos que a ele estavam determinados.


Na narrativa, José fica sabendo que sua noiva está grávida, e só podia pensar em imoralidade. Entretanto, por ser ele um homem “justo”, José salva a reputação de Maria assumindo a responsabilidade pela gravidez. Isso é o que observou Paulo R. Garcia, quando mencionou esta passagem em um artigo de 1996 (Garcia, 1996, p. 64). Então, José é chamado “Justo” provavelmente por ter assumido a culpa publica pela gravidez e preservar a imagem e a vida de Maria, ainda que ele não estivesse mais disposto a casar-se com ela. É possível que a saída seria a fuga de José, o que faria com que a sociedade o culpasse pela gravidez, poupando Maria, que para ele ainda era culpada.


O epíteto de José, “justo”, é importante para Mateus; é a maneira como ele descreve aqueles que praticam a verdadeira Lei (Lima, 2009). Para este evangelho, amar a Deus e ao próximo resume a Lei e os Profetas (Mt 22.36-40); noutras palavras, os judeus-cristãos devem fazer ao outro aquilo que você quer que os outros vos façam (Mt 7.12). José é o primeiro exemplo desse tipo de atitude “justa”, é isso o que o faz especial, o escolhido para a missão de defender e conduzir o menino Messias em seus primeiros anos. Esse texto nos oferece os primeiros parâmetros da moralidade mateana, que interpreta a Lei para benefício humano e não para condenação.


Depois que José prova sua “justiça”, seu valor moral através da valorização da vida alheia, um anjo lhe aparece em sonho para dizer que Maria não engravidara de outro homem, mas do Espírito Santo, pelo que José, aliviado, decide casar-se e torna-se um auxiliador do projeto divino.


A seguir (1.22-23) vemos o autor declarar abertamente que tudo o que aconteceu tinha relação com uma antiga profecia, que pode ser lida em Isaías 7.14. Diferentemente do que vimos na genealogia, aqui Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e o mais relevante disso tudo é que a preexistência da profecia isaiânica e a fé nela é o que motiva a adequação das tradições sobre a infância de Jesus. Ou seja, a profecia e a interpretação que os judeus deram a ela delinearam a composição das narrativas sobre a infância de Jesus, e não o contrário. Fazer de Jesus alguém gerado diretamente por Deus, e não por um homem, era uma exigência anterior ao texto evangélico. Temos aqui o elemento que nos conduz à primeira conclusão sobre a teologia mateana; o evangelho preocupa-se em fazer de Jesus um continuador da tradição vétero-testamentária. A vida de Jesus deve, para satisfazer às expectativas religiosas do autor, cumprir as profecias supostamente messiânicas, contendo em si mesmo as características heróicas de personagens como Davi e Moisés, como veremos nos próximos textos.



Referências Bibliográficas



GARCIA, Paulo Roberto. Lei e Justiça: Um Estudo no Evangelho de Mateus. In. Estudos Bíblicos, 51. Petrópolis: Vozes, 1996, pp. 58-66.


LIMA, Anderson de Oliveira. Os Justos e os Profetas: Designações para os Judeu-Cristãos no Evangelho de Mateus. In. Revista Metanoia. Universidade Federal de São João del-Rei, 2009.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

INSPIRAÇÃO PARA OS “LIVRES”



O historiador Carlo Ginzburg escreveu na década de setenta um livro que se tornou um clássico, intitulado “O Queijo e os Vermes”. Com base em documentos da inquisição, Ginzburg reconstruiu, na medida do possível, a vida e o pensamento de um moleiro do século XVI chamado Menocchio, que foi condenado pela Igreja Católica por suas idéias heréticas.

Há algumas linhas que registram as palavras do tal moleiro herético que se tornaram, para mim, um dos momentos mais marcantes do livro, e é com base nelas que quero propor a reflexão de hoje. Diante do tribunal da inquisição, Menocchio disse certa vez:

Um grande senhor declarou seu herdeiro aquele que tivesse um certo anel precioso; aproximando-se da morte, mandou fazer outros dois anéis parecidos com o primeiro e, como tinha três filhos, deu a cada um deles um anel. Cada um deles julgava ser o herdeiro e ter o verdadeiro anel, mas, dada a semelhança, não se podia saber ao certo. Do mesmo modo, Deus possui vários filhos que ama, isto é, os cristãos, os turcos e os judeus, e a todos deu a vontade de viver dentro da própria lei e não se sabe qual seja a melhor. Mas eu disse que, tendo nascido cristão, quero continuar cristão, e se tivesse nascido turco, ia querer viver como turco [...] eu penso que cada um acha que a sua fé seja a melhor, mas não se sabe qual é a melhor; mas, porque meu avô, meu pai e os meus são cristãos, eu quero continuar cristão e acreditar que essa seja a melhor fé. (2006, p. 92)

É surpreendente o que ele teve a coragem de dizer cara a cara com os inquisidores que podiam prendê-lo pelo resto da vida ou até matá-lo. A Igreja Católica era, na época, a instituição religiosa que tinha poderes para definir qual a maneira correta de se viver o cristianismo, mas, no interior da Itália e nos dias em que a reforma protestante ganhava terreno, um homem simples ousou pensar livremente e questionar a fé pré-moldada que lhe impunham desde o nascimento. Menocchio, ecumênicos como poucos na época, fazia ruir para si mesmo os alicerces da fé ortodoxa, declarando que todas as religiões eram apenas instituições de homens que buscam a verdade.

Ao derrubar assim a autoridade e inerrância da igreja, Menocchio encontrou espaço para questionar dogmas centrais da fé católica, como por exemplo, o uso do latim pelo clero: “Na minha opinião, falar latim é uma traição aos pobres. Nas discussões os homens pobres não sabem o que se está dizendo e são enganados” (Ginzburg, 2006, p. 41). Ele questionou o direito exclusivo da igreja de celebrar os casamentos: “[...] antes, homens e mulheres faziam troca de promessas e isso era suficiente; depois apareceram essas invenções dos homens” (2006, p. 42). E também condenou a ordenação e a hierarquia eclesiástica, dizendo: “Acho que o Espírito Santo está em todo mundo, [...] e acho que qualquer um que tenha estudado pode ser sacerdote, sem ter que ser sagrado, porque tudo isso é mercadoria” (2006, p. 42).

A história de Menocchio é, segundo a reconstrução de Ginzburg, fascinante. Mas fazendo agora um paralelo conosco, conheço homens e mulheres que assim como Menocchio ousam questionar as religiões e seus dogmas. Desde a reforma, a autoridade absoluta da igreja foi substituída para muitos pela Bíblia, que tornou-se o grande alicerce da fé, e é supostamente com base nela que as igrejas criam seus dogmas. Mas as pessoas que mencionei, por refletires sobre o que fazem, por observarem atentamente o funcionamento das coisas, por querer sempre melhorar o lugar em que estão, e por estudarem e notarem a incompatibilidade que há nos dogmas cristãos em relação aos textos, tomam a liberdade de não fundamentar-se mais sobre a palavra dos clérigos, sejam eles de que seita forem. Eles ainda questionam as coisas que Menocchio questionou, mas também criticam os limites do cânon, que amordaçaram Deus; eles também duvidam da inerrância dos sermões e dos textos, criticam os discursos evangélicos e a busca nada bíblica por prosperidade, assim como o preconceito religioso para com os diferentes.

No entanto, esses novos “hereges”, ou “homens livres”, não deixam suas igrejas por conta disso. Como Menocchio, eles não acham que indo para outro lugar encontrarão a “verdade”. Por que criariam novas seitas que não fariam mais do que dar novos palpites humanos sobre Deus? Eles continuam nas antigas igrejas levando consigo suas idéias nada convencionais, encontrando opositores, arrumando conflitos de vez em quando, e libertando alguns das grades da religião quando podem. Enfim, eles ainda querem que sua religião seja a correta, mas não estão certos disso, motivo pelo qual é melhor não criar religiões nem arruinar as alheias.

Quis falar de Menocchio porque ele é uma inspiração para os “novos hereges”, cujo credo Menocchio definiu há séculos quando, diante da inquisição, disse:

Gostaria que se acreditasse na majestade de Deus, que fôssemos homens de bem e que se fizesse como Jesus Cristo recomendou, respondendo àqueles judeus que lhe perguntaram que lei se deveria seguir. Ele respondeu: ‘amar a Deus e ao próximo’ [...] Bastariam só quatro palavras para a Sagrada Escritura [...] (2006, p. 41, 44)

Referências Bibliográficas

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A GENEALOGIA DE JOSÉ, O PADRASTO ELEITO: MATEUS 1.1-17


Até o capítulo 4 do evangelho de Mateus há uma grande concentração de textos exclusivos deste evangelho, textos que não encontram paralelos noutras fontes do cristianismo primitivo, e que por isso mesmo parecem atender de maneira mais direta aos interesses do evangelista. Isso vemos desde a genealogia de Mateus 1.1-17, que não pode ser comparada à genealogia presente no evangelho de Lucas. Certamente a genealogia procura legitimar algum personagem ligando-o a grandes nomes do passado de Israel, como Abraão e Davi. Em Mateus, surpreende-nos o fato de que o personagem que está sendo legitimado é José, e não Jesus. O evangelho admite que Jesus não é filho legítimo de José, fazendo toda uma lista de nomes que não possuem necessariamente nenhum vínculo sanguíneo com o próprio Jesus. Veremos nos textos seguintes que José é a figura decisiva da narrativa até o final do capítulo 3, sendo muito mais importante do que Maria em Mateus; é por isso que o evangelho começa dando-lhe tal ênfase.


O uso de uma genealogia de José para abrir o evangelho já é suficientemente surpreendente. Mas esta perícope inicial vai mais longe. Nela encontramos os nomes de cinco mulheres, quatro delas com reputação duvidosa, mas que se tornaram heroínas na tradição de Israel (Chevitarese, 2006, p. 48-50). Só pra lembrar, temos Tamar, que se fingiu de prostituta para engravidar do próprio sogro (Gn 38.1-30); temos a prostituta Raabe (Js 2.1-21); temos Rute, que tomou uma iniciativa imprópria para uma mulher quando se deitou de noite “aos pés” de Boas e o levou ao matrimônio (Rt 3.1-18); e temos a mulher de Urias, que está envolvida numa das mais famosas histórias de adultério e assassinato da Bíblia (2Sm 11.2-27). A quinta mulher mencionada é Maria, a mãe de Jesus, que será apresentada como a mulher de José em breve.


Assim, o evangelho constrói José como um homem que possui entre seus ancestrais mulheres que foram mal vistas pela sociedade, mas que se tornaram grandes personalidades. A genealogia liga, em torno do nome de José, as quatro mulheres de tradição duvidosa a Maria, e isso indica que está implícita a acusação de que Maria possa ser também uma dessas mulheres. Em torno dos círculos cristãos do primeiro século, é bem provável que alguém insistisse que Jesus era um filho bastardo, e o cristianismo se defende disso ao afirmar a paternidade divina de Jesus. Claro que o evangelho não acredita que Maria tenha engravidado de qualquer outro homem, mas do Espírito Santo, como veremos a partir do versículo 18; no entanto, como o foco está em José, parece-nos que ele é retratado como o homem certo para receber a virgem grávida do Messias. Por sua história familiar, José seria capaz de não condenar a menina mesmo sem saber que nela Deus operava um milagre.


Diríamos, depois disso, que Maria não está sendo acusada de pecado. Não é este o propósito da genealogia. Antes, ela quer apresentar José como um homem escolhido, alguém capaz de suportar o peso da responsabilidade que receberia ao ser o pai adotivo do Messias, e o marido de uma mulher que engravidou antes dele a tocar.



Referência Bibliográfica


CHEVITARESE, André Leonardo. Maria, Menino Jesus e a Ilegitimidade Física do Filho de Deus. O uso do Modelo Iconográfico de Tipo Universal (Mãe/Filho) pelos Cristãos. In. Jesus de Nazaré: Uma Outra História. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006, p. 43-59.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ORTODOXOS E GNÓSTICOS DISCUTEM A RESSURREIÇÃO

Este texto, assim como o anterior, são breves estudos que preparei para servir como material para sala de aula neste semestre. Em certo sentido, este dá continuidade ao anterior, falando sobre o processo de institucionalização na igreja cristã primitiva. Outra vez, achei que algumas informações podem ser de interesse geral, e por isso divulgo aqui esta versão resumida do estudo.

Depois da crucificação de Jesus, além dos doze apóstolos e outros que fixaram residência em Jerusalém, outros muitos discípulos que ouviram na Galiléia a respeito do Reino de Deus continuaram a missão de Jesus de maneira independente. O próprio Paulo é um exemplo de cristão que aderiu ao cristianismo de maneira independente dos doze apóstolos, e deu seguimento ao seu próprio modo de entender a mensagem de Jesus. É impossível enumerar quantas formas de cristianismo existiram desde as primeiras décadas, mas sabemos que eram várias, algumas completamente independentes da influência de Pedro. As igrejas de Paulo, por exemplo, já seguiam numa direção diferente daquela seguida por Tiago em Jerusalém; a igreja de Mateus também é bastante diferente daquela igreja que o evangelho de João testemunha, e há ainda textos como o evangelho de Tomé, que revelam a existência de vertentes completamente distintas do cristianismo primitivo. Isso está claro, e no meio de tanta diversidade surgiu um debate a respeito da ressurreição de Jesus.

Os textos bíblicos, como sabemos, narram que Jesus ressuscitou de forma corpórea, que andou, ensinou e comeu com os discípulos depois de voltar à vida. Conta também que ele comissionou os discípulos, e depois subiu ao céu. Depois disso, a igreja não teve mais contato com o Jesus em carne, mas com o Espírito Santo. A autoridade eclesiástica estava sobre aqueles que conheceram Jesus, sobre os doze, e depois deles, sobre aquele que descenderam da mesma linha apostólica. Essa é a versão bíblica da história (pele menos é a versão de Atos dos Apóstolos), a versão aprovada pelo cânon, a que testifica a autoridade da igreja. A igreja de Roma sempre apoiou-se nisso para afirmar sua autoridade e predominância. Segundo a tradição, Pedro, o principal apóstolo, havia delegado aos bispos de Roma a liderança da igreja, e por isso o Papa deve ser reconhecido como o “cabeça” da igreja sempre. Quer dizer que não podem haver outros líderes acima dele? Não, isso seria passar por cima da autoridade apostólica, seria desviar-se dos mandamentos deixados pelos primeiros cristãos.

Nisso, vemos que, por mais que se negue, o contato ou relacionamento do cristão com o Espírito Santo é inferior ao relacionamento direto com o Cristo. Aqueles que Jesus em carne comissionou serão sempre os cabeças. O Espírito não possui essa autoridade, não pode mudar a palavra do Jesus em carne e osso, e por isso, é claro que a ressurreição corpórea de Cristo e sua permanência na terra por algum tempo serve como legitimadores da autoridade da igreja de linha ortodoxa. Nas palavras de Elaine Pagels:

[...] quando examinamos o efeito prático que a doutrina da ressurreição corporal teve no movimento cristão, constatamos que, paradoxalmente, ela serve também uma função política essencial, legitimando a autoridade de certos homens que pretendem exercer liderança exclusiva sobre as igrejas enquanto sucessores do apóstolo Pedro. A partir do século segundo, esta doutrina serviu para validar a sucessão apostólica dos bispos, a qual tem constituído até ao presente a base da autoridade papal. (Pagels, 2006, p. 38)

Porém, a partir de textos encontrados na chamada “Biblioteca Gnóstica de Nag Hammadi”,[1] Pagels estudou o pensamento de cristãos primitivos que defendiam a ressurreição de Cristo, mas não de forma corpórea. A volta de Cristo, neste caso, era espiritual e permanente, e acreditavam que o relacionamento com Jesus estava disponível para todos em todas as gerações. Todo cristão era incentivado a buscar tal contato com Jesus, o que se dava por meio de experiências extáticas, de revelações. Só depois que esse contato se dava, é que alguém poderia se considerar um discípulo, alguém iniciado no evangelho pelo próprio Jesus. Esse conhecimento misterioso, incontrolável, e sempre novo, que se constituía no objetivo desse tipo de cristão, é o que fez com que fossem chamados de “gnósticos” (gnose é conhecimento em grego).

Se um cristão gnóstico baseava sua vida religiosa nesta experiência pessoal, é óbvio que o ensino dos mais antigos perde parte de seu valor. Para eles, todos podem ter a mesma experiência que Pedro teve, e por isso não há razões para haver hierarquias na igreja. Para os “católicos”, dos quais nós hoje descendemos, a autoridade apostólica é essencial; a Bíblia registra (é como se crê) o pensamento dos apóstolos, e não há como Deus dizer nada que modifique ou contradiga a mensagem apostólica. Tudo o que for dito, que nalgum ponto seja diferente dessa primeira revelação, é considerado heresia. Para os gnósticos essa revelação apostólica é apenas uma das possíveis revelações. Deus não se limitou aos apóstolos ou ao Novo Testamento, mas continua sempre falando com homens e mulheres que dele se aproximam por meio da fé em Jesus.

A divergência entre essas duas formas de crer não se baseia em fatos. Nenhum dos autores do Novo Testamento ou dos textos gnósticos sabia como se deu a ressurreição de Jesus. A briga entre ressurreição espiritual ou corpórea na verdade era alimentada por uma disputa de autoridade. Para os ortodoxos, a igreja precisava de limites, e escolher os textos canônicos e limitar a autoridade aos bispos como herdeiros da tradição apostólica, era um meio de impedir que as invenções posteriores desviassem a igreja de suas origens. Para os gnósticos, os ortodoxos, que tinham a pretensão de estruturar uma igreja universal (católica), queriam apenas controlar os homens, enquanto que Deus não se pode controlar. Eles incentivavam a busca pelo conhecimento direto de Deus, mesmo sabendo que isso impedia hierarquias e doutrinas. As coisas, para os gnósticos, deveriam correr soltas, sob a direção do próprio Deus, mesmo que isso trouxesse riscos, como o de que alguém, inspirado não por Deus, divulgasse algum tipo de mentira (Pagels, 2006, p. 52-53).

No evangelho de João 20.26-29 há uma passagem que ganha sentido a partir da discussão que estamos desenvolvendo. Jesus apresenta-se aos discípulos em forma corpórea, o que já nos revela que trata-se de um texto defensor da tradição apostólica e não gnóstica. O interessante é que o incrédulo Tomé é quem duvida de que Jesus tenha ressuscitado no corpo, e é quem acaba tendo que reconhecer o próprio erro, ao tocar o corpo já crucificado de Jesus. Não é coincidência de que exista um evangelho gnóstico que chamamos de Evangelho de Tomé.

Se Tomé, o discípulo incrédulo, é um dos nomes que marcam a tradição gnóstica, Pedro é o grande representante da tradição católica. Obviamente não estamos falando das opiniões dos próprios apóstolos, mas das disputas entre igrejas que se dizem discípulas de um ou de outro. Assim como em Marcos 8.27-30 Pedro ganha prestígio por ser o único que conhece a essência messiânica de Jesus, em Tomé 13 é este outro apóstolo que se destaca, superando Pedro e Mateus:

Jesus disse aos seus discípulos: “Comparem-me: digam-me a quem me assemelho”. Simão Pedro disse-lhe: “Tu te assemelhas a anjo justo”. Mateus lhe disse: “Tu te assemelhas a filósofo prudente”. Tomé lhe disse: “Mestre, minha boca não aceitará de modo algum dizer a quem te assemelhas”. Disse-lhe Jesus: “Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste, tu te embriagaste na fonte borbulhante que eu fiz brotar (ou ‘espalhar’)”. E, pegando-o, se retira e lhe diz três palavras. Ora, quando Tomé voltou para junto de seus companheiros, eles lhe perguntaram: “O que te disse Jesus?” E Tomé respondeu: “Se eu vos disser uma só das palavras que ele me disse, vós pegareis pedras e as lançareis sobre mim e fogo brotará das pedras e vos queimará”.

Obviamente, nenhuma das confissões é histórica. Ambas são defesas de igrejas em conflito, são textos que unem a tradição com a necessidade de legitimação. Cada igreja neste caso tenta defender sua opinião apoiando-se sobre a autoridade de algum apóstolo já falecido.

Vejamos ainda Tomé 114, um texto muito curioso, como último exemplo. Outra vez, é Pedro quem se dirige a Jesus sem qualquer sabedoria. Ele é corrigido, como lemos:

Simão Pedro lhes disse: “Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida”. Jesus disse: “Eis que vou guiá-la para fazê-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois toda mu­lher que se fizer macho entrará no Reino dos céus”.

Deixando de lado o machismo que era uma questão cultural, chamamos a atenção para o fato de que Pedro não vê salvação para as mulheres, e quer tirar do meio dos discípulos Maria Madalena, outro nome representativo para a tradição gnóstica. Porém, neste texto, Jesus defende Maria, quer fazê-la discípula com os mesmos privilégios que os homens, mesmo que para isso ela tenha que se tornar como um homem. Não está implícita na fala de Pedro a crítica da igreja de tradição ortodoxa ao evangelho de Maria? E não está o autor do texto dizendo que a tradição que se denomina petrina não possui qualquer superioridade às demais? E não há também nesta igreja cristã gnóstica a permissão para que mulheres assumam papéis de destaque, coisa proibida desde o século II nas igrejas de tradição apostólica?

Por fim, o caminho ortodoxo, que se dizia apostólico, foi adotado pelo catolicismo romano e prevaleceu. A institucionalização, negativa por amarrar a liberdade religiosa, é positiva por impedir que as diferenças ponham fim à igreja. Esta igreja institucional, presa à vontade de seus líderes, venceu a batalha contra os cristãos gnósticos dos séculos II e III. Quando Lutero rebelou-se contra a autoridade papal e exigiu para todo cristão o direito de ler a Bíblia, estava em certo sentido retornando aos argumentos gnósticos, porém, sua tradição cristã o impedia de libertar-se também do cânon (que é uma das bases da instituição católica) e das estruturas hierárquicas. A reforma foi uma luta interna por liberdade, nada que nos fez sair dos limites já estabelecidos pela tradição apostólica. Hoje, se queremos dar outros passos em direção à liberdade, precisaremos ousar mais. Teremos que negar outra vez a existência de hierarquias, e a prioridade da revelação dada a uns poucos homens sobre a dos demais. E, para os mais ousados, é necessário ultrapassar os limites do cânon, buscar a Palavra de Deus em textos bíblicos e também fora deles, como a Didaqué, por exemplo, ou o Evangelho de Tomé, ou em livros modernos e em profetas dos nossos dias, que estão por aí criticando os abusos das instituições e tentando implantar um Reino onde só Deus é Senhor.

Referência Bibliográfica

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Porto: Via Óptima, 2006.



[1] Trata-se de uma extensa coleção de textos cristãos que traduziam originais gregos para o idioma copta, datados a maioria do século IV E.C., e que foi descoberta no Egito em 1945.