segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Escolha seu Messias

Nos primeiros anos da era cristã, o evangelho mais conhecido do mundo não era o que narra os eventos da vida de Jesus de Nazaré. O evangelho era também o termo empregado para se referir ao dia do nascimento de Otávio Augusto, imperador de Roma (30 a.C. – 14 d.C.). Há narrativas que contam que este Otávio foi concebido de maneira milagrosa, filho do deus Apolo com Ácia, sua mãe. Ele era, portanto, embora homem, um filho de deus. A data do seu nascimento também tornou-se notória com o advento da boa nova, e a província romana da Ásia Menor passou a celebrar o ano novo em 23 de setembro. Augusto era o Messias dos romanos, e apresentava-se como salvador adornado por grande riqueza enquanto sustentava sua hegemonia através de incomparável poderio militar.

O evangelho de Jesus de Nazaré, não tão original como gostaríamos que fosse, repete de maneira inegável alguns dos principais elementos que constituem as narrativas da vida de Augusto. Neste caso, não queremos discutir a questão da veracidade ou falsidade de uma ou outra narrativa, pois nenhuma delas nos dá condições de julgar sua historicidade, já que ambas, a que gostamos e a que repudiamos, foram igualmente escritas para servir de propaganda literária para pessoas que já eram veneradas. O irlandês estudioso do cristianismo primitivo John Dominic Crossan ressalta com razão, que a escolha de uma dessas narrativas e a afirmação de que a outra é falsa, é um problema ético.

Mas nestas linhas a comparação entre as duas propagandas que chamamos de messiânicas nos serve para destacar outro aspecto. De maneira muito apropriada, os cristãos primitivos fizeram questão de utilizar-se de fatores sócio-econômicos completamente contrários aos da narrativa de Augusto para narrar as ações do seu próprio Messias. Contrariando todas as expectativas humanas, alguns judeus adotaram como Messias um homem que nascera num recipiente utilizado para alimentar os animais, que trabalhara em atividade braçal num pequeno vilarejo da Galiléia, que jamais teve grandes posses e que para piorar, foi condenado por rebelar-se contra o império e crucificado ao lado de bandidos, com os quais os seus algozes certamente o confundiam.
Entretanto, com o tempo a estranheza do Messias de Nazaré foi sendo “corrigida”. A igreja transformou a imagem da manjedoura em esculturas coloridas; a cruz, instrumento de tortura e morte, foi banhada em ouro e tornou-se estandarte de poder; a comunhão de mesa onde os amigos dividiam pão e vinho tornou-se um verdadeiro culto aos mortos; e aquele que não tinha onde reclinar a cabeça passou a ser indiretamente o dono de suntuosas obras arquitetônicas. Enfim, embora sempre se pensou que o Messias dos camponeses venceu o Messias imperial, concluímos que na verdade muitos adoram o divino imperador chamando-o de Jesus.

Procuro não me importar com a opção religiosa que as pessoas fazem, pois considero pura soberba dizer que só eu tenho a “verdade”; mas me incomoda a maneira como essa sutil inversão messiânica produz consequências negativas no cristianismo que nos rodeia. Coerentes com a opção consciente ou inconsciente pelo Messias imperial, os cristãos de hoje acreditam que a paz pode ser feita por meio da espada, que a justiça divina se realizará pelo extermínio violento de todos aqueles que não adoram o seu imperador, crêem que a vinda do reino messiânico significa prosperidade, e que toda autoridade imperial é digna de irrestrita submissão.

Ora, só posso fazer agora o apelo óbvio que continuamente fazemos, para que voltemos a Jesus de Nazaré, o galileu que sempre continuará escandalizando aqueles que o compreendem. Nosso Messias foi um homem pobre, que chamava de bem-aventurados os miseráveis ou indigentes, e nos estimulou a aceitar a simplicidade em nome da igualdade humana.

Como escreveu J. D. Crossan, temos que escolher nosso Messias, seja ele alguém como o antigo imperador Otávio Augusto ou Jesus de Nazaré, cada um com sua própria proposta de salvação. Acrescento que não há nada de errado se você quer confiar no Messias imperial, mas que gostaria que se esse for o caso, que o chame de Augusto ou qualquer outro nome nobre, e não de Jesus. Quem escolhe Jesus, deve comprometer-se a lutar contra o domínio imperial e contra toda desigualdade humana, pois este é o caminho por ele indicado. Agora de maneira consciente, escolha o seu Messias e corra atrás da sua salvação.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

JOGANDO PELO EMPATE

Notei que é com grande intensidade que todos almejam a vitória. Somos treinados desde a infância a desejá-la mais que tudo; estamos acostumados a parabenizar e admirar os vencedores, e sonhamos com a nossa vez. A constatação seguinte é que a vida, em grande medida, não passa de uma constante batalha rumo à vitória. O curso universitário é para muitos apenas uma vereda que precisa ser trilhada para se alcançar essa posição, e não uma preparação para uma carreira profissional competente. Lêem-se cada vez mais livros de auto-ajuda não por serem boas literaturas, mas porque são manuais que prometem nos mostrar caminhos eficazes para nos tornarmos vencedores. E as loterias então, meios eficientes para arrecadar dinheiro de sonhadores. O mesmo pode ser dito até dos relacionamentos amorosos e das religiões, afinal, se não vencemos nessa vida, consolemo-nos com a esperança de que seremos vencedores pelo menos na próxima...

Todavia, há um problema a se considerar neste assunto: O verbo vencer pertence a um contexto próprio, o dos jogos, dos estádios, das competições, e não me parece que tenha sido criado para ser aplicado a todas as áreas da vida como hoje fazemos. Consideremos por exemplo um campeonato de futebol: Vinte equipes disputam um único prêmio. Mesmo que todas elas desfrutem da sensação momentânea de vitória ao derrotarem outra equipe nalguma partida, no final do campeonato há um só vencedor e dezenove perdedores. As chances são poucas, portanto. Isso é pior ainda se pensarmos que não basta vencer o campeonato de futebol se ele não for o da primeira divisão, o que quer dizer que não são apenas dezenove os perdedores, mas centenas de equipes que sonham em um dia conquistarem aquele que é o maior prêmio do futebol. Mas o campeão nacional é também um provável perdedor no cenário internacional, e assim, o funil vai se estreitando até que quase todo mundo perde.

Bem, o que quero dizer é que há uma expectativa de vitória em nós que para a grande maioria da população nunca será satisfeita plenamente. Lutamos para transformar os outros em perdedores, mas parece que sempre há alguém capaz de nos superar. A solução que encontramos para não vivermos decepcionados com nossos fracassos é inventar nossos próprios campeonatos. Se eu não posso vencer nos grandes campeonatos da vida, eu venço um pequeno torneio que inventei em que só eu e outro, que naquela atividade posso superar, competem. Quer exemplos? Se eu não posso ser um grande atleta como aqueles que são exaltados na tv, treino no videogame mesmo e chamo meu vizinho para que eu o detone. Se eu não posso ser líder de grandes equipes em uma multinacional, me satisfaço dando ordens para os dois funcionários da pequena empresa que montei ao me endividar com um empréstimo. Se eu não pude ser pastor de uma grande igreja, alugo o salão do bar que fechou na minha rua e me torno o guia espiritual da minha família e mais meia dúzia de pessoas; e mais, se essa nova grande denominação não der certo, reduzo minhas metas pessoais e luto para ser o grande detentor do direito de estar à frente do importante ministério de vender pipocas na cantina de alguma igreja. Tudo isso é loucura, nós forjamos vitórias insignificantes e lhes damos grande valor, mas no final continuamos perdendo as grandes batalhas. Mas esse é o meio que encontramos para sobreviver bem conosco.

Penso que essa competitividade que nos domina e é tão estimulada traz mais prejuízos que benefícios à sociedade. As pessoas brigam no jogo de futebol do campo mal-acabado do bairro como se aquele jogo fosse a coisa mais importante das suas vidas, se ofendem mutuamente por causa dos videogames, encerram amizades porque alguém roubou seu lugar atrás do importante carrinho de pipocas que contribuía mensalmente com vinte reais para o trabalho social da igreja. Na verdade, os conflitos foram criados pela importância exacerbada que damos a condição do vencedor.

Na antiguidade bíblica, entre a maior parte da população, que era camponesa e em geral produzia apenas o necessário para a própria subsistência, acreditava-se que os bens eram limitados. Isso quer dizer que para eles, agricultores que não tinham tratores ou defesas contra pragas, a natureza só podia produzir o suficiente para que todo ser humano vivesse. Em decorrência desse senso comum, os pobres viam as elites como inimigas, pois se os ricos tinham mais do que realmente precisavam, estavam tirando o que era necessário para outrem. Não se reconhecia méritos na riqueza; o rico não era alguém que venceu na vida e merece admiração, mas alguém que de maneira avarenta tirou o que devia estar nas mãos de outros. Daí lemos na Bíblia que não se deve acumular bens sobre a terra (Mt 6.19-21), pois isso é avareza; lemos que os ricos dificilmente entram no reino de Deus (Lc 18.25), pois promovem a miséria. Não acho que eles estavam completamente certos, nem completamente enganados, mas hoje as coisas são bem diferentes. Geralmente, mesmo entre os pobres, os empresários de sucesso tornam-se grandes celebridades, exemplos que devem ser seguidos. As palestras dos administradores que obtiveram grandes lucros são as mais procuradas (afinal ele deve saber o caminho da vitória), e já não nos perguntamos se eles enriqueceram às custas dos outros. Se os funcionários dos grandes supermercados permanecem estacionados na pobreza exercendo a função de duas pessoas pela metade do salário, não importa, nós nunca nos colocamos no lugar dessas pessoas exploradas, sempre nos imaginamos no topo, no lugar do presidente da empresa. A riqueza agora é uma vitória, e as vitórias são sempre bênçãos de Deus, mesmo quando há muita sonegação de impostos e exploração da pobreza e do alto desemprego do país.

Vejam que coisa interessante escreveu o apóstolo Paulo, que era um judeu helenista habitante dos ambientes citadinos onde se construíam os ginásios de esportes: “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível” (1Co 9.24-25). Por um lado ele reconhece que a competitividade humana, geralmente conflituosa, gira em torno de coisas sem valor. No entanto, Paulo pensava ser alguém que competia por algo que realmente tem valor, uma coroa incorruptível. Ao empregar esta metáfora, ele demonstra que como homem de certa forma elitizado, morador das cidades, que estava entre os poucos alfabetizados do seu tempo, que fora treinado para ser um mestre entre os judeus da diáspora, também estava infectado por essa doença que é a competitividade humana. Até Paulo almejava sempre a vitória, e exortava os ouvintes a só se contentarem com a vitória. A derrota é, ainda hoje, como ir para o inferno.

Vamos piorar as coisas. Jesus também, para falar de coisas transcendentes, usa frases que nos permitem ver como ele e seus seguidores, homens marginalizados que ansiavam por condições de vida mais digna na terra, lamentavam seu presente estado de derrotados sociais. Ele diz que no reino de Deus as coisas seriam diferentes, que os últimos seriam os primeiros (Mc 10-31). Esta inversão de papeis obviamente não resolveria o problema da desigualdade nem mesmo no reino de Deus, mas castigaria os opressores e tornaria aqueles derrotados em vencedores. No texto já citado de Mateus 6.19-21, o estímulo para que acumulemos tesouros no céu também implica a desigualdade entre os habitantes celestiais. Se até no céu alguns possuem tesouros e recebem galardões, as diferenças entre classes permanecerão. Na verdade não creio que no céu exista tais distinções, mas infelizmente até a religião, como fenômeno humano, expressa-se por meio da linguagem humana que sempre está mergulhada na competitividade, que alimentada pela ganância e pelo egoísmo, é o alicerce da desigualdade.

Eu diria que nós precisamos urgentemente aprender que vencer não é essencial. Temos que nos acostumar com a realidade, que nem sempre permite que sejamos os primeiros. Temos que abandonar a ânsia cega pelos primeiros lugares, que transformar nossa visão competitiva de mundo e compreender que todos, tanto os primeiros como os últimos, são filhos de Deus. Gostaria que no lugar da competitividade, vivêssemos pela mutualidade. Não é 1Coríntios 9.24 que devia nos guiar, mas textos como Lucas 3.11, onde João Batista diz: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3.11). Nossa luta real é contra nós mesmos, e temos que nos empenhar para derrotar nossas fraquezas e nos aproximar do nosso criador, sabendo que no final, o primeiro lugar no pódio de Deus cabe todo mundo. Quanto às relações interpessoais, tentemos nos livrar dessa cultura competitiva que nos conduz a tantos conflitos internos e externos, vamos aprender a lutar pelo empate, o único resultado capaz de deixar todos felizes.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A PALAVRA DE DEUS E A INTERMEDIAÇÃO HUMANA

Senti a necessidade de escrever sobre este tema porque novamente me defrontei com a dificuldade que os leitores cristãos sentem quando precisam lidar com a Bíblia como ela realmente é. Quero dizer que quando estou falando sobre os textos bíblicos e por acaso tenho que ser honesto e dizer, por exemplo, que muitas referências geográficas dos textos estão equivocadas, que os dados históricos dos evangelistas não condizem com a verdade, que os detalhes topográficos geralmente não passam de estratégias usadas pelos escritores bíblicos para ilustrar suas narrativas, vejo nos olhares dos meus ouvintes que o que digo causa-lhes consternação. Pior ainda fica quando vemos uma profecia não cumprida, uma contradição irreconciliável entre dois textos sinóticos, ou quando temos de admitir que algum herói bíblico provavelmente não passa de um personagem fictício, que algum texto que incita a violência não devia estar na Bíblia..b. Este choque, com o qual provavelmente terei de lidar durante toda a vida, é um problema que merece nossa imediata atenção.

Talvez este primeiro parágrafo tenha lhe causado náuseas. Talvez estejas me pedindo provas do que digo. Não temos tempo para exemplificar tudo isso aqui, mas se este foi o seu caso, o que tenho a dizer ser-lhe-á muito útil.

Os cristãos evangélicos estão bastante familiarizados com os sermões. Todas as semanas eles ouvem pregadores abrirem as Bíblias e a partir da leitura desenvolverem suas admoestações que visam edificar a vida dos ouvintes. Nesta prática é comum ouvirmos os preletores afirmarem que o que dizem é Palavra de Deus. Os pregadores sabem que o processo para a preparação de um sermão exige boa dose de meditação e trabalho humano; sabem também que ao longo dos anos eles evoluem, e que sempre há sermões pregados que não pregariam outra vez. Mesmo assim, sabendo que o exercício da pregação é uma prática tão humana, o resultado é fundamentado sobre a autoridade divina. A igreja também sabe disso. Todo ouvinte experimentado pode se lembrar de coisas boas e ruins que já ouviu através dos sermões, e nem por isso se questiona a autenticidade dessa Palavra de Deus. O ouvinte sábio está consciente de que deve reter apenas o que for bom, atribuindo as demais coisas à mente do pregador, que é humana e, portanto, propícia aos erros.

Agora, pergunto onde é que está a diferença entre o sermão pregado nas igrejas praticamente todos os dias e a Bíblia? Não são ambas Palavras de Deus? Na verdade, os cristãos sem notar criam diferentes níveis de Palavra de Deus. Há uma Palavra de Deus que é inerrante, imutável, perfeita... esta é a Bíblia; e há também a Palavra de Deus que é intermediada pelos homens, os sermões, que podem ser recebidos com algum senso crítico. A questão é que essa distinção entre as diferentes categorias de Palavras de Deus é totalmente arbitrária, sem critérios, irracional. Todos sabemos que a Bíblia, assim como os sermões, foi criada através da intermediação humana, o que a torna uma criação conjunta de Deus e homens. Não podemos assegurar que a Bíblia, uma verdadeira coleção de sermões de dois milênios de idade, é superior àquilo que hoje se recebe de Deus.

Outra vez a nossa tradição religiosa, nossas heranças católicas e medievais que nos legaram o canôn e muitos outros dogmas, nos enganaram. Elas nos levaram a ignorar a real constituição do livro que chamamos de Palavra de Deus. Deixe-me dizer que tenho dedicado minha vida ao estudo e ensino dos textos bíblicos; que acredito que ela é a Palavra de Deus e que sua mensagem pode transformar o mundo; todavia, aprendi a encarar os fatos. A Bíblia, penso, foi criada por iniciativa divina, mas tal criação foi fortemente influenciada pela intermediação humana pela qual passou. Agora, quando lemos a Bíblia, temos que lê-la como se estivéssemos ouvindo a sermões antigos, procurando separar aquilo que Deus ali colocou para nos guiar daquilo que os homens, fazendo o melhor que podiam, incluíram por conta própria e permissão de Deus.

Gostaria muito, se for o caso, de me sentar ao lado do meu leitor a partir de agora e começar a ler a Bíblia com essa postura sóbria que proponho. Descobriríamos juntos como Deus falou e continua falando através dos homens, com a finalidade de que o buscássemos aqui mesmo, no cotidiano, no convívio com pessoas que têm sido sensíveis ao seu Espírito.

sábado, 25 de abril de 2009

O INTERDITO DA PIRATARIA NA IGREJA CRISTÃ: SUBMISSÃO PASSIVA À OPRESSÃO

Minhas opiniões em relação à pirataria sofreram mudanças radicais nos últimos meses, principalmente sob a influência de um pequeno artigo que li há aproximadamente quatro meses intitulado A Pirataria e o império. O autor do artigo é Jung Mo Sung, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo; seu texto foi publicado pela editora Paulus num livro chamado Cristianismo de Libertação, de 2008. Na verdade, a leitura que fiz foi breve, e nem posso mais lembrar-me das palavras do autor. No entanto, este texto me conduziu a refletir sobre o tema da pirataria durante esses últimos meses, até que hoje não pude deixar de registrar aqui meus atuais pontos de vista. Portanto, de antemão digo ao leitor que dentre as coisas que direi, não sei mais diferenciar com precisão o que é de Jung Mo Sung e o que é realmente meu. Peço desculpas por isso, mas não creio que tal problema invalide aquilo que será dito.
Pra começar, como alguém que sempre escreveu preferencialmente para um público cristão, quero que o leitor saiba ou se lembre de que a pirataria entrou nos últimos anos para a lista dos interditos da igreja. Quero dizer que, a grande onda de pirataria que presenciamos chamou a atenção das igrejas cristãs, que trataram de colocar tal “pecado” em sua já imensa lista de proibições. Assim, a pirataria que é oficialmente um crime, tornou-se também um pecado, já que a igreja institucionalizada diz seguir incondicionalmente a lei.
Por pirataria nos referimos ao ato de copiar, reproduzir ou comercializar sem a autorização dos detentores dos direitos autorais, produtos como livros, cd’s, dvd’s, softwares etc. A lei assegura ao autor de tais obras, pelo menos por um tempo, o direito de comercializar seus produtos e dele obter lucro, mas em nosso país sub-desenvolvido esse direito vem sendo infringido, e é muito natural as pessoas adquirirem cópias desautorizada de filmes, programas de computador, jogos de videogame ou cópias de livros. Aí começa a batalha.
De um lado, os autores e comerciantes dos produtos legalizados dizem que estão sendo roubados. Isso é verdade se levarmos em conta que a lei diz que eles devem ganhar por cada cópia de livro de cd vendida, por cada vez que um filme é exibido num cinema ou uma música tocada no rádio. Mas seja honesto, você não possui nem mesmo uma “xérox” de uma parte de um livro em casa? Difícil alguém escapar dessa culpa, e alguns justificam-se dizendo que um filme não precisa custar tão caro. Concordo que os preços dos produtos que citei acima são bem elevados, muito acima do custo de produção dos mesmos, demonstrando que o interesse financeiro supera muito o desejo de se compartilhar informação e cultura; todavia, quando se trata de produtos supérfluos como uma música ou um filme, nada justifica sua pirataria. Se estes produtos custam muito, eles devem ser encarados como luxos que nem todos podem ter. Nós podemos, sem muito esforço, abrir mão de comprar esses produtos por preços abusivos, e inclusive, quando se trata de música, as melhores são antigas e de domínio público, ou podem ser adquiridas por preços bem menores do que os lançamentos.

Há quem diga que não copia para vender, e acredita que apenas a comercialização de produtos piratas é crime. No entanto, estão enganados. Na verdade, quando compramos um cd, pagamos pelo direito de ouvir suas músicas quantas vezes quisermos e onde quisermos, e não pela mídia em si; podemos copiá-lo para nossos celulares, gravá-los no computador, levar cópias para o carro etc. Entretanto, se você dá para um amigo que não pagou nada uma cópia do mesmo cd: pronto, é um criminoso! Já disse, não há desculpas para que alguém que não pode adquirir filmes, músicas ou jogos originais, volte-se para produtos ilegais. Essa é, porém, apenas uma das categorias de pirataria que quero discutir, a de produtos supérfluos. A segunda categoria diz respeito aos produtos de grifes ou marcas famosas, que envolvem algumas peculiaridades que merecem destaque particular.

A princípio, podemos dizer dessa o mesmo que foi dito a respeito da primeira categoria. Não precisamos de tênis Nike, de bolsas Gucci, nem de carros Ferrari. Essas coisas podem ser substituídas tranquilamente por outras mais simples, feitas para consumidores de baixa renda. No entanto, gostaria de agora ampliar nossa discussão, demonstrando que as empresas, quando se dizem prejudicadas pela pirataria, não são tão inocentes assim.
Dizem que “alma do negócio” é a propaganda, e é verdade. Por meio de muita propaganda os grandes empresários influenciam a sociedade, atacam seus instintos possessivos levando-os a crer que realmente precisam dos produtos que eles fabricam e exibem. O problema é que com a globalização, uma boa propaganda feita para vender um tênis para a classe média dos Estados Unidos, também cria o desejo de consumo em moradores da periferia do mundo. Os jovens sentem vergonha de ir à escola com suas velhas roupas, e a conseqüência natural das boas publicidades no mundo globalizado é a pirataria. Alguns se esforçam para comprar os produtos importados que lhes conferem status na sociedade, deixam de investir numa educação de qualidade, num seguro de vida ou num plano de saúde, coisas bem mais importantes para a subsistência, e pagam juros sobre juros para poder exibir uma etiqueta aos olhos também desejosos dos seus conhecidos. Outros, menos favorecidos, precisam apelar para que não sintam-se rebaixados, e apelam para os produtos piratas que embora não tenham a mesma qualidade, enganam bem.
A conclusão a que chegamos é que o ávido crescimento da pirataria é resultado das maciças campanhas de marketing elaboradas pelas grandes empresas, que ao convencer o mundo de que seus produtos são importantes, acabam convencendo também um público que não era seu alvo principal, gente que não pode pagar pelo que oferecem, mas que também estão hipnotizados pelos encantos do consumismo. Por fim, testemunha-se o crescimento epidêmico da pirataria e tais empresários ainda acusam os pobres de roubo. Claro, a lei está do lados deles, e queriam ganhar mais, queriam que deixássemos de comer para pagar-lhes absurdos R$ 500,00 num par de calçados. Olhando as coisas por esse ângulo, vemos que os consumidores desses produtos piratas não são tão criminosos quanto dizem, e que os empresários, não são tão vítimas quanto querem nos fazer acreditar. A pirataria é, na verdade, conseqüências natural da política que adotaram, um fenômeno sociológico que nas circunstâncias em que vivemos é difícil de evitar.
Esse debate ainda torna-se mais áspero quando nos voltamos para uma terceira categoria de produtos pirateados, os softwares. Sabemos que os países de primeiro mundo são os grandes produtores desses produtos, e empresas como a Microsoft controlam o mercado internacional garantindo um grande volume de vendas de seus produtos em todo o mundo. Como sempre, esses produtos não são vendidos a preços acessíveis para a maior parte da população brasileira, e por isso os mais talentosos profissionais dos ramos tecnológicos atuam produzindo meios de piratear esses produtos de ponta.

Nesse caso a questão é bastante séria. Imaginemos como seria se realmente um país como o Brasil não tivesse recorrido à pirataria. Qual seria nosso conhecimento de informática hoje? Quantos teriam acesso à internet? Quantos de nós poderiam usufruir dos seus benefícios educacionais? E como teria se dado o crescimento tecnológico da nação nas últimas décadas? Com isso, podemos ver que, não fosse pela pirataria, nosso país estaria ainda mais defasado culturalmente em relação às nações de primeiro mundo. Na verdade, o domínio sobre essa tecnologia, além de enriquecer seus produtores, resulta numa espécie de controle científico sobre os demais, e caso eventualmente apareça um brasileiro dedicado e talentoso, que pôde pagar por um bom curso e tornou-se um excelente profissional capaz de produzir tecnologia nacional de nível similar à estrangeira, não pense que ele ajudará sua nação crescer e competir com os países de primeiro mundo; antes, ele receberá uma proposta irrecusável para trabalhar nos Estados Unidos, no Japão ou na Europa, e acabará oferecendo seu talento àqueles que determinam, pelo controle que também possuem das leis de mercado, até onde nós podemos evoluir.

Diante deste cenário, volto a dizer que o discurso anti-pirataria que normalmente ouvimos nos meios de comunicação é um discurso produzido não pelas vítimas, mas pelos opressores. O mundo diz que eles podem publicar um livro ao custo de R$ 5,00 e vender por R 45,00, limitando o progresso cultural nas periferias, mas eu, se não puder pagar pelo livro, mereço permanecer ignorante. Apesar de alguns exageros meus, para muita gente, a pirataria de softwares foi um caminho essencial para o seu desenvolvimento cultural.

Agora eu peço que o leitor mesmo julgue qual deve ser a posição da igreja cristã diante dessa realidade. Deve a igreja manter-se inculpável diante da lei, repetindo a propaganda capitalista, ou deve, como fez Jesus, seu suposto fundador, confrontar o Estado quando as regras estabelecidas servem para favorecer impérios e oprimir as pessoas simples? Será que as questões que levantamos aqui foram consideradas quando as igrejas criaram interditos que proíbem qualquer tipo de pirataria? Acho que não. É por conseqüência de atitudes irrefletidas como essas que editoras estrangeiras publicam Bíblias, cujo conteúdo é de domínio público, que foram traduzidas para o português há séculos usando linguagens que nem entendemos mais, e as vendem para nós por mais de R$ 100,00 reais.

Bem, deixe-me dizer antes de terminar, para que eu não seja preso pelo que escrevi, que não estou apoiando ou incentivando essa prática “criminosa” que é a pirataria. Se você estivesse aqui diante de mim, para olhar diretamente no meu olho de vidro e apertar minha mão de gancho, saberia que eu nunca apoiaria tal coisa.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O MOVIMENTO DE JESUS: UM PROJETO DE LIBERTAÇÃO E JUSTIÇA SOCIAL

Introdução:

O Movimento de Jesus não foi o início de uma nova religião ou uma iniciativa para a implantação do cristianismo no mundo, mas um movimento que nasceu dentro do judaísmo do primeiro século da era cristã com motivações não apenas religiosas, mas também sociais e políticas. Ele era constituído principalmente por pessoas marginalizadas que simpatizavam com o líder carismático Jesus de Nazaré e seu discurso, e inicialmente esteve restrito à região da Galiléia, nos arredores da margem norte do Lago de Genesaré, onde aparentemente residia a maioria dos primeiros seguidores de Jesus. Tinha como objetivos 1) motivar uma transformação interna e pacífica na sociedade através da busca pelo ideal que era exprimido através da metáfora do reino de Deus, identificada como centro do discurso de Jesus; e também 2) a transformação dos indivíduos envolvidos no movimento, que eram chamados ao arrependimento e seguimento, ou numa linguagem posteriormente adotada pelo cristianismo, à conversão. Foi apenas depois da morte de Jesus e do surgimento dos polêmicos relatos de sua ressurreição, que se dá início a um novo movimento judaico que logo tornou-se essencialmente religioso e dedicou-se a anunciar Jesus como o Messias, o libertador enviado por Deus que era esperado pelos judeus. Essa nova seita posteriormente seria forçada pelas suas desavenças teológicas a separar-se do judaísmo, dando origem, contra a vontade de muitos, a uma nova religião chamada cristianismo.

Nesse breve artigo, analisaremos algumas das mais marcantes características constatáveis no Movimento de Jesus que têm sido esquecidas mesmo pelos mais assíduos leitores da Bíblia. Nos basearemos durante nosso estudo, naquilo que nos dizem os textos dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e os estudiosos do Novo Testamento em geral. Procuraremos demonstrar com poucas páginas, que o Movimento de Jesus foi um ajuntamento de pessoas da classe oprimida buscando libertar sua sociedade através de discursos e ações indiretas de protesto. Um movimento que nasce, como tantos outros movimentos populares de protesto, como evidência do fracasso das instituições que deveriam civilizar o homem. O Movimento de Jesus, se não foi a mais bem sucedida de todas as tentativas já feitas nessa luta infindável pela liberdade, foi provavelmente a mais famosa.


1 – O Movimento de Jesus como inimigo das instituições coercitivas:

Para nortear nossa análise do Movimento de Jesus, seguiremos algumas reflexões de Sigmund Freud, registradas principalmente em “O Futuro de uma Ilusão”, de 1927. Freud demonstra por meio de argumentos convincentes, que a sociedade cria instituições com fim de regular as relações humanas controlando os seus instintos. Freud afirma que por natureza, os homens desejam possuir os bens alheios, reagir com violência às ameaças externas, dominar uns aos outros; ou seja, seus instintos são destrutivos e precisam ser controlados. É exatamente nossa capacidade de controlar os instintos que nos diferencia dos animais e nos faz civilizados. Os traços mais marcantes dessa civilização são vistos em instituições nitidamente coercitivas como o Estado, a religião e a família, todos opressores das vontades humanas instintuais, mas necessários para que sobrevivamos sem o medo de que a qualquer momento alguém nos mate para roubar nossos bens e esposa. O problema ganha novos contornos quando dentro de tais instituições, outros homens se deixam dominar pelos seus instintos egoístas e usam seu poder para oprimir. Nesses casos nada incomuns, em vez de proteger a humanidade das ações irracionais e destrutivas, as instituições tornam-se elas mesmas os inimigos da civilização, fazendo dos mais fracos seus objetos de exploração.

Sob este ângulo, o Movimento de Jesus pode ser descrito como uma iniciativa nascida do desejo de mudança por parte de um povo oprimido, cansado da exploração excessiva imposta pelas instituições coercitivas do seu tempo. Os três principais instrumentos coercitivos (Estado, religião e família) são todos desafiados na pregação de Jesus, que foi desde sempre, contrária à classe regente que embora comportasse algo em torno de 1 a 2% da população somente, oprimia todos os demais através de confiscos, desapropriações, impostos ou exigências tributárias, e a coerção para a prestação de serviços. Nas seções seguintes nos dedicaremos à tarefa de exemplificar brevemente como Jesus e sua mensagem atacaram as instituições coercitivas do seu tempo.

1.1– O Movimento de Jesus contra o Império Romano:

A primeira dessas instituições coercitivas, o Estado, personificado nos dias de Jesus pelo Império Romano, é indiretamente compreendido nos evangelhos sinóticos como uma instituição destinada à ruína. Isso está implícito no anúncio da irrupção do reino de Deus, que é claramente a figura empregada para descrever um tempo futuro em que os poderes seriam tomados por Deus. A esperança de Jesus era a implantação de uma teocracia, e o reino é, neste sentido, uma afronta ao poder Imperial. Era, em outras palavras, um convite para que os ouvintes agradassem mais a Deus que ao imperador, já que em breve aquele, e não este, reinaria. Não por coincidência, o anúncio do reino de Deus vinha acompanhado da tentativa de se inaugurar uma espécie de sociedade alternativa, regida por leis próprias condizentes com as leis de Deus. Evidentemente não foi por acaso que tais expectativas acabaram por levar o líder dessa sociedade à morte.

Todavia, a mensagem de Jesus só veio mesmo a ser vista como um problema real pelo império quando Jesus é identificado como Messias, título que é uma mescla dos papéis de rei e de portador transcendente de salvação. Difícil dizer se o próprio Jesus se designava Messias ou se este título é uma atribuição posterior à sua morte; mais difícil ainda é saber se Jesus reivindicava o poder real quando se dizia Messias, pois como crítico do império, é provável que a posição de rei não lhe fosse desejável. Mas é fácil saber que aos olhos de boa parte dos seus ouvintes e discípulos, Jesus comparava-se a um rei, o que vê-se através de vários exemplos dos evangelhos sinóticos. Em Mc 2.25s, quando Jesus responde aos opositores que o julgam por não guardar a lei do sábado, se compara ao rei Davi, que como rei, viola as leis do Templo sem que por isso seja considerado um transgressor rejeitado pela tradição. Em Mt 21.1-5, quando ele pede que seus discípulos lhes tragam um jumentinho para que sobre ele entre em Jerusalém, Jesus cita um texto do profeta Isaías dizendo: “Eis aí te vem o teu Rei...” (v. 5). A própria entrada triunfal, se não é uma forma de reivindicar honrarias reais, é ao menos uma imitação sarcástica que zombava do imperador e do rei cliente Herodes Antipas, que costumavam preparar chegadas pomposas nas cidades que visitavam. Esses exemplos já nos mostram como é provável que desde cedo Jesus tenha sido interpretado como um pretendente real.

Colocado no papel de um pretendente a soberano, Jesus torna-se um criminoso perigoso, um rebelde. Foi assim que Jesus foi acusado diante de Pilatos (Mc 15.2). Para o governador, não tinha qualquer importância a ameaça de Jesus ao templo, suas atitudes proféticas ou mesmo se alguns diziam que ele era o Filho de Deus, somente como pretendente a Messias e rei ele podia ser incriminado. Por isso, na cruz em que foi pregado estava escrita a razão pela qual Jesus foi assassinado; ele era o “Rei dos Judeus” (Mt 27.37).

Em resumo, o poder romano foi considerado abusivo por Jesus, e sua reação a ele foi a criação de um movimento que acreditava que tempos mais justos estavam por vir, e tinha como meta a proclamação desse desejado reino de Deus. Pena que tais ações logo foram identificadas como crimes contra o Império, e esse admirável revolucionário, assassinado ainda no início do seu movimento.

1.2 – O Movimento de Jesus contra o Templo Herodiano:

A história do Templo de Jerusalém é longa e complexa demais para que a apresentemos aqui, todavia, apresentar exemplos em que Jesus revela-se como um opositor à religião oficial é tarefa a que podemos nos deter. O ataque de Jesus ao Templo é mais direto do que seu ataque ao império; ele é o alvo da sua ida até Jerusalém, pouco antes de ser morto.

O edifício grandioso do Templo que teoricamente deveria servir aos interesses religiosos do povo tornara-se, nos dias de Jesus, uma grande organização burocrática que dependia de grande arrecadação para que se mantivesse. Sacrifícios, dízimos, ofertas e impostos eram cobrados sob o pretexto de assegurar a bênção de Deus sobre a nação, mas acabavam sendo usados mesmo para manter a luxuosa forma de vida da elite sacerdotal. Além do mais, essa elite que já impunha um pesado encargo econômico ao povo para manter o status adquirido, cuidavam também dos interesses de Roma dentro de Jerusalém, tornando-se odiosos aos olhos de muitos. Jesus estava entre esses nativos que aborreciam a dominação romana e voltava-se agora contra a aristocracia sacerdotal.

Temos nos evangelhos algumas passagens que fazem referência ao modo como Jesus combateu a opressão imposta pelo Templo de Jerusalém e seus administradores. Um primeiro exemplo temos em Mt 17.24-27, que combate a obrigatoriedade de se pagar o imposto do Templo. No texto um cobrador do imposto do Templo vem a Pedro, que procura Jesus. Então, Jesus argumenta sobre o direito de não pagar impostos, mesmo que na passagem, provavelmente alterada pelo trabalho redacional do judeu-cristão Mateus, o imposto acaba sendo pago a fim de evitar escândalos. Em Mc 11.15-19 encontramos um segundo bom exemplo. Nele lemos uma perícope que normalmente é intitulada como “A purificação do Templo”. Para o conceituado estudioso do Novo Testamento John Dominic Crossan, esse título é um equívoco de interpretação, visto que não havia nada errado na prática comercial realizada no Templo que o fizesse impuro; o ato de Jesus consistia então, num ato de destruição simbólica, num protesto que anunciava a necessidade de destruição de algo que não atende às expectativas para as quais existe.

Acima dissemos que diante de Pilatos Jesus foi acusado como um pretendente real; diante do Sinédrio, porém, Jesus foi acusado por suas ameaças ao Templo. Até mesmo as comunidades judaico-cristãs das quais nasceram os livros do Novo Testamento constrangia-se com a ameaça que o Jesus histórico fizera ao Templo, no entanto, há evidências de que tais ameaças tenham sido reais.

1.3 – O Movimento de Jesus contra a Família:

O cristianismo como religião preservou em sua história a luta pela preservação de um modelo tradicional de família. Porém, de maneira surpreendente para grande parte dos cristãos, os documentos conhecidos que nos informam sobre o Movimento de Jesus nos revelam que Jesus trabalhou na direção oposta; em vez de ensinar a preservação da família, Jesus lutou contra ela, como se ela fosse um instrumento coercitivo tão opressor quanto o Estado e a religião institucionalizada. Como se explica tal contradição?

Jung Mo Sung, em seu livro “Cristianismo de Libertação: espiritualidade e luta social”, fala sobre o papel da família dentro da luta pela humanização das pessoas. Ele declara que a família, quando presa a um modelo absolutista e conservador, pode tornar-se um instrumento de coerção por não atender às dinâmicas formas de relacionamento humano: Suas palavras são: “A absolutização de determinado modelo de família, assim como a de qualquer modelo de igreja ou de sociedade, sempre acaba produzindo formas de opressão e dominação porque a riqueza humana e das relações sociais é sempre maior e mais complexa do que qualquer modelo.”
Aceitamos tal explicação como a hipótese mais provável para se entender a motivação anti-família típica do Movimento de Jesus. Supomos que para Jesus, o modelo de família que sua sociedade impunha àqueles que queriam manter seu status era inadequado, o que pode se tornar um sinônimo de opressão dependendo da intensidade com que tal imposição se dá. Diante dos ideais de Jesus à frente do seu movimento, o casamento, a criação de filhos e as responsabilidades familiares que a primogenitura lhes apresentava eram limitações que deveriam ser evitadas. Em pouco tempo, formas diversas de combate ao modelo familiar tradicional foram desenvolvidos para que as normas que regulamentavam o comportamento das pessoas dentro do movimento pudessem atender tanto ás necessidades pessoais, quanto aquelas que estavam inseparavelmente ligadas à mensagem que lhes unia.

Crossan diz, ao comentar Mateus 10.34-36, texto em que Jesus diz que veio para trazer divisão às famílias e não paz, que tais convulsões causadas por Jesus dentro da família têm origem no seu projeto de quebrar os padrões hierárquicos tradicionais em sua sociedade. Neste sentido, o ataque de Jesus à família assemelha-se ao seu ataque às demais instituições coercitivas do seu tempo, mas aqui, o poder dos seus opositores não pôde tirar-lhe a vida. Parece-nos também provável que uma das principais razões para a luta de Jesus contra o padrão familiar vigente estava na estratégia que adotara para a propagação de sua mensagem pelas aldeias da Galiléia. Desde o princípio da sua atividade, Jesus deixou o convívio familiar para tornar-se um pregador itinerante, e tudo indica que seus principais discípulos foram aqueles que o ouviram ensinar na Galiléia e aceitaram segui-lo segundo este mesmo modo de vida migrante (Mc 1.16ss). Trabalho, casa e família tinham que ficar para trás ou ao menos em segundo plano se alguém pretendesse viver como Jesus e ser um de seus discípulos.

Alguns conhecidos textos dos evangelhos tornam-se significativos mediante essa compreensão. Este é o caso de Mateus 8.19-22, em que o autor do evangelho une um texto em que Jesus fala da dificuldade da vida itinerante a outro que trata do rigor de Jesus quanto à necessidade de se deixar para trás a família. Para Jesus, era necessário amar a Deus acima de todas as coisas (Mc 12.33), seus seguidores tinham que amá-lo e à sua missão mais do que à família (Mc 10.37).

Mesmo naqueles dias, é provável que tal rigor no convite aos discípulos do círculo mais próximo tenha causado polêmicas e até encontrado sérias oposições entre as famílias divididas pelo movimento. Sabemos que nem todos aqueles que simpatizaram com a mensagem de Jesus estiveram também dispostos a deixar tudo para trás, e a multiplicidade de formas de cristianismo incipientes que são constatáveis em diferentes regiões da Palestina e fora dela no primeiro século, talvez tenha parte de sua origem nesses simpatizantes sedentários que adaptaram a expectativa do reino de Deus às suas próprias formas de vida, nas aldeias em que trabalhavam seus campos e criavam seus filhos.

Sobre os opositores do chamamento radical que Jesus fazia para o ingresso num ministério itinerante, Gerd Theissen escreveu: “Os adeptos do movimento de Jesus se defenderam da acusação de uma ética alheia à família. Em parte se justificaram dizendo que remodelaram o conceito de família: verdadeiros parentes não seriam os membros natos da família, mas aqueles que ouvem e cumprem a palavra de Deus”.

O movimento então, para amenizar os conflitos que sua política anti-família podia trazer, instrui seus membros a aceitarem o convívio no grupo como uma substituição à família co-sanguínea. A comunhão de bens e a solidariedade entre os membros eram características indispensáveis mediante essa proposta; convenciam os membros de que sua opção pelo grupo em vez da família era boa, conforme se lê em Marcos 10.29-30. Eles encontraram na mutualidade um meio de fugir às opressões que o estado e a religião lhes impunha, e que a família tradicional ensinava e apoiava. No grupo, eles podiam viver sob novas leis, normas controladoras dos instintos criadas por eles mesmos, que consideravam boas e fiéis à vontade de Deus; além disso, podiam permanecer mais unidos no projeto de anunciar a intervenção apocalíptica de Deus sobre o mundo, a fim de prepará-lo para a chegada do novo tempo.

A rebelião contra a família é sem dúvida a mais polêmica das três principais formas de protesto político-social constatáveis no Movimento de Jesus, e também a mais difícil de entender, especialmente se consideramos que Jesus e seus seguidores eram parte de uma sociedade coletivista, onde não se pensava em sucesso pessoal independente do grupo de origem. A integridade da família, a segurança e a honra do grupo como um todo eram, em geral, prioridades. O status era medido não pelas realizações profissionais ou pelas conquistas de uma pessoa, mas pela sua aceitação dentro do seu grupo e pela sua contribuição ao mesmo. Não se deve estranhar que em sociedade coletivistas como essas os indivíduos não hesitem diante da necessidade dar a vida pelo grupo. Natural sob esta ótica é a rivalidade de Jesus e seus seguidores da Galiléia para com os romanos, ou mesmo para com os membros judeus da aristocracia sacerdotal. Estes eram entendidos como grupos distintos; isso era suficiente para que fossem rivais. Entretanto, a insubmissão de Jesus aos padrões familiares é um problema que vai além do que nós, pela mera leitura dos textos dos evangelhos, podemos assimilar.

Muitos são ainda os exemplos e os detalhes que se referem à maneira radical de vida adotada por Jesus e seus principais seguidores que mereceriam nossas considerações. Por hora, o que foi dito é suficiente para que entendamos que a família era para Jesus uma instituição opressora, e que foi a primeira a ser negada quando Jesus dá início ao seu movimento de protesto contra os abusos sofridos pelo seu povo, os camponeses da Galiléia.

Conclusões

Protestar contra instituições e sistemas-sociais opressores sempre foi uma característica essencial do cristianismo, ou pelo menos deveria ser, visto que ele nasceu de um movimento cujos principais objetivos sempre foram mais sociais e políticos que religiosos. Mas sem Jesus, o movimento foi gradualmente desviando-se do seu objetivo inicial, e após a atuação de homens influentes como Paulo, que adaptaram o cristianismo para que fosse recebido por culturas não judaicas, a nova religião trocou suas preocupações com o mundo pelas preocupações com o céu, como relata Rubem Alves em Religião e Repressão, uma obra em que analisa o protestantismo brasileiro: “O protestantismo [...] nunca articulou, espontaneamente, uma ética social. O seu problema é outro. Preocupa-se com a salvação da alma. Por isso a questão da transformação do mundo sempre lhe pareceu um desvio perigoso. A sua ética é individual e não social”. Ou como escreveu Jürgen Moltmann em sua célebre obra Teologia da Esperança: “... o cristianismo, em sua forma social, aceitou a herança da antiga religião de Estado e se instalou como ‘coroa da sociedade’, como ‘meio santificador’, perdendo assim sua força inquietadora e crítica, proveniente da esperança escatológica”.

No fim das contas, o cristianismo distanciou-se tanto das suas origens como movimento de protesto contra instituições opressivas que institucionalizou-se, tomou para si os deveres de Estado, e transformou-se, por incrível que pareça, numa das instituições mais opressoras (se não a mais opressora) que a história humana já conheceu. Ao que tudo indica, Jesus de Nazaré, se revivesse séculos depois, lutaria acirradamente contra esta religião criada em seu nome, e acabaria, muito provavelmente, sendo novamente assassinado por ela.

Talvez, se o cristianismo de hoje retrocedesse com mais freqüência ao Jesus histórico, se voltasse até suas origens como movimento de renovação social, pudesse concretizar o sonho que norteou o trabalho de revolucionários, religiosos e cientistas, como Freud ou Jesus; o sonho por construir um mundo melhor, mais humano ou civilizado.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

SALMO 126 - CÂNTICO DE TRANSPARÊNCIA E FÉ

Não sei dizer desde quando identifico-me de maneira especial com o Salmo 126, mas já faz anos que tenho-o como meu salmo preferido, e releio-o eventualmente sempre cheio de emoção pelo que seus dizeres me transmitem. Só agora resolvi escrever algumas das minhas meditações sobre este salmo para que outros também possam com ele se deleitar, então fiz uma tradução própria do salmo a partir da Bíblia Hebraica, e é com base nela que vou expor aquilo que tanto me fascina neste salmo, procurando fugir tanto quanto possível do linguajar técnico a que nos submetemos nas academias, que em vez de tornar o conteúdo claro, obscurece-o para aqueles que não convivem entre os doutores.

Comecemos então pelo texto. Antes de lê-lo, saiba o leitor que eu procurei mantê-lo bem literal, ou seja, tão fiel ao original quanto possível. Talvez tal fidelidade torne o texto um pouco mais difícil, e com certeza o fará parcialmente diferente do que habitualmente encontramos nas Bíblias em língua portuguesa, todavia, essa opção mostrar-se-á de grande valor para nossa interpretação.

SALMO 126

1. Canto de subida (de peregrinação)

Quando Javé fez Sião voltar do cativeiro foi como se nós (estivéssemos) sonhando.

2. Então, nossa boca foi cheia de riso, e nossa língua de júbilo.
Então diziam nas nações: Grandes coisas Javé (está) para fazer com estes.

3. Grandes coisas Javé (estava) para fazer conosco; ficamos alegres.

4. Faz voltar nossa sorte Javé, como as correntes do Negueb.

5. Os que vão semeando com lágrimas, com júbilo colherão.

6. (Quem) vai andando e chorando levando o saco (de sementes), certamente virá com gritos de júbilo trazendo seus feixes.


1 – Parecia uma Grande Bênção
A primeira parte do Salmo 126 está, na minha opinião, entre os versículos 1 e 3. Assim, nos dedicaremos primeiro a esta seção individualmente.
O salmo começa com um título: “Canto de subida”, que é significativo para que entendamos o propósito do autor. O mesmo título pode ser encontrado em todos os salmos de 120 a 134, que formam um conjunto de textos que possuem algumas características peculiares. Cantos de subida ou de peregrinação eram nada mais que canções compostas especialmente para serem entoadas durante a peregrinação dos judeus até Jerusalém, onde celebravam suas festas religiosas. Como era de se esperar, estes salmos falam, dentre outras coisas, do Templo em si e da alegria de celebrar na casa de Deus (Sl 122.1; 132.7-9), no monte santo do Senhor (Sl 121.1; 125,1-2); falam de como Deus respondia às orações e de como é de Jerusalém que eles acreditavam que ele se manifestava a seu povo (Sl 128.5; 132,13-14; 134). Vindos de toda parte, os judeus faziam soar em todo o país nos dias de festas os seus cânticos de louvor, essas melodias hoje desconhecidas. Elas preparavam os corações para os esperados momentos de alegria, comunhão e culto. A peregrinação de famílias inteiras até Jerusalém por causa da sua fé é, portanto, o que devemos ter em mente enquanto lemos o salmo.

Após o título, o primeiro versículo completa a tarefa de nos informar sobre o momento histórico em que este salmo foi escrito. Ele diz que os cativos já haviam voltado para Sião. Se temos um salmo de peregrinação, sabemos que existia um Templo religioso em atividade, e se os cativos já voltaram, estamos no período pós-exílico. Este Templo tão mencionado nos salmos de subida era o Templo edificado pelo povo conforme nos informa o livro de Neemias. Ele não era tão belo e portentoso quanto o Templo de Salomão, destruído quando os Babilônios conduziram Judá ao exílio, mas era eficiente em seus serviços. Isso, porque na maior parte do tempo a religião oficial de Israel era controlada pelo Estado, pelo rei, e servia-lhe mais como instrumento de dominação e extorsão do que como instrumento de adoração e intercessão em favor do povo. Agora, após o exílio, não havia um poder estatal estruturado capaz de controlar a religião oficial desta forma, o que dava ao povo total controle sobre as atividades desse novo e humilde Templo.

Na Bíblia, a diferença entre o Templo pré-exílico e o Templo pós-exílico é facilmente identificável nos livros dos profetas. Os primeiros grandes profetas como Elias e Isaías, viveram antes do exílio e acirradamente acusavam os reis e condenavam a religião nacional, anunciando que Deus acabaria por destruir essas monarquias e seus edifícios religiosos que patrocinavam a opressão do povo. Todavia, profetas pós-exílicos como Malaquias possuíam opiniões absolutamente diferentes; eles tinham diante de si um novo Templo, construído e administrado pelo próprio povo. Por isso o apoiavam e incentivavam a fidelidade do povo ao mesmo.

Pois bem, o exílio na Babilônia ocorreu entre 597/587 e 539 a.C., e a inauguração do novo Templo se deu 515 a.C. Nossos salmos de subida são então, provavelmente produções do final do sexto e do quinto séculos a.C. No primeiro versículo de Salmo 126 o autor se refere à volta do exílio em 539 a.C., e fala como se fora testemunha ocular dos acontecimentos, como se estivesse entre os cativos que viajaram de volta à já esquecida terra natal. Ele diz que para aqueles que voltavam, isso era como um sonho. Sim, eles não podiam acreditar que de uma hora para outra, o império babilônico fora derrotado pelos persas, que decidiram repatriar aquele povo. Eles não podiam dar outro motivo para isso, era um milagre, obra de Javé.

No versículo 2 o autor dá ênfase ao sentimento de euforia que sentiram através de uma tradicional estrutura de paralelismo. Ele repete a mesma frase com sinônimos, para expressar enfaticamente e com o estilo poético mais elegante da sua língua, como ele e seus patrícios estavam felizes quando ganharam a liberdade

Na segunda parte do versículo 2, o leitor que conhece bem o Salmo 126 deve ter notado que minha tradução difere das traduções comumente encontradas nas Bíblias. Eu escrevi: “Grandes coisas Javé (está) para fazer com estes”. Primeiro, o verbo entre parênteses está subentendido, ou seja, não existe no texto hebraico. Mas isso não é raridade, ocorre com muita freqüência e cabe ao tradutor e interprete escolher o tempo verbal de acordo com o restante do texto. Deixei o verbo no presente, embora isso faça a minha tradução diferente das demais, porque logo a seguir no texto hebraico temos um verbo no infinitivo com uma preposição (la‘asot), cuja tradução mais óbvia é “para fazer”. Portanto, a opção dos tradutores normalmente é alterar o texto hebraico para chegar à “fez”, eu todavia, preferi manter o infinitivo e tive de acrescentar o verbo estar para dar sentido ao texto. Mas este não é o único motivo que me levou a traduzir o texto assim, no entanto, deixemos este outro motivo para outro momento.

No versículo 3, o mesmo problema com a tradução se repete. Aqui, porém, o verbo estar que está subentendido foi deixado no pretérito: “Grandes coisas Javé (estava) para fazer conosco”. O verbo fazer outra vez foi mantido no infinitivo seguindo aos mesmos critérios adotados no versículo anterior, diferentemente do que ocorre na versão “Almeida Revista e Atualizada” (RA), que traduz de maneiras diversas o verbo que é idêntico nos versículos 2 e 3 no texto hebraico.

Deixando agora de lado esse problema de tradução e voltando a falar do conteúdo, temos que o autor do salmo, nesta primeira parte, traz à lembrança dos adoradores que peregrinavam para Jerusalém a marcante volta do exílio, e descreve com grande beleza o sentimento de alegria que os libertos experimentaram naqueles dias. Entretanto, segundo a minha tradução, o autor descreve a alegria de um povo que estava a caminho, ansiosos por vislumbrar (pela primeira vez para a grande maioria) a terra que seus pais foram forçados a abandonar. Segundo o autor, tanto os ex-exilados que caminhavam como também os estrangeiros que viam tal peregrinação ficavam admirados, e tinham a expectativa de que Deus faria coisas grandes por aquele povo. Aquela libertação era, aos seus olhos, apenas o começo de um grande milagre. Por isso, na minha opinião, a melhor maneira de traduzir o texto é dizendo que Javé estava para fazer grandes coisas por eles. O salmista não queria afirmar que Javé fez tais coisas, mas expressar a esperança que eles tinham naquele momento com base na libertação; ao menos é assim que eu entendo este texto.

2 – A Oração de um Decepcionado

O salmo muda radicalmente no versículo 4. O autor parece fazer uma breve oração, um pedido que pode, à primeira vista, parecer completamente contraditório com o que fora dito nos versículos anteriores. Ele pede para que Deus os restaure, para que faça mudar a sorte deles. Isso quer dizer, que após a libertação e a expectativa de que agora Deus faria grandes coisas em favor deles, houve uma decepção, o que motiva a oração do salmista peregrino.

Essa interpretação é facilmente confirmada se voltarmos por alguns momentos nossos olhares para a história de Israel. Jerusalém e o Templo de Salomão foram deixados em ruínas quando os babilônios os dominaram e levaram toda a elite do povo cativa. A visão daqueles felizes libertos quando chegavam em Jerusalém deve ter sido desanimadora. Não havia ali nada que lembrasse a glória da cidade que seus pais lhes contavam. Na verdade, a Babilônia passou a ser um habitat muito mais saudável para eles, que ao longo dos anos, já haviam ali se estabelecido. Sabe-se que foi grande o número de judeus que optou por manter suas vidas na antiga cidade de exílio em lugar de se mudar e trabalhar na reconstrução da terra dos seus antepassados.

Agora é possível compreender porque deixamos nossa tradução tão diferente das demais. O salmista, se foi realmente uma testemunha ocular dos fatos que descreve, se esteve realmente entre os que voltaram do exílio, passou por um período de grande euforia até que finalmente chegou à desolada cidade de Jerusalém. Ali ele via que na realidade, o sonho não era tão bonito assim, e deve ter sido difícil encontrar ânimo para começar a lenta e difícil restauração. Esse homem chocado com a realidade dificilmente faria uma afirmação como aquela do versículo 2, onde até nas nações dizia-se que Deus fizera grandes coisas por eles. Não, Deus estava para fazer, mas ainda não fizera. A libertação era um milagre para eles, mas era apenas o começo de algo muito bom que provavelmente ainda estava por vir.

Justifica-se assim a oração feita no versículo 4. Decepcionado com a realidade, o salmista que antes cantava jubiloso agora clama por restauração. Só mesmo Deus para transformar aquele grande monte de entulho em algo digno novamente. Ele emprega as correntes do Negueb poeticamente, deseja que assim como os leitos d’agua normalmente secos tornam a se encher após as chuvas de inverno, que a sorte volte aos filhos de Israel trazendo vida.

Se estamos enganados quando dizemos que o autor não afirma que Deus fez coisas grandes por eles, mas que estava para fazer, como se explica a oração do verso 4? Por que se pede restauração se o Deus já fizera coisas grandiosas? Alguns intérpretes, baseando-se nas traduções mais populares em língua portuguesa, pensam que a sorte a ser restaurada como as correntes do Negueb se refere a um número maior de exilados que o autor desejava que voltassem para a terra natal, assim como o primeiro grupo. Contudo, mesmo que este fosse um desejo do autor após a reconstrução do Templo, o anseio por ver sua cidade reedificada, sua casa de pé, seu campo cultivável, era sem dúvida a sua prioridade. Este era, acredito, o motivo da oração das primeiras gerações de judeus que voltaram do exílio. Mesmo após a reinauguração do Templo, não podemos duvidar de que o país ainda devia apresentar um cenário de desolação, que faz jus à oração que lemos. Levaria ainda um século para que a Palestina e seus habitantes desfrutassem de certa ordem, reestruturada politicamente sob a hegemonia dos administradores do Templo.

3 – Uma Promessa que Alimenta a fé

A última parte do Salmo 126 também está estruturada em forma de paralelismo. Os dois versículos praticamente dizem uma só coisa, que quem sai ao campo triste para semear, não deixa de colher com alegria. Ele fala do que era bem peculiar àquele povo que vivia do trabalho nos campos; todos sabiam que quem semeia espera colher do que plantou. Mas, com base no que acima o salmista já dissera, entendemos que o ato de semear aqui é empregado de forma analógica, e serve como uma promessa que tem por finalidade dar ânimo aos peregrinos do humilde Templo.

Mediante a própria decepção com a cidade desolada, o salmista escreve para que seus compatriotas creiam que trabalhar na reconstrução do país é um esforço que será recompensado. Era o momento de chorar, de derramar lágrimas pela cidade em ruínas, mas sem deixar de trabalhar, de semear. Ao comparar esse ato de fé e sacrifício a ao ato de semear, o autor expressava que eles deveria também crer que todo suor derramado seria recompensado; a colheita era garantida. Em outras palavras, o direito de desfrutar da liberdade na própria pátria, de cultivar a própria terra e dela viver, a oportunidade de criar os filhos entre sua parentela, sob a própria cultura, adorando o Deus dos seus antepassados da maneira como sempre acharam correto, e não mais ter de curvar-se aos deuses ou aos opressores estrangeiros, era o que eles teriam após concluir o árduo trabalho de restauração do país.

Enfim, o salmista aqui canta para dar força aos seus companheiros de peregrinação. Ele lembra da sua libertação, da sua alegria passageira, da sua surpresa desanimadora diante do cenário de morte deixado pelos babilônios décadas atrás nas cidades dos seus pais. Então, provavelmente em pleno processo de restauração do país, ele vai à casa de Deus acompanhado dos seus familiares. Dentre seus muitos motivos de oração, está o desejo de que sua terra volte finalmente a ser digna como lhe contavam os ancestrais. Pede a Javé que lhes ajude na missão de transformar os entulhos deixados pelas batalhas em uma nação livre e próspera. E acredita, apesar de todas as dificuldades que se apresentam, que no fim eles finalmente encheriam suas bocas com um júbilo que não precisa terminar.

4 – Conclusão

O Salmo 126, visto pelo ângulo proposto nos ensina, assim como a maioria dos salmos bíblicos, mais sobre os homens em si do que sobre Deus. Os salmistas usavam suas canções como um meio de abrir o coração diante de Deus, e expressavam seus sentimentos com uma sinceridade que noutras partes da Bíblia não é comum. Eles deixam transparecer o ódio, a angústia, a fraqueza, a esperança e também a falta dela. Os salmos são exemplos de orações que merecem ser seguidos, pois neles, a linguagem poética ou o formalismo não impedem a honestidade, a transparência diante do Deus a quem cultuavam.

Neste salmo, vimos que o salmista pensava que Deus estava fazendo um grande milagre. Mas o milagre, se houve, não era como ele esperava. A vida não foi para ele tão bela como gostaria. Na verdade, a história mostra que o Templo a que ele dedicava-se voltou a ser instrumento de opressão dos mais fracos, e usurpou milhares de camponeses até que novamente acabou em ruínas; a história mostra que outros impérios voltaram a dominar violentamente aquele povo, e com crueldade que provavelmente o próprio salmista não conhecera nem na Babilônia; a história nos mostra que outros males importados como a lepra e a escravidão sob os moldes greco-romanos tornar-se-iam maldições ainda mais difíceis de suportar do que a visão das cidades arruinadas. Ainda assim, cabe a nós seguir o exemplo do salmista. Não conhecemos os dias que virão, não sabemos se realmente as opressões que nos são impostas cessarão neste mundo, se haverá um tempo em que gozaremos de justiça, paz e prosperidade; mas o que faremos se não semearmos nossas lágrimas com a fé de que colheremos com alegria? O que seria de nós se não cultuássemos nosso Deus e se não tivéssemos nele alguém a quem clamar?

Nossas canções, nossas orações e nossos textos, poderiam ser muito mais úteis se neles deixarmos transparecer nossa humanidade. Por que temos medo de falar quando os milagres não são tão bons quanto pensávamos? Por que calamos quando a realidade contradiz o discurso tradicional da fé cristã, como por exemplo, quando a vida no casamento é uma infelicidade ou quando nossos instintos nos levam a desejar a vingança e até mesmo a violência? Por que não reconhecemos que na verdade sabemos pouco ou mesmo nada de Deus e sua vontade? Se os autores “inspirados” da Bíblia assim fizeram com tanta honestidade, como eu poderia pensar que sei das coisas e tentar parecer perfeito?


Anderson de Oliveira Lima – 9 de Janeiro de 2009

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

POR UM CRISTIANISMO MADURO

Por meio do evangelho de João, a igreja cristã de todas as épocas adotou uma analogia para se referir à adesão de novos membros. Diz-se que todos devem nascer de novo (Jo 3.1ss). Seguindo na tradicional analogia, podemos dizer que estes novos cristãos que são como crianças em Cristo, devem alimentar-se de uma espécie de leite espiritual (1Pe 2.2) e desejar crescer até que possam ingerir os alimentos sólidos (Hb 5.13-14), que são conhecimentos aprofundados sobre a Palavra de Deus, seus oráculos e práxis. O alimento sólido é coisa pertinente aos mestres e não às crianças espirituais (Hb 5.12). Desta análise superficial da tradição bíblica, podemos inferir que é princípio básico no cristianismo que todo aquele que nasce na fé deve crescer, desenvolver-se naturalmente e chegar à maturidade.

Aqui, não queremos aprofundarmo-nos no estudo desta tradição e nem tampouco questionar a tradição que parece-nos saudável para o crente, já que afasta-o da ignorância e das superstições místicas que sempre estiveram enraizadas no seio das religiões; interessa-nos levantar um problema: Embora o desenvolvimento do crente faça parte da tradição cristã e faça parte do discurso eclesial, nossa intuição nos leva a perguntar se tal tradição ainda é levada a sério, ou se já dissolvera-se para boa parte dos segmentos cristãos de nossos dias.

Voltando a usar a linguagem analógica da Bíblia, diríamos que hoje os alimentos disponíveis são bem melhores que os do passado; são comercializados em níveis nunca vistos, permitindo o acesso de pessoas antes isoladas, são enriquecidos com mais vitaminas, proporcionando-nos mais vigor físico e a maior expectativa de vida que a humanidade já conheceu. Entretanto, há quem prefira que os cristãos não cresçam, preferem mantê-los subnutridos a ver o seu desenvolvimento. Refiro-me à resistência que há entre alguns grupos cristãos em relação ao desenvolvimento intelectual dos membros das igrejas, ao medo de que aquele que antes parecia tão crente, se afaste da fé quando adquire conhecimento. Esta atitude contrária ao desenvolvimento do cristão é anti-bíblica e anti-natural.

Lembre-se da sua infância. Quando somos crianças, as fábulas são encantadoras, e de alguma forma pensamos que carruagens podem voar de verdade nalgum lugar deste mundo ou de outro. Nos contos de fadas homens podem ser imortais e vencer seus inimigos com super-poderes, e para nossa lógica infantil, não há conflitos entre estas fantasias e a realidade. Com o passar do tempo, deixamos de acreditar nas fábulas e essas coisas passam a ser bobagens. Talvez tu não lembres, mas essa transição certamente trouxe consigo confusões, talvez crises, mas as superaste como era de se esperar e finalmente chegaste a ser um adulto. Quando um crente estuda teologia ou cursa uma faculdade, passa pela mesma crise. Aprendendo a pensar de maneira mais científica, questiona e em muitos casos deixa de acreditar nas fábulas que seus pais religiosos lhe contavam para que sonhasse. Aos poucos o encanto da religião se quebra, enquanto que a realidade se faz conhecer.

Antes da maturidade, as crianças pensam que os adultos são chatos, que não entendem a beleza dos seus contos de fadas, que desaprenderam como é bom brincar. Os crentes também julgam os teólogos e os cientistas desta maneira, pois questionam histórias que são tão lindas e aceitas por tanta gente há tanto tempo... No entanto, sabemos quem está procedendo de maneira infantil. Duvido que um adulto queira voltar à inocência da infância. Ele sabe que nunca seria independente se não aprendesse a ver o mundo como ele realmente é; sabe que precisa amadurecer, sair de debaixo da saia dos pais e tornar-se independente. Mas nas igrejas alguns acham que é melhor fugir à crise e continuar crendo nas fábulas, vivendo eternamente como um garoto de cinco anos. Esse tipo de crente credita que é melhor ser imaturo, limitado, dependente de outrem para que dê cada passo. Importa-lhe a alegria, a satisfação que as brincadeiras lhes proporcionam, e não o mundo exterior, as outras pessoas, a verdade.

Pra sermos sinceros todos nós, em nossa primeira década de vida, pensávamos que era melhor sermos crianças para sempre, mas inevitavelmente seguimos o desenrolar determinado pelo nosso criador e crescemos. O problema levantado, em suma, é este: quando se trata de desenvolvimento espiritual os cristãos estão agindo contra a natureza, e deixando-se enganar, abrem mão da maturidade pela eterna alegria de ser infantil. Sabemos que o caminho da maturidade cristã, aquele caminho espinhoso de conflitos internos que os nossos jovens atravessam enquanto cursam ingressam em seminários e faculdades, é doloroso e até perigoso. Perde-se por algum tempo, todo o encanto do existir; desmoronam-se os sonhos, compreende-se que super-heróis não existem, que somos finitos... Ainda assim, querer que um crente não encare este caminho de amadurecimento é interromper o ciclo natural da sua vida religiosa. Esse medo de se desviar em decorrência da aquisição do conhecimento é um dos maiores inimigos da fé cristã dos nossos dias; é uma luta ridícula para manter a fé num nível elementar e manipulável, que acabará por torná-la cada vez menos relevante perante a sociedade que esta religião supostamente pretende salvar.

Karl Marx é um pensador conhecido pela crítica que fez à religião, chamando-a de ópio do povo. Ele escreveu: “A crítica da religião destruiu as ilusões do homem para que ele pense, aja, construa a sua realidade como homem sem ilusões chegado à idade da razão...”. Era de se esperar que a igreja repudiasse esse pensador. No entanto, nós, cristãos de hoje, podemos concordar com Marx em certa medida, certos de que se nossa fé possui fundamentos, não precisa temer as críticas, e que caso as críticas destruam certos fundamentos da nossa fé, estes não estavam firmados em verdades, sendo a sua queda um benefício para nosso crescimento. Acreditamos que a religião do século XXI não precisa ser infantil, estruturada sobre mitos e ilusões, e que é possível unir a religião ao pensamento científico. Esta deve ser a missão do estudioso da teologia e das ciências das religiões que pretende contribuir com o cristianismo, e a primeira tarefa desses novos cristãos será acabar com a idéia de que o crente saudável é o crente desnutrido, sem alimento sólido, sem instrução.

É necessário, para a sobrevivência sadia da igreja cristã deste século, que ela se deixe transformar. A liderança cristã, em vez de manter as pessoas na ignorância crendo em mitos que estão em completa desarmonia com o pensamento do homem atual, deveria desejar que todo seguidor de Jesus progredisse em sua caminhada cristã até orgulhosamente falar como o apóstolo Paulo: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1Co 13.11).

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

MINHA HISTÓRIA CONTADA POR OUTROS

Sou um grande admirador do compositor brasileiro Chico Buarque, e uma das suas canções que mais me fascina dentre tantas outras geniais de sua autoria, é “Futuros Amantes”. Nela, Chico faz conjeturas sobre um possível futuro em que a cidade do Rio de Janeiro já não é habitada, mas está submersa e é então um rico campo de pesquisa científica sobre uma civilização do passado. Dentre os achados dos escafandristas que recolhem objetos nas casas há muito desabitadas, está um “amor” não vivido, que após longo tempo escondido, talvez num fundo de armário qualquer, é redescoberto para que possa, quiçá, ser finalmente desfrutado por outros amantes. Sem dúvida, esta é uma canção gerada sob uma singular inspiração, e prova da grande capacidade do seu compositor.

Mas, interpretar a belíssima canção de Chico Buarque não é o propósito deste meu texto. Acontece que motivado pela beleza da canção de Chico, passei desapercebidamente a fazer também minhas próprias conjeturas. Peço licença ao leitor para que daqui por diante, passe a expô-las.

Em meu devaneio, o lugar futuramente explorado por arqueólogos não é o Rio de Janeiro, mas a igreja da qual fiz parte por anos, localizada na cidade de São Paulo. Imaginei-a como uma preciosa descoberta arqueológica que finalmente vinha à luz depois de séculos, por que não dizer milênios. Pensei nos pesquisadores, que cuidadosamente escavariam e catalogariam cada um dos diversos objetos encontrados no interior da grande e obsoleta construção. Máquinas completamente antiquadas, instrumentos musicais que ninguém mais saberá manusear, cadeiras em abundância... estes são exemplos dos objetos que a princípio serão encontrados. Depois, automóveis surgirão da terra, material vastamente encontrado por onde quer que no futuro se escave. Finalmente, os exploradores dessa estranha civilização chegarão à parte mais rica do sítio arqueológico, a parte do prédio onde anteriormente funcionava a secretaria da igreja, a administração, a tesouraria, salas de reuniões... Mesas e gavetas tornar-se-ão, nos meses subseqüentes, objetos preciosos para a pesquisa sobre os antigos habitantes dessa terra; cada caneta ou fragmento de papel será enviado para cuidadosa análise de especialistas, que por sua vez, descobrirão, dentre os nomes mais proeminentes daquela estranha e subdesenvolvida comunidade, o meu.

Os arqueólogos não vão demorar a encontrar diversos livros, todos encadernados modestamente, atribuídos à minha autoria. Enquanto este material é encaminhado para cuidadosa análise, novos textos meus submergirão de debaixo das pedras para falar aos nossos descendentes. Dezenas de pequenos artigos sobre diversos assuntos, alguns maiores falando sobre doutrina cristã antiga, outros sobre a Bíblia, sobre a comunidade etc. Imagine comigo que agora o número de estudiosos chamados à análise desses textos e de nossa antiga cultura cresce à medida que o número de objetos também cresce. A esta altura, algumas universidades de países mais desenvolvidos já estarão pesquisando sobre os primeiros relatórios desta pesquisa, e meu nome será então citado nas revistas científicas e nas teses dos doutores. Honras póstumas não são tão bem vidas, mas... De repente, nova festa entre os pesquisadores: equipamentos moderníssimos que nem concebemos agora conseguirão acessar informações de nossos extintos computadores. Ah, então boa parte da minha obra literária deste período será completamente conhecida.

Acho que não haverá muito mais o que se escavar ali. Anos se seguirão na tentativa de reconstruir as estruturas sociais, as hierarquias eclesiais, a religião do lugar escavado. Os primeiros resultados começam a revelar o funcionamento da instituição religiosa, e por meio dos meus escritos, nascem as primeiras definições sobre aquela comunidade de fé. Contudo, intriga-me imaginar que, como a maior parte do material escrito encontrado pelos arqueólogos são meus textos, eles tentarão reconstruir em particular a minha vida, e com a ajuda de psicólogos tentarão definir minha personalidade. Escreverão que eu era um homem profundamente religioso, que dava extremo valor à doutrina da igreja, mas que por não estar preso às tradições, teria contribuído significativamente para o desenvolvimento da teologia da comunidade com minha pesquisa e idéias. Diriam, provavelmente, que eu revolucionara a forma de administração da igreja, crescendo pouco a pouco em autoridade até tornar-me ou o líder da comunidade, ou um dos líderes mais proeminentes dela. Julgariam com tudo isso que minha atividade ali durara mais de dez anos, e até aqui não teriam acertado em praticamente nada. Claro que eles não saberiam disso tão cedo, e felizes dariam seguimento às pesquisas.

Em determinado momento, surgiria uma grande barreira para a compreensão dos futuros estudiosos sobre a minha vida: notarão que minha atividade sofreu uma interrupção abrupta, e o motivo de tal parada tornar-se-á a uma das buscas mais intrigantes das ciências daquele tempo. Os meios de comunicação, semana após semana, divulgarão os novos resultados da pesquisa. Uma das primeiras hipóteses, penso eu, diria que eu teria saído da igreja para desenvolver meu trabalho nos Estados Unidos. Uma oportunidade dessas lhes pareceria natural depois de tão bem sucedido serviço local. Obviamente, como não encontrarão nenhuma evidência de que eu tenha continuado trabalho semelhante em qualquer outro lugar do mundo, esta hipótese nunca seria provada, e aos poucos cairia em descrédito. Uma segunda hipótese me apresentará como rebelde, homem agressivo com as palavras que ao invés de revolucionar a vida da igreja local, trouxe divisão ao grupo social que freqüentava. Conseqüentemente, eu teria sido banido da comunidade após caloroso debate numa assembléia solene. Neste estágio, alguns me comparariam a mártires, fazendo-me mais um herói injustiçado da fé cristã. Esta segunda hipótese, todavia, também não permanecerá por muito tempo, já que nenhum sinal de divisão ou conflito na igreja será encontrado que evidencie esta suposta saída conturbada; a própria permanência dos meus textos tratará de desmascarar a idéia de um conflito radical. Enfim, sem mais alternativas, os estudiosos mais conceituados do mundo acadêmico chegarão a um consenso e dirão que eu certamente desapareci da igreja porque morri no ano de 2008.

Claro que se o avanço das pesquisas correr desta maneira os estudiosos não terão acertado muita coisa a meu respeito. Talvez o “amor” que Chico Buarque trouxe de volta à vida seja mais fácil de reviver do que uma alma, que embora nos escombros da história pareça ser apenas mais “uma”, é mais um universo inesgotável ao mais hábil explorador.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

O que mais te chama a atenção na Bíblia? Para mim, além de seu valor religiosos, a Bíblia é também um livro admirável tanto como literatura como documento histórico. Diferente da maior parte dos outros “tesouros” literários da antiguidade, que foram escritos por pessoas privilegiadas, que tiveram boa educação, dinheiro, ou que viveram em cortes e escreviam para exaltar o nome dos seus reis e imperadores, a Bíblia é um livro do povo. Para mim isso é algo fantástico!

Com algumas exceções, os textos que foram reunidos e hoje compõem o livro que regulamenta a nossa fé são obras de pobres e oprimidos. Seus autores, os israelitas, o desenvolveram enquanto viviam ameaças de dominação estrangeira, quando eram cativos na Babilônia, quando tinham que lutar para manter o direito de viver na sua terra e plantar o seu alimento, enquanto suavam no trabalho agrário para superar a terra seca e ainda tinham que pagar tributos abusivos que os reis investiam em luxo e guerra. A Bíblia é, portanto, a voz do povo. Suas reivindicações, seus sonhos, sua fé, não é nada mais que a expressão do homem simples, pai de família que trabalhava na roça de sol a sol e da dona de casa que criava os filhos regulando a comida para que não faltasse no dia seguinte. Esse é o livro dos pobres, o povo de Deus.

Você já notou como as pessoas mais simples são pessoas de fé? Por isso a Bíblia é tão rica em transmitir-nos mensagens que estimulam a fé. Mas há na Bíblia algumas coisas que se repetem freqüentemente, expressões espontâneas dos desejos profundos daquele povo humilde que nós curiosamente ignoramos ao ler o texto sagrado. Me refiro ao clamor pela terra e pelo pão. Esse era o grande sonho daquela gente cheia de fé.

Veja como eles davam importâncias às promessas de Deus quando se referiam a terra: Em Gn 12 Abrão recebe a promessa de que receberia uma grande terra, fértil para produzir muito e alimentar toda a sua grande descendência. A esperança no Êxodo não é somente a libertação, mas também a terra fértil que mana leite e mel (Êx 3.8). O profeta Miquéias anuncia o direito à propriedade nos seguintes termos: “... assentar-se-á cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante” (Mq 4.4). Jesus, como bom galileu sem grandes posses, também dava valor a terra e dizia que quando a justiça de Deus se manifestasse, todos teriam sua própria terra. Ele disse em Mt 5.4: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”. E como último exemplo, quero lembrar-lhes que a esperança para o fim dos tempos, para a vida após a morte, também inclui a terra, mas desta vez, um novo céu e uma nova terra compatíveis com nossa condição de seres transformados e imortais (Ap 21.1).

Vimos que o sonho da casa própria não é coisa dos tempos modernos, e que este é também o desejo de Deus para cada um de nós. Todavia, para os israelitas a terra não tinha apenas o propósito de servir de lar e abrigo, era também o meio de sustento da maioria das famílias. A terra era para ser cultivada, era o emprego dos homens, a escola das crianças, o lar das mulheres. O salário que eles esperavam não compraria TV’s de plasma, apenas alimentaria a família e os seus animais, era para o pão de cada dia.

O direito ao pão também percorre as páginas da Bíblia inteira. Os relatos do Êxodo sobre o maná ensinavam os israelitas de todas as gerações a confiar em Deus para a provisão do pão, mostrava-lhes que tudo vem dos céus, de Deus; e também ensinava-lhes a não acumular, a não desejar ter sobras e enriquecer, pois o resultado dessa ganância exacerbada é a falta na mesa do próximo e a punição do Senhor para os gananciosos (Êx 16). Na igreja primitiva, lemos que os irmãos não tinham falta de nada pois partiam o pão entre eles suprindo a necessidade uns dos outros (At 2.42). Finalmente, a mais famosa oração já feita diz: “... o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11).

Enfim, a Bíblia é mesmo o livro do povo, que fala das suas necessidades e da sua fé; conseqüentemente, é até contraditório se dizer cristão e negar ao próximo o pão de cada dia, o direito da casa própria, a oportunidade de trabalho. Deus ama os pobres, e a igreja deveria apresentar as mesmas preocupações, lutar pelos mesmos interesses. Como irmãos, deveríamos partir o pão, não acumular para que não se apodreça diante de nós aquilo que falta na mesa do povo de Deus. Lutar pela terra e pelo pão para todos é viver em conformidade com os princípios bíblicos.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

BREVE HISTÓRIA DA PROFECIA BÍBLICA

É uma tarefa difícil falar sobre as origens da profecia, já que, ao contrário do que se possa pensar, a atividade profética não se limita à antiga nação israelita e nem tampouco à Bíblia. A abrangência do tema “profecia” torna necessário que os pesquisadores da área busquem pistas em toda a história das religiões, tarefa esta que excede os limites deste breve trabalho. Assim sendo, comecemos intitulando o presente trabalho de “breve história da profecia bíblica”, para que somente busquemos nas páginas das Escrituras bíblicas as informações necessárias para descrever a evolução da profecia em Israel no período de tempo em que os livros do Antigo e Novo Testamentos foram escritos.
Os profetas propriamente ditos, aqueles que caracterizaram a porção da Bíblia que nós chamamos de “profetas”, atuaram principalmente a partir do século VIII a.C. Antes deles, personagens do Antigo Testamento que posteriormente foram associados à atividade profética eram conhecidos como “videntes”. Esse parece ser o caso, por exemplo, do influente Samuel. Esses videntes do Antigo Testamento já apresentavam características que seriam preservadas pela história da profecia bíblica como os anúncios públicos dos oráculos recebidos em momentos de transe. Servindo como intermediários entre os homens e as divindades, os videntes cobravam por suas consultas, e alguns deles chegavam a ganhar fama, sendo procurados por pessoas de regiões distantes.
O vidente Samuel marca um período de transição bastante significativo para a história da profecia bíblica, pois coincide com sua atuação a instituição da monarquia em Israel. Essa mudança política influenciaria definitivamente a religião nacional e seus porta-vozes. Personagens populares desse novo momento na história da profecia bíblica são Elias e Eliseu, chamados por alguns biblistas de “profetas de ação”, pois diferentemente dos profetas que atuaram a partir do século VIII a.C., não tiveram sua mensagem preservada em forma escrita a não ser séculos depois da sua morte. A história desses profetas foi preservada parcialmente através da tradição oral que testemunhava de uma geração à outra suas milagrosas atuações que de maneira “lúdica”, falavam ao povo comum e às lideranças políticas e religiosas sobre as vontades de Deus. Vale à pena lembrar que no cânon hebraico, os livros que registram os atos de Samuel, Elias e Eliseu não são considerados históricos como normalmente são classificados hoje, mas livros proféticos “pré-literários”.

Fortemente marcados pela realidade opressora imposta pela administração de uma monarquia (que tirava do povo comum dependente quase que completamente da agricultura ou da criação de animais os recursos para suprir sua abastada corte e seu exército), o discurso profético passa a ser cada vez mais uma forte crítica contra reis e outras autoridades. Os profetas de Israel rejeitam o sistema monárquico como uma maneira idólatra de conduzir a nação, e vêem como ideal o retorno ao sistema tribal em que o próprio Javé os governava e livrava dos inimigos. Esta crítica ao Estado se tornaria a principal característica da profecia bíblica, muito mais presente, inclusive, que as previsões futuristas que hoje são tão destacadas por aqueles que falam a respeito dos livros proféticos da Bíblia.

A atividade profética então cresce na mesma proporção em que as antigas tradições e leis religiosas que preservavam a família e a subsistência do camponês se deterioram. Profetas como Amós, Oséias e Isaías nascem de um período de crise intensa, que resultaria na destruição do país pelas mãos dos assírios (reino do norte) e babilônios (reino do sul). A mensagem desses profetas pré-exílicos girava em torno da idolatria dos reis, da injustiça social exacerbada, da violência contra os fracos e da desintegração da religião dos antepassados. A vitória dos impérios inimigos seria interpretada pelos profetas como conseqüência desses pecados, e não da superioridade militar evidente e dos interesses políticos das nações. Os profetas que observando as circunstâncias predisseram a destruição ganham prestígio, parte de suas palavras são registradas por escrito e com o passar do tempo tornam-se sagradas dentre o povo.

Durante o exílio a atividade profética não cessou, como testemunham os livros de Jeremias e Ezequiel, por exemplo. Agora, como já não há Templo, rei e exército, as ameaças proféticas voltam para a orgulhosa Babilônia. O discurso profético mostra-se versátil nesse período e vemos que além de apontar erros e ameaçar estruturas de poder, os profetas também transmitem esperança para os fracos. A fé em Javé que antes estivera estreitamente ligada à rotina do Templo em Jerusalém é revista, e são os profetas quem transmitem aos exilados ou miseráveis deixados na devastada terra natal a esperança de que um dia sua nação seria vingada e restaurada por um Deus justo, que não os abandonara.

Não se pode afirmar que todas as previsões proféticas cumpriram-se com fidelidade, mas o fim do exílio com a ascensão do império medo-persa, a reconstrução de Jerusalém e do seu Templo, são fatos que consolidavam cada vez mais a tradição profética em Israel. No período pós-exílico, profetas como Miquéias, 3Isaías e Malaquias atuaram principalmente como motivadores, incentivando o povo na reconstrução não apenas das cidades, muralhas e templos, mas também da religião nacional. A promessa de Miquéias de que a glória do segundo templo seria maior do que a do primeiro e a exortação de Malaquias para que o povo obedecesse às ordens de entregar os dízimos no Templo de Jerusalém, mostram o comprometimento dos profetas do período pós-exílicos com a reconstrução de um sistema que seus antecessores condenaram.

A primeira parte de Isaías 24, que é um texto seguramente pós-exílico, pode ser usada aqui para demonstrar uma nova transição pela qual a profecia passava; estamos nos referindo à origem do apocalipsismo. Até então, os profetas limitavam suas críticas quase sempre à própria nação, e suas expectativas de futuro diziam mais respeito às revoluções no campo político. Além disso, os profetas propriamente ditos transmitiam suas mensagens oralmente, razão pela qual os livros proféticos são obras das penas dos seguidores dos profetas. O apocalipsismo ampliou os horizontes da profecia, e anunciou o julgamento de Javé tanto a Israel quanto às demais nações, o fim catastrófico que alcançaria tanto justos quanto ímpios. Outra característica do apocalipsismo bíblico é que os apocalípticos não eram oradores, mas escritores, e em suas obras passam a fazer uso abundante de imagens e linguagem simbólica que muitas vezes era incompreensível para aquele que não pertenciam ao mesmo grupo. Há um número muito grande obras apocalípticas ainda preservadas ao menos parcialmente em cópias que nos permitem saber que o período inter-testamentário foi onde a literatura apocalíptica mais floresceu. No Antigo Testamento, o livro de Daniel é o melhor exemplo de literatura apocalíptica.

Chegando aos textos do Novo Testamento é possível identificar facilmente os traços de toda essa longa história do profetismo em Israel. Temos em João Batista, por exemplo, alguém que vinculava-se à tradição profética para fazer com que sua mensagem fosse recebida de maneira eficaz. No imaginário popular, certamente a visão de um profeta vestido de pêlos, mantendo uma alimentação escassa, separado da sociedade, habitando no deserto e criticando arduamente as estruturas de poder do seu tempo, remetia-os ao libertador Moisés, ao milagreiro Elias, ao corajoso homem do povo Amós... Não julguemos, porém, que o apocalipsismo perdera sua influência nos dias Jesus. É possível identificar ao longo do Novo Testamento inúmeros discursos tipicamente apocalípticos. Mateus 24 é inconfundivelmente um exemplo de como o apocalipsismo ainda estava presente na religião da província da Palestina durante o primeiro século. Além de inúmeras passagens apocalípticas espalhadas pelas cartas, o Novo Testamento possui o mais famoso de todos os livros apocalípticos, o “Apocalipse de João”. Na verdade, foi esse livro quem deu nome ao gênero literário que seu autor empregou, e ele evidencia a forte tendência apocalíptica presente em alguns círculos cristãos no final do século I e início do século II d.C.

Contudo, se levarmos em conta que a literatura profética tornou-se a maior fonte de esperança e também de reivindicações de justiça social para o povo de Israel, será que não podemos identificar influências da tradição profética em quase todos os livros neo-testamentários? Será que apenas oráculos com anúncios futuristas ou textos cheios de imagens das regiões celestiais devem ser considerados aqui? A verdade é que nos dias de Jesus e também da igreja cristã primitiva, a tradição profética tornara-se parte da cultura e não estava mais limitada a alguns videntes que diziam-se chamados por Javé para essa missão. No século I, poder-se-ia identificar características proféticas e apocalípticas em diversos movimentos populares de resistência à dominação imperial romana, dentre os quais, o movimento liderado por João Batista e o de Jesus podem ser inclusos. Nas décadas que precederam à guerra judaica contra Roma em 68-70 d.C., por exemplo, nasceram abundantes pretendentes messiânicos ou mesmo líderes bandidos que reunindo homens que sofriam com a injustiça, manifestavam sua insatisfação de maneira pacífica ou violenta. Seja como for, não se pode negar que os séculos marcados pela atuação dos célebres profetas do Antigo Testamento deixaram marcas permanentes que transcendiam a literatura.

Ainda que aqui tenhamos tratado da história da profecia bíblica de maneira superficial, acreditamos que este pequeno trabalho tenha exemplificado bem o processo de evolução da profecia bíblica, além de deixar claro ao leitor o quanto é abrangente o tema e grande a necessidade de maior aprofundamento para que alcancemos conclusões definitivas.