quinta-feira, 25 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO – ANÁLISE DA ESTRUTURA EXTERNA DO TEXTO / O CONTEXTO LITERÁRIO

Até agora, o que vimos se limita ao estudo da perícope, do texto que selecionamos que pode variar de tamanho, de um a dezenas de versículos. Eu disse que não era aconselhável ao estudioso consultar fontes externas para que exercitasse sua percepção, sendo melhor ficar apenas no texto em si. Pois bem, começaremos agora a ampliar nossos horizontes, mas vamos devagar, vamos ampliá-lo a princípio para os textos que rodeiam o nosso.

O contexto literário é a análise do lugar em que nossa perícope se encontra. Perguntamos primeiros sobre o que há antes e depois, no mesmo capítulo e nos que estão em volta. Será que há alguma relação entre os textos? Será que nosso texto é parte de uma composição maior?

Eu, por exemplo, trabalhei no meu mestrado Mateus 6.19-21. São só três versículos. Mas eles fazem parte de uma unidade maior de textos econômicos, que vai de 6.19-34. E não é só, esta unidade é parte de um bloco ainda maior, que é o chamado “Sermão da Montanha” de Mateus, que engloba os capítulos 5 a 7. E depois tive que ver os demais discursos de Mateus, que são cinco. A montagem dos textos não é igual à dos demais evangelhos, e certamente não coincide com a trajetória de Jesus, trata-se de estratégia literária.

Então, temos que pensar que nosso texto foi montado pelo autor/redator de maneira estratégica, e entender porque nosso texto está aqui e não em outro lugar, ou porque ele está junto com este ou aquele texto. Até vale a pena consultar alguma literatura para ver outras propostas de estruturação do livro, mas em geral, suas conclusões pessoais são melhores que as dos outros.

Não desistam, ainda temos cinco passos pela frente. Até a próxima.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO – ANÁLISE DO GÊNERO LITERÁRIO

Tenho notado que muitos exegetas principiantes confundem a análise das formas (assunto da última postagem) com a análise dos gêneros literários. Isso é um erro. Quando falamos de gêneros literários, falamos de padrões estabelecidos no discurso bíblico, de modelos tradicionais que vez ou outra são empregados para se compor um novo texto. Mas nem sempre um texto é construído a partir de formas fixas de um gênero mais antigo, e nestes casos a análise das formas é independente.

Então, os gêneros literários são espécies de convenções da linguagem, que oferecem formatos comuns sob os quais podemos escrever novos textos. Por exemplo, uma parábola é um gênero que possui características específicas, como a linguagem metafórica, a abertura típica, o elemento de comparação geralmente tirado da natureza, um final surpreendente que traz o ensino pretendido por quem a conta... Então, se estamos estudando uma parábola, devemos entender as características de uma parábola para que compreendamos melhor nosso texto. Isso acontecerá muitas vezes, nas profecias, nos textos apocalípticos, nas histórias de casamento, nas aparições de anjos, nas genealogias etc. Em todos estes casos temos que estudar o gênero empregado, e aí sim, este passo exegético pode ser considerado parte da análise das formas.

Repetindo, se não identificamos um gênero literário específico sendo adotado em nosso texto, isso não nos impede de estudar sua forma. Aí as dicas fornecidas no passo anterior continuam sendo as melhores.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO - ANÁLISE DA ESTRUTURA INTERNA DO TEXTO / ANÁLISE DAS FORMAS

O tema de hoje é análise da estrutura interna do texto, ou a análise das formas. Enquanto no item anterior foi dito que a crítica textual é um passo metodológico opcional, agora devemos começar dizendo que este é um passo obrigatório, para o qual eu costume dedicar bastante tempo. Entendo que uma boa tradução e uma boa análise das formas já nos dão uma exegese bem desenvolvida, mas esse método de análise não é nada fácil. Primeiro porque não costumamos ouvir ninguém falar do assunto, e mesmo os livros costumam ser insuficientes para o estudo das formas. Segundo porque cada texto possui uma forma particular, e saber analisar os profetas não significa saber analisar Atos dos Apóstolos, isso pelas enormes diferenças entre os gêneros literários. Então, tentando ser breve, fornecerei aqui definições simples, para uma primeira análise das formas.

Para falar da estrutura interna do texto de maneira simples, eu diria que o principal objetivo deste passo metodológico é identificar as divisões naturais de um texto. Quero dizer que quando escrevemos, seguimos de maneira involuntária. Quando paramos de falar para respirar, criamos no discurso uma lacuna que textualmente é expressa por vírgulas ou pontos; quando mudamos de assunto temos que mudar de parágrafos, ou mesmo de capítulo, e quando incluímos explicações geralmente usamos parênteses. Ou seja, os sinais de acentuação servem para demarcar no texto as subdivisões que já existem em nossa fala.

O problema da Bíblia é que no tempo em que foi escrita não existiam esses sinais, e todas as vírgulas, pontos, parágrafos, capítulos ou versículos, foram inventados posteriormente para facilitar nossa leitura, porém, são interpretações do texto que nem sempre nos ajudam. Nossa tarefa então constituir-se-á dos seguintes momentos: 1) temos que ler o texto novamente separando frase por frase; 2) depois tentamos entender as relações entre cada uma das frases que foram separadas, onde notaremos que há frases que dão continuidade à anterior, frases que só repetem a anterior noutras palavras, e frases que mudam o assunto; 3) entendida a relação entre as frases, podemos dar nome a elas para entender a estrutura do texto, ou seja, onde está sua introdução, sua conclusão, a exposição do tema, as exemplificações etc; 4) finalmente, sugiro que construamos um gráfico que traduza o texto e exponha aos nossos olhos de maneira mais clara cada umas seções que formam esta perícope.

Parece difícil? Mas essa tarefa é muito intuitiva e basta ler o texto com atenção para que a realizemos. Lembre-se que o objetivo é só identificar as divisões naturais da fala e do pensamento humano. Existem sim estruturas textuais elaboradas, pensadas por autores hábeis, construídas como verdadeiros quebra-cabeças, mas como introdução, procuro ajudar os estudantes a encontrar apenas aquelas estruturas básicas do discurso humano, o que é suficiente para analisar a grande maioria dos textos bíblicos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO – NOTA SOBRE CRÍTICA TEXTUAL

Para que não se pense que negligenciei esse passo exegético, vou fazer apenas algumas observações sobre ele justificar a não utilização do mesmo no método que estou propondo.

A Crítica Textual é um passo exegético em que comparamos as principais variantes que existem entre os antigos manuscritos bíblicos existentes. Sabemos que não existem originais dos textos bíblicos, mas cópias de séculos posteriores que hoje nos servem de base para a produção de nossas Bíblias; a questão é: qual dessas cópias é mais fiel ao original que se perdeu?

Por exemplo, vemos que para um determinado texto que estamos estudando existem diferentes manuscritos antigos, mas que apresentam pequenas variações. Empregamos critérios técnicos para escolher a versão que provavelmente mais se aproxima da original, e também podemos explicar os motivos para que os copistas deixaram que tais alterações se introduzissem no texto bíblico.

Como vemos, o trabalho é bastante técnico, exige conhecimento do grego ou hebraico e uma boa introdução ao “aparato crítico”, que é o instrumento que exibe ao exegeta as principais variações de cada palavra da Bíblia e quais manuscritos apresentam cada variante.

Acho que já está explicada a razão pela qual não emprego tal passo em meus cursos de exegese bíblica. Reservo tal passo às análises mais técnicas e profundas, conforme as exigências do meio acadêmico.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO – TRADUÇÃO E COMPARAÇÃO DE TRADUÇÕES

Geralmente os manuais de exegese trabalham a tradução do texto antes da delimitação, mas acho que só posso me debruçar sobre o texto grego ou hebraico quando já sei que texto vou traduzir. Assim, só agora, após ter escolhido o texto, lido-o e decidido onde ele começa e termina, me dedico à tradução.

Traduzir um texto do seu idioma original não é coisa fácil, é um passo necessário àqueles que já estudaram as línguas bíblicas, mas inacessível à maioria das pessoas. Por isso, além da tradução eu incluo a comparação de traduções já feitas como passo exegético que pode ser feito independentemente de uma tradução própria. Esse passo também não significa que as nossas Bíblias foram todas traduzidas de maneira equivocada. Há problemas em todas as traduções, inclusive nas nossas, mas enquanto traduzimos nos aproximamos ainda mais do texto, do significado de suas palavras e frases, e boa parte da interpretação está feita após este árduo trabalho. Assim, mesmo que a tradução que se tem em mãos seja boa, ainda é aconselhável traduzir o texto para que aos poucos tomemos posse de seu conteúdo. É uma tarefa recompensadora.

Enquanto traduzimos, também comparamos nosso trabalho com as demais traduções para o português, e muitas vezes palavras com traduções problemáticas só são resolvidas a partir da sugestão de outras traduções. Sempre indico a leitura de várias Bíblias diferentes nesse passo. De preferência, siga o “Novo Testamento Interlinear” da SBB, e compare também a versão de Almeida Revista e Corrigida, a NVI, e a Bíblia de Jerusalém. Penso que assim temos uma visão geral suficiente do texto que temos em mãos. Em resumo, não confie na primeira versão que ler, mas observe e questione cada variação constatável.

No final desse passo, ainda temos um texto provisório, bem literal e difícil, do tipo que ninguém compraria. Também não temos ainda todas as respostas, o que é natural; toda dúvida de tradução deve ficar registrada em notas de rodapé. Até o final da exegese correções poderão ser feitas nessa tradução a partir do resultado de outros passos exegéticos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO – APROXIMAÇÃO E DELIMITAÇÃO DO TEXTO

Vamos começar nosso curso de exegese falando da aproximação para com o texto. Claro, primeiro é preciso escolher um texto, e depois lê-lo algumas vezes com atenção para que comecemos nossa análise.

Se há uma dica valiosa para o exegeta, é a de que ele não deve ler o texto bíblico juntamente a qualquer tipo de auxílio. Isso quer dizer que você deve ficar só com a Bíblia na mão, e não ler qualquer livro ou mesmo notas de rodapé de Bíblias de estudo. Quando lemos o texto junto com a opinião de outros somos condicionados pelas interpretações alheias e acabamos por não ver o texto com nossos próprios olhos. Assim, a melhor maneira de exercitar nossa percepção é nos achegarmos ao texto tão livres quanto possível de interferências alheias.

Neste momento em que o texto é escolhido, conhecido e lido algumas vezes, também já faço minha prévia delimitação de perícope. Ou seja, já tento descobrir onde meu texto começa e onde ele termina, e forneço por escrito alguns argumentos para isso. Geralmente, mudanças de personagens, de local geográfico, de tempo, de assunto... são dicas de que temos uma nova unidade começando. Obviamente há relação entre as unidades textuais, porém, o objeto de uma análise exegética deve ser uma passagem o mais breve possível, de alguns poucos versículos de preferência. Assim, faço uma escolha consciente, e digo aos meus leitores as razões pelas quais não vou trabalhar um capítulo inteiro, por exemplo.

O importante nesse primeiro momento é conhecer o texto e saber delimitá-lo, de forma que cheguemos a um texto completo, com começo, meio e fim bem demarcados, e que saibamos defender nossa delimitação. Cuidado apenas para não se deixar levar pelas divisões já existentes na Bíblia, que separam-na em capítulos e versículos. Essa delimitação é apenas uma sugestão, e não precisamos segui-la, já que os textos bíblicos em sua composição não possuem tais divisões.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA PASSO A PASSO - INTRODUÇÃO

Primeiro vamos definir o que é exegese bíblica. Defino a exegese como o estudo científico da Bíblia, um apanhado de métodos de interpretação de textos que são aplicados à literatura bíblica a fim de interpretar o texto de maneira moderna, mas sendo fiel ao sentido que o próprio texto pretende comunicar. Diferencio a exegese da hermenêutica, que para alguns, é também sinônimo de interpretação bíblica. Em minhas definições, a exegese interpreta, enquanto que a hermenêutica, como um dos passos exegéticos, trata de ler o conteúdo já alcançado pela exegese atualizando-o, fazendo-o relevante para nossos dias.

Isso tudo será tratado com mais detalhes ao longo das próximas postagens. Quero iniciar hoje um novo desafio, o de enumerar os passos exegéticos que costumo aplicar e fornecer assim um breve curso de exegese e um cronograma para que o leitor também possa aplicar tal metodologia às suas leituras. A idéia é resultado de anos de análises exegéticas e da prática pedagógica, em que me defronto com a dificuldade de ensinar exegese. A experiência destes últimos anos me legou esse cronograma metodológico que está sempre se aperfeiçoando, e convido meus leitores a mais uma vez estudar exegese comigo ao longo de algumas semanas.

Eu poderia simplesmente indicar a leitura de algum dos manuais de exegese já publicados, porém, não sigo rigorosamente nenhum deles, e penso que sou capaz de fornecer as mesmas definições através de palavras menos técnicas, mais acessíveis ao publico em geral, e seguindo uma ordem que me parece mais conveniente. Assim, inicio este curso dizendo que cada postagem trará uma definição bem resumida de um único passo exegético, e o ideal é que o estudante já aplique estes passos a algum texto de sua escolha.

Assim pretendo ensinar o conteúdo, fixar e testar esse cronograma que estou criando, e produzir através do blog um material que facilitará o desenvolvimento das disciplinas relacionadas à interpretação bíblica que tenho dirigido.

AS LIÇÕES DE ANANIAS E SAFIRA (Parte Final)

Para terminar a série de postagens sobre Atos 5.1-11, quero resumir algumas das conclusões e fazer sugestões de aplicação prática, ou seja, quero oferecer ao leitor alguns conceitos ensinados no texto que podem servir de inspiração para a igreja de hoje, assim como alertar sobre a necessidade de enterrar outros no passado.

1. O autor de Atos quer legitimar um projeto igualitário em sua comunidade através da descrição idealizada da história de Jesus e da igreja primitiva. Mas não se pode garantir que os simpatizantes da comunidade de Lucas eram obrigados a abdicar de suas posses em favor dos outros, mas pode-se dizer que esse era o comportamento esperado. Hoje a estratégia de viver com comunhão plena de bens é inviável, mas continua a responsabilidade de se fazer algo coletivamente em favor do igualitarismo. Se há algo que a igreja não deve aceitar, é que em seu meio alguns tenham em demasia enquanto aceitam passivamente que outros tenham necessidade. Faça o que fizer, o alvo da igreja é pôr fim à miséria entre os seus membros.

2. O projeto de Lucas de construir uma comunidade igualitária provavelmente já estava em andamento, porém, ele funcionava com imperfeições. Além de ainda não contar com o apoio de todos, havia internamente o medo de que tal projeto favorecesse pessoas desonestas que queriam apenas participar dos benefícios da comunidade sem contribuir de maneira equivalente. O pecado de Ananias foi punido com rigor, deixando a mensagem de Deus é o protetor da igreja, e não deixa que ninguém aproveite-se da igreja dessa forma. A desonestidade de alguns não é motivo para deixar de contribuir com os projetos sociais da igreja.

3. A narrativa apresenta um Deus violento, que mata o casal sem chance para arrependimentos. Esse Deus assassino é contrário a outras descrições de um Deus de amor e misericórdia que o Novo Testamento nos transmite, motivo pelo qual esse ponto da narrativa deve ser visto como um exagero do autor e não como um fato literal. É um ponto que não devemos destacar para a igreja.

4. Porém, a violência divina pode ser lida como cuidado. O autor não deixa margem para que seu texto fosse usado para legitimar atos violentos. A ameaça é a de que Deus, sabendo de todas as coisas, puniria severamente e pessoalmente todos os que tentassem fraudar o sistema igualitário da comunidade. Pedro e a igreja nunca são autorizados a punir ninguém.

AS LIÇÕES DE ANANIAS E SAFIRA (Parte IV)

Para abordar a próxima peculiaridade literária desta narrativa (que aliás é bem mais problemática que a anterior), vamos primeiro esboçar a estrutura sob a qual foi construída esta narrativa. Observemos no quadro abaixo, como podemos facilmente estruturar o texto distinguindo nele seções que diferenciam-se umas das outras pelas transições entre vozes narrativas e personagens. Em linhas gerais, tal comparação nos leva à conclusão de que temos duas vezes a mesma história sendo contada, uma para Ananias e outra para Safira:

ANANIAS

SAFIRA

Introdução do narrador: chegada à comunidade (v. 1-2)

Introdução do narrador: chegada à comunidade (v. 7)

Intervenção de Pedro: acusação de Ananias (v. 3-4)

Intervenção de Pedro: diálogo com Safira (v.8-9)

Conclusão do narrador: morte, sepultamento e medo coletivo (v. 5-6)

Conclusão do Narrador: morte, sepultamento e medo coletivo (v. 10-11)

Temos em ambas as partes uma fala introdutória do narrador. A introdução à história da morte de Safira pôde ser mais econômica (v. 7), já que o leitor está ciente de que ela estava de acordo com seu marido na venda da propriedade e na tentativa de enganar a comunidade. Depois, na intervenção em primeira pessoa na voz de Pedro, a mesma acusação feita sob Ananias (de que Satanás enchera seu coração e de que ele mentia ao Espírito Santo) parece ser válida para Safira. O autor então enriquece a segunda parte de sua narrativa fazendo da intervenção de Pedro um diálogo (v. 8-9), ainda que Safira só tenha a oportunidade de dizer duas palavras. Por fim o narrador retorna com uma conclusão bem semelhante, mas que como era de se esperar, é um pouco mais detalhada que aquela primeira conclusão provisória.

Não parece que após a morte de Ananias temos uma mera repetição daquilo que já lemos? Nos perguntamos, neste caso, se era realmente necessário dividir a narrativa desta maneira, fazendo Ananias e Safira morrerem separadamente. Não poderiam os dois personagens apresentarem-se e morrerem juntos já que estavam em comum acordo? São as duas partes da narrativa essenciais ou será que a seção sobre Safira não passa de um elemento adicional? E se há realmente dois elementos distintos, um constituinte e outro adicional, porque este segundo foi aí incluso? Para responder a este problema os exegetas levantaram muitas hipóteses, e nós teremos que observar algumas delas, ainda que nenhuma seja definitiva.

Lendo a respeito desta narrativa de Atos encontramos a hipótese de que o texto demonstra que Safira não precisaria morrer junto com seu marido se fosse honesta; cada um deles teria tido a chance de viver, mas ambos preferiram a tentativa de enganar a comunidade para obter vantagens. Essa é a proposta mais conservadora, resumida nas palavras de Werner de Boor: “A princípio, ela (Safira) é apenas cúmplice. Por isso Pedro, ao questioná-la, lhe dá a possibilidade do arrependimento. Por meio dessa pergunta ela poderá se liberar da mentira e dizer a verdade”. Outra proposta é feita por Pablo Richard, a de que o autor tenha tentado diferenciar a morte de Safira, que não atribui às escolhas econômicas como acontece com Ananias; a culpa de Safira estaria em sua submissão a um modelo matrimonial antiquado. Porém, Safira não foi retratada em nenhum momento como uma mulher “escrava” do casamento, e a unicidade das opiniões do casal é descrita como um pressuposto natural. Pessoalmente discordo de ambas as hipóteses.

Uma terceira hipótese foi levantada por Daniel Marguerat, que viu uma relação entre Atos 5.1-11 e a narrativa da queda de Adão e Eva de Gênesis 3. Essa proposta explica a repetição aparentemente desnecessária a partir da influência de um arquétipo do Antigo Testamento, fenômeno comum de intertextualidade bíblica que Robert Alter chama de adoção “cenas padrão”. Sem dúvida a adoção de um modelo narrativo de condenação divina herdado do Antigo Testamento solucionaria o problema da repetição da história com Safira, mas mesmo tomando conhecimento da hipótese de Marguerat, há detalhes na defesa dessa relação entre Gênesis e Atos que ainda precisariam ser revistos. A tentativa de enganar a Deus, a influência de Satanás, a pergunta feita ao casal individualmente para destacar através das respostas a intenção de enganar, e a sequência da narrativa que primeiro apresenta o diálogo do homem e depois o da mulher, são pontos favoráveis à proposta de Marguerat, mas há também pontos desfavoráveis. Ananias e Safira não são membros da comunidade, estão apenas entrando, e ler a cena como um pecado original que acarretará em tristes conseqüências daí por diante parece um exagero. O pecado do casal de Gênesis também não possui qualquer conotação econômica, e aqui em Atos Satanás não é tão presente, e não está entre os “condenados”.

Todas as propostas me parecem excessivamente criativas. Segundo as definições de H. Porter Abbott, estaríamos testemunhando um caso de “overreading” (superleitura), ou nos guiando pelas palavras de Umberto Eco, diríamos que se tratam de “superinterpretações” do texto. Trata-se de casos nada incomuns em que os leitores lêem mais do que deveras está escrito. Procurando preencher as lacunas deixadas pela própria narrativa, o leitor é tentado a criar essas leituras adaptativas, que ao menos para eles solucionam a tensão deixada pelo texto. Neste caso específico, a impressão é que para solucionar o aparente problema os intérpretes forçam uma leitura independente da morte de Safira, porém, isso contraria um princípio bíblico bem conhecido, que é a falta de autonomia dos seus personagens. Observa-se que em geral os personagens bíblicos não existem, pensam ou agem de maneira independente, mas sempre em relação com uma figura central na narrativa. A autonomia de Safira em relação a Ananias na segunda parte da narrativa, além pressupor uma autonomia incomum à personagem, contraria a afirmação feita no início de que eles estavam de acordo naquele projeto.

Então, qual é a minha própria hipótese? Talvez esta seja a mais simples de todas. Defendo que tal duplicidade aparentemente desnecessária foi empregada apenas com a função de dar maior ênfase no ensinamento; a repetição seria apenas a maneira lucana de “grifar” passagens que lhe parecem mais significativas. Há décadas tal característica foi notada por Roland Barthes, que dedicou-se à análise de Atos 10 e 11. Há outros exemplos, como o relato da conversão de Paulo que repete-se três vezes ao longo do livro, gravando na memória do leitor a pergunta “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9.4; 22.7; 26;14). Se esse realmente for um recurso utilizado em Atos para dar ênfase a temas relevantes para o autor, e se este mesmo recurso puder ser aplicado na compreensão da narrativa de Ananias e Safira, então temos que encerrar nossa análise dizendo que o exemplo positivo narrado em 4.36-37 não recebeu o mesmo destaque no livro por se tratar de uma mensagem de pouca importância para seus destinatários, ou porque tal mensagem já está enfatizada noutro ponto. Aqui especificamente o tema em pauta era “como não ingressar na comunidade cristã primitiva”.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

AS LIÇÕES DE ANANIAS E SAFIRA (Parte III)

Depois do fim de semana, voltemos ao estudo sério da Bíblia... Como eu tinha prometido, hoje vou falar do pecado de Ananias e Safira, do crime que lhes conduziu à morte. Essa discussão é mais sócio-histórica, e exigirá mais tempo que as anteriores.

As sociedades dos dias do nascimento do cristianismo eram coletivistas, os membros de um mesmo grupo social partilhavam não apenas todas as suas posses, mas também seu destino, sua religião, seus ideais etc. Em alguns casos, as pessoas substituíam seus clãs familiares originais por outros fictícios, unidos, por exemplo, por vínculos religiosos, filosóficos ou ideais de vida comum. Isso é, por exemplo, o que acontecia no Movimento de Jesus, em que os membros eram convidados a abandonar suas casas, compartilhar seus bens com os pobres do grupo, e aceitar o desafio do itinerantismo.

Na realidade, não sabemos nem mesmo se aquele desprendimento sócio-econômico originário de camponeses sem terra preservou-se quando os apóstolos estabeleceram a comunidade judaico-cristã de Jerusalém, e nem sua aplicabilidade na região gentílica em que Atos foi escrito, mas sabemos pelo texto que Lucas, representante de uma geração mais tardia de cristão, utilizava-se de uma versão idealizada daquela política igualitária para atingir os seus próprios objetivos.

No v. 4 de nosso texto vemos que embora esse fosse o ideal, as pessoas não eram obrigadas a entrar no movimento doando suas posses; mas Ananias pretende ser visto como alguém que doou suas posses. Por quê? Desta maneira, Ananias tornava-se mais um daqueles cristãos completamente dependentes, tendo direito a tudo aquilo que pertencesse ao movimento. Ananias viveria como um daqueles missionários, comendo, morando e vestindo daquilo que os irmãos lhe concedessem; mas sabemos que ele não era tão carente quanto pretendia dizer que era. Ele não só estava mentindo para Deus como diz o texto, ele estava tentando aproveitar-se financeiramente do grupo, atitude não somente condenável, mas até mesmo demonizada ali.

Ananias queria manter uma garantia, por isso guardou parte do valor de sua propriedade; mas ele também queria ser bem recebido no grupo e depois patrocinado como alguém sem qualquer garantia. É como se ele tivesse investindo 50% e quisesse ter direito a 100%. Nas palavras de John Dominic Crossan: “Tiravam da comunidade, como se já não tivessem recursos próprios [...] alegar uma dádiva absoluta era também alegar um direito absoluto...”.

Este é o pecado de Ananias e Safira, não a mentira, mas a intenção de aproveitar-se financeiramente do grupo que lutava pela igualdade. Isso vai nos dar belos ensinamentos quando ao final do estudo falarmos da aplicação prática deste texto, mas antes, ainda usarei outra postagem para questões técnicas.