sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O COLETIVISMO COMO CHAVE DE LEITURA BÍBLICA

Introdução

Se estás entre os poucos leitores que lêem os textos que escrevo com freqüência, já deves ter notado que na maior parte do que escrevo trato das dificuldades intrínsecas à prática da interpretação bíblica.[1] Esse é o tema que me fascina, e para o qual tenho me dedicado dia após dia. É sobre ele que outra vez quero trabalhar nas próximas páginas, procurando compreender um dos vários empecilhos que conduzem os leitores modernos da Bíblia a inúmeros equívocos. O problema desta ocasião não é muito simples, pois temos que tratar de aspectos sociológicos para diferenciar a nossa cultura com sua própria maneira de pensar, daquela cultura em que estavam imersos os escritores da Bíblia. Assim, começaremos estudando as características mais marcantes dessas duas formas de sociedade a partir de Bruce J. Malina, escritor que trata do tema em O Evangelho Social de Jesus.[2]

Após essa primeira abordagem, que faremos da maneira mais sucinta possível, veremos também brevemente alguns exemplos, para que compreendamos como a imersão em um determinado tipo de sociedade pode condicionar nossa leitura e nos afastar do sentido pretendido pelo texto, fruto de uma cultura distinta. Imagino que será uma tarefa instrutiva, para ser lida pausadamente. Também creio que ao final nosso empenho terá sido gratificante, já que novos sentidos se abrirão diante dos olhos do leitor que até agora fora ignorante sobre o problema em pauta. Então, mãos à obra?

Culturas Individualista e Coletivista

Bruce J. Malina é um estudioso do Novo Testamento que faz uso abundante das ciências sociais. Neste caso, ele aproveita-se do trabalho de pesquisadores como Harry Triandis, que ele chama de “psicólogo social”, para explicar o funcionamento da cultura dos homens bíblicos. Temos assim duas formas de cultura social, a individualista, com a qual nós, brasileiros do século XXI, habitantes de ambientes urbanos como o de São Paulo, nos identificamos. Em contrapartida temos a cultura coletivista, que foi praticamente o único tipo de sociedade no mundo antigo e que predomina ainda hoje fora dos grandes centros urbanos influenciados pelos europeus e norte-americanos. Primeiro tratemos da cultura individualista, citando não todas, mas as mais significativas de suas características:

Os individualistas priorizam a pessoa e sua individualidade, dão ênfase às metas pessoais, e não às metas de seu grupo social. Como exemplo claro da transição para este tipo de cultura, temos a mudança de atitude social em relação ao casamento. Hoje as pessoas escolhem seus parceiros desconsiderando as opiniões dos pais, coisa que seria incompreensível antigamente. Como em primeiro lugar está a satisfação pessoal, as decisões são tomadas solitariamente, enquanto que a opinião dos outros é secundária. Mesmo dentro de uma família, cada indivíduo possui seu próprio senso de destino, o que se vê na religião dos individualistas, onde a salvação é uma conquista individual, e cada um dá conta de seus próprios atos.

Podemos dizer, então, que em nossa sociedade cada pessoa é definida por suas próprias realizações, não tendo tanta importância se somos filho de um doutor ou de um catador de lixo. Tu és para os outros o que tu fazes; o que conta são teus próprios diplomas e conquistas, e não mais as dos teus pais.

Como o que importa é a realização pessoal, nossa cultura acaba por sofrer com uma exacerbada competitividade, e geralmente temos dificuldades para nos integrarmos em grupos como igrejas, associações ou partidos políticos, dando a eles apenas uma porção limitada de nossa vida. Queremos, acima de tudo, manter nossa autonomia.

A distinção ficará mais clara a partir de agora, quando falaremos das culturas coletivistas: Neste tipo de sociedade estranha aos leitores citadinos de hoje, os objetivos do grupo a que se pertence estão acima dos objetivos individuais; o sucesso do grupo é o alvo, ainda que seus indivíduos sofram. Isso nos permite vislumbrar a razão pela qual membros de grupos islâmicos extremistas e coletivistas explodem-se a si mesmo como ato supremo de dedicação aos interesses coletivos; estes “mártires” não são loucos, antes são pessoas dedicadas ao seu grupo, e por tal ação são honrados entre eles mais do que se fossem doutores. Nessas sociedades, a integridade da família, do clã ou tribo, determinam o comportamento dos indivíduos.

Nas sociedades coletivistas, repito, não são as realização pessoais que determinam o status da pessoa, mas sim sua participação no grupo. Onde se nasceu, sua descendência e classe social, definem quem você é, e daí explica-se a ênfase bíblica em genealogias e na preocupação com a filiação tribal. Os evangelistas se preocuparam e criaram diversos mitos sobre o nascimento de Jesus simplesmente porque os judeus não podiam aceitar que o Messias fosse um carpinteiro de Nazaré; então fizeram Jesus nascer em Belem, como um novo Davi, fizeram-no vir do Egito, como um novo Moisés, etc. Hoje não haveria problemas em pregar Jesus como homem sem posses, de pai desconhecido, de uma aldeia sem importância... mas na época isso era determinando para o sucesso da missão cristã.

Dissemos que hoje vivemos sob o mal da competitividade, mas os coletivistas também competem a seu modo. Eles possuem grande dificuldade de envolver-se com membros de grupos externos, e nalguns casos, a simples filiação a um desses grupos distintos é motivo suficiente para que todos eles sejam vistos como inimigos. Mesmo hoje, islâmicos já nascem inimigos dos israelenses, e por isso, na “guerra santa” que travam incessantemente, não há mortos inocentes; todos da raça alheia são inimigos, indistintamente. Na Bíblia, temos várias proibições a respeito de casamentos entre judeus e gentios, e quando um judeu presta serviço terceirizado ao império romano coletando impostos dos seus patrícios como faziam os publicanos, é visto como um inimigo mais desprezível do que os próprios estrangeiros.

Fica fácil entender porque nas culturas coletivistas não é nenhum problema que os pais escolham os cônjuges dos filhos, sempre zelando pelos interesses do grupo acima dos interesses individuais. Uma possível fuga de um jovem para casar-se com um mulher de um grupo inimigo, como o cinema dos individualistas sempre retrata, é naquelas culturas uma traição extrema. E isso se estende a todos os aspectos da vida, sendo que a religião do grupo é a religião do indivíduo, a posição política do grupo é a posição política do indivíduo, e a condição econômica do grupo é a condição do econômica do indivíduo.

Certamente isso não é tudo o que pode ser dito sobre as distinções sobre culturas individualistas e coletivistas, mas é o suficiente para que passemos à análise de algumas passagens da Bíblia, que afinal, é o que nos importa.

Economia e Religião: o Reino de Deus é dos pobres

Começo a abordagem dos textos citando uma conhecida bem-aventurança que em sua versão em Lucas 6.20 diz:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”

Primeiro, tratando do aspecto econômico, o texto menciona os “pobres”. Não há dúvidas de que o texto se dirige ao grupo de judeu-cristãos que produziu e utilizaria o texto, o que nos leva a entender que todos eram considerados “pobres”, ou despossuídos de bens materiais. O segundo aspecto do texto é religioso, trata dos bem-aventurados (abençoados) que herdam o Reino de Deus. Então, o texto é bastante fechado por limitar a posse do Reino somente aos pobres, como se no grupo ninguém pudesse ficar rico, e como se ninguém fora dessa classe social pudesse almejar o Reino.

Leitores individualistas como nós, se estiverem dispostos a herdar o Reino de Deus, logo entendem que devem abrir mão de suas posses. Contudo, o texto é fruto de um autor coletivista, e mesmo que no cristianismo primitivo existissem algumas pessoas não tão pobres, isso não implica que eles perderiam o acesso ao Reino de Deus. Ou seja, as caracterizações são amplas, abrangentes; como a maioria deles era pobre, e como seus opositores (a elite sacerdotal ou romana) eram “ricos”, eles usam “pobre” e “rico” para se referir a grupos, e não a indivíduos. Quem herda o Reino não são os despossuídos, mas os que pertencem ao grupo que eles chamam aqui de “pobres”.

Na mentalidade bíblica, um romano, seja ele rico ou pobre, não entra no Reino de Deus, enquanto que um judeu-cristão, seja rico ou pobre, entra. A salvação na Bíblia não deve ser entendida como conquista pessoal, mas como um direito coletivo. Nos tempos bíblicos cada grupo social via-se como o povo eleito, hoje, mesmo entre os calvinistas não há mais esse tipo de eleição coletiva que depende apenas da pertença ao grupo escolhido, agora dentro de um mesmo ajuntamento há salvos e não-salvos.

Estendendo essa conclusão a outra passagem, podemos ver que quando Jesus disse: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” (Lc 18.24), o problema não estava na riqueza material em si, mas num mal sistêmico da sociedade, em que todo tipo de riqueza era fruto da exploração de outrem. Assim, os ricos, por mais distintos que fossem uns dos outros, eram vistos como um só grupo de opressores. Por sua vez, os pobres, ainda que entre eles houvessem bandidos e assassinos, são em termos gerais chamados de “justos”, posto que não compartilham da mesma vida confortável e desumanizadora da qual participam os ricos. Como escreveu J. D. Crossan, “O Deus judaico não tem opção preferencial pelos pobres; antes, o Deus judaico tem opção preferencial pela justiça”.[3] Quando os já citados publicanos passavam a trabalhar para o sistema opressor do império, automaticamente eram tratados como os ricos ou gentios, como se tivesse se desvencilhado de sua raiz e também do destino comum deles.

Eis aí a fonte de muitos equívocos em nossas interpretações da Bíblia, nós vemos as distinções de classes, as opções religiosas, e o destino eterno de maneira individual, enquanto que na verdade, todas elas eram aplicadas de maneira coletiva.

Família e Política

Seguindo em nosso estudo, voltamo-nos agora para outro texto que nos dará a ocasião para falar de outros dois aspectos sociais que são tratados de maneira coletivista na Bíblia. O texto é Marcos 6.17-18, e diz o seguinte:

“Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe (porquanto Herodes se casara com ela), mandara prender a João e atá-lo no cárcere. Pois João lhe dizia: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão.”

O texto fala da prisão de João Batista. O ocorrido foi o seguinte: Herodes Antipas governava a Galiléia e casara-se com Herodíades, que antes fora a mulher de seu irmão Herodes Filipe. O profeta João criticara publicamente o ato de Antipas, dizendo que isso não era lícito, o que levou o tetrarca a prendê-lo e depois matá-lo. Nós, da cultura individualista, não tardamos a relacionar a morte de João Batista com o pecado de Antipas, que forçara o divórcio da mulher para levá-la a um segundo casamento (Lv 18.16). Nós, à primeira vista, só vemos Antipas agindo por um interesse pessoal, como um homem moderno que se apaixona e comete erros em virtude dessa paixão irracional. Todavia, o problema é maior ainda.

Antipas não casara-se com Herodíades simplesmente por interesse pessoal, ele tinha também um interesse político. Antipas estava com sua popularidade em baixa, pois havia construído uma nova cidade em estilo helenístico para ser sua nova capital; ele até chamou-a de Tiberíades, em homenagem ao imperador Tibério. Além disso, a cidade foi edificada sobre um antigo cemitério, o que segundo a lei judaica a tornava permanentemente impura. Com efeito, sofrendo oposição popular por ir contra os interesses coletivos do povo, Antipas decide desposar Herodíades, que era descendente da antiga e ainda reverenciada linhagem asmonéia.[4] Como já foi dito acima, o vínculo familiar possuía grande relevância em termos de aceitação coletiva, e tudo isso nos leva a crer que o casamento de Antipas com Herodíades tinha o propósito de torná-lo um governante mais legitimamente judaico, mais aceito, culturalmente e coletivamente falando.[5]

A crítica de João Batista pode, portanto, ser vista pelos dois ângulos, mas o problema coletivo sem dúvida é mais relevante do que o individual. O Batista pode até ter criticado Antipas por somar mais um pecado pessoal à sua já extensa coleção, entretanto, era-lhe mais importante as ofensas à tradição judaica que esse tetrarca estava praticando; essa era a ofensa que atingia João e todo o povo. Tanto a atividade profética de João quanto sua prisão se explicam melhor a partir desse embate político do que numa mera discussão doutrinária. A voz de João estava destruindo os planos políticos de Antipas, ameaçando a estabilidade do seu governo, denegrindo sua já abalada imagem pública... Por isso Antipas, o tetrarca, se incomodou com o pregador e teve de calá-lo.

Outra vez vemos que os objetivos coletivos predominam sobre os individuais. Antipas, a exemplo de tantos outros líderes políticos, fazia casamentos por interesses políticas, e não por buscar a felicidade pessoal. Curioso é que não existe nenhuma menção à opinião do irmão de Antipas, Herodes Filipe, que perdera a esposa nessa transação, o que também pode nos servir para confirmar que tudo não passava de um acordo feito a partir dos interesses da família, e não de um caso de amor irresponsável como geralmente julgamos. Da mesma forma interpretamos a ação do profeta João Batista, que estava mais preocupado com a forma culturalmente inaceitável com que Antipas conduzia a nação do que com a salvação da alma do tetrarca.

Conclusão

É verdade que vimos apenas dois exemplos bíblicos com um pouco mais de detalhes, o que é uma amostragem irrisória diante da extensão da Bíblia. Mesmo assim, já ultrapassamos o número de páginas que esperávamos e penso que o nosso objetivo com esse texto já foi alcançado. Tivemos uma introdução à leitura que distingue os conceitos próprios da cultura coletivista enraizados a cada página da Bíblia dos nossos conceitos individualistas. O leitor certamente poderá, se assim desejar, continuar a ler a Bíblia por conta própria a partir desses novos conceitos, e poderá testar o que temos dito por si mesmo. Veja, por exemplo, o valor que tem a coragem de Davi ao enfrentar Golias em favor do seu povo; veja como é admirável a misericórdia de José que perdoa os irmãos que tiveram a coragem de trair seu próprio sangue; veja como é nobre a atitude de Jesus, que compartilha o pouco pão que tinha com a multidão, por considerá-los seus próximos...

Enfim, demos mais um passo em direção à leitura consciente da literatura bíblica, o que é nosso alvo individual e também coletivo.



[1] Veja outros textos do mesmo autor em “www.compartilhandonoblog.blogspot.com”.

[2] MALINA, B. J. O Evangelho Social de Jesus: O Reino de Deus em Perspectiva Mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004, pp. 322-330.

[3] CROSSAN, J. D. O Nascimento do Cristianismo: O que Aconteceu nos Anos que se Seguiram à Execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 362.

[4] Os asmoneus foram líderes político-religiosos da Palestina anterior a Jesus. Eles descendiam dos antigos libertadores populares conhecidos como Macabeus, que tomaram a liderança da nação da mão dos dominadores selêucidas em 162 a.C.

[5] CROSSAN, J. D. Texto e Contexto na Metodologia dos Estudos Sobre o Jesus Histórico. In. Jesus de Nazaré: Uma Outra História. Vários Autores. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006, pp. 165-192.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

OUTRA VEZ ESSA DE PROSPERIDADE

“Entenda quão inúteis são seus sacrifícios

De Deus você só desejou seus benefícios

Despoje-se do egoísmo todo seu

Misericórdia é o que eu quero fariseu”

Refrão da canção “Fariseu”, de Anderson de O. Lima

No último fim de semana fiz algo que já não fazia havia muito tempo; fiz tocar enquanto limpava a casa com minha esposa um CD de música evangélica. Geralmente ouvimos outro tipo de música brasileira, e não me agrada ouvir “louvores” fora de seu próprio “lugar vivencial”, que é o culto. Para mim (e isso é uma opinião muito pessoal), ouvir pessoas adorando fora do culto é como cantar “parabéns pra você” fora de uma festa de aniversário, trata-se de um texto sem contexto. Mas, sei lá o que me deu, decidi ressuscitar um CD da chamada “gospel music” que mal tinha ouvido.

O que me levou a escrever esse texto hoje é que a decisão de ouvir esse CD antes esquecido trouxe-me tristeza, e até mesmo certa irritação. Lamentei por não tê-lo deixado apodrecer no fundo daquela gaveta, lugar que ele nem mesmo merecia. Vou explicar meu descontentamento a seguir, mas deixe-me adiantar que essa explicação não se aplicará somente às músicas que ouvi, mas à linguagem evangélica contemporânea que de maneira geral, está bem representada por aquelas pobres canções.

Bem, o caso é que praticamente todas as canções do CD se referiam de alguma forma à suposta promessa de que Deus prosperaria os evangélicos. São incontáveis as ocorrências de verbos como prosperar, abençoar, transbordar, fluir, abundar, fartar... sempre empregados como parte de uma promessa divina. Enquanto ouvia as inumeráveis repetições dos refrões maçantes cujo objetivo são nos levar a crer nessas “promessas”, estive meditando sobre como hoje é obvio para mim que tudo isso parte de uma leitura equivocada da Bíblia. Primeiro, o leitor crente parece que nunca teve um romance em mãos, e por isso não sabe interpretar elementos textuais fundamentais. Vamos ver um exemplo? Vou citar abaixo um texto bíblico e mostrar como ele pode ser lido erroneamente, depois voltamos ao CD:

“Não se aparte da tua boca o livro desta Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque, então, farás prosperar o teu caminho e, então, prudentemente te conduzirás. Não to mandei eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não pasmes, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus, é contigo, por onde quer que andares” (Josué 1.8-9)

Bem, por uma questão didática vou enumerar alguns dos problemas que podem surgir da leitura dessa passagem, mas não me dedicarei muito a esta tarefa, para que este não se torne um texto técnico.

1) O primeiro erro está na identificação do narrador. O leitor crente de imediato dirá que é Deus quem fala, e que estamos, portanto, diante de uma palavra de Deus. Realmente é Deus quem fala, no entanto, Deus é neste caso um personagem, cujas palavras foram criadas pelo verdadeiro autor do texto, que não se identifica em parte alguma. Ou seja, há um homem escrevendo as palavras de Deus, e não o próprio Deus falando diretamente através de um médium que psicografa suas palavras. Se estivéssemos lendo Dom Casmurro, não haveria problema algum, pois todos concordariam que o narrador é Bentinho, o personagem que está narrando sua infância; mas quando se trata da Bíblia, a visão fundamentalista de “inspiração” serve como base à má interpretação. Tanto a interpretação errônea, como o conceito fundamentalista de inspiração, são resultantes do desejo ardente por ouvir um oráculo aprazível; por isso ordens sobre circuncisões não são tão inspiradas quanto estas.

2) O segundo problema é semelhante ao primeiro, o leitor crente não sabe identificar a quem o personagem “Deus” se dirige no texto, e lê tudo o que está em segunda pessoa como se fosse escrito para ele próprio. Assim, logo vê-se que o crente pode acreditar que deve meditar na lei do Senhor e obedecê-la, condição para que seja abençoado em seus próprios caminhos. Ora, as promessas do texto são bem mais restritas; dirigem-se a Josué, que estava na narrativa a ponto de invadir terras alheias e conquistá-las para fazer delas território israelita. Não há nada no texto em si que nos faça crer que tais promessas se apliquem também a qualquer leitor do texto.

3) Outro problema já mencionado superficialmente é o contextual. Neste exemplo é comum que o leitor crente imagine que deve se devotar ao estudo dos textos bíblicos, e toma isso como mandamento. No entanto, tal prática não existia nas culturas antigas a não ser entre uma minoria de religiosos letrados, que não existiam entre esses supostos nômades e dos quais Josué não faria parte se existissem. Quando esse texto foi escrito, os textos sagrados eram lidos coletivamente em assembléias, e o povo essencialmente analfabeto, memorizava algumas passagens e meditava nelas. Não existiam livros como hoje temos, e os poucos rolos de papiro que privilegiados escribas tinham custavam caro. Além do mais, ainda que o texto incentivasse a leitura e o estudo dos textos sagrados, só a Torá está sendo mencionada, e não seria necessário ler os profetas, os escritos e muito menos o Novo Testamento. A complexidade desse item já é evidência suficiente de que o leitor crente, por melhor que sejam suas intenções, raramente pratica a religiosidade proposta na Bíblia.

Se julgo que a interpretação que os leitores evangélicos fazem dos textos bíblicos está assim equivocada, naturalmente suponho que todas aquelas canções que lembram promessas de prosperidade não passam de falsa religiosidade. De nada adianta cantar a toda voz que você crê numa promessa que Deus nunca fez. No entanto, pode-se ignorar os argumentos que acima apresentei e dizer que independente disso essa fé funciona. Será?

Duvido que a prática confirme esta crença. Sei que há semanalmente nas igrejas e até no rádio e na TV muitas pessoas testemunhando a respeito das bênçãos alcançadas. Ouvimos muitas pessoas falando sobre seu sucesso profissional e financeiro, mas isso não me convence por um motivo simples: se Deus realmente abençoa quem crê, quem é fiel à Bíblia ou coisa assim, deveríamos ver alguma mudança na classe social dos membros das igrejas evangélicas, coisa que não é possível constatar. Quero dizer que se realmente os crentes fossem alvos de promessas especiais de bênçãos, as igrejas testemunhariam mudanças significativas, e uma porcentagem razoável dos membros pobres chegariam à classe média, por exemplo.

Infelizmente as igrejas da periferia continuam pobres como antes. O número de crentes desempregados é o mesmo, e o número de famílias que carecem de assistência é o mesmo, com pequenas variações de ano para ano. Enquanto no microfone alguns bem-aventurados contam sobre seus sucessos, nos bancos há outros que faliram, que perderam o emprego, que foram roubados... Quer dizer que independente de como se lê o texto bíblico esse evangelho da prosperidade não funciona. Como haveria de funcionar, se ele é uma invenção de leitores incompetentes da Bíblia? Ou para ser mais brando, ele é uma invenção de almas carentes que encontraram na fé em um Deus doador de bens materiais que não existe uma maneira de alimentar sua esperança e continuar vivendo.

Antes de terminar, devo confessar que nem sempre pude avaliar a leitura que alguém faz de um texto bíblico como fiz aqui. Mas afirmo com segurança que tenho crescido nessa ciência que é a interpretação bíblica, e é por já ter evoluído um pouco que anseio também pela evolução de meu leitor, razão pela qual lhes escrevi um texto tão ofensivo para muitos. Eu disse que tudo começou com tristeza e irritação, não poderia esse texto ser diferente.

Espero que o texto tenha lhe acrescentado alguma coisa, pois o CD que ouvi e o exemplo que dei não são exceções, mas são uma pequena amostra da religiosidade evangélica brasileira que sofre e que no futuro sofrerá ainda mais com a deplorável atitude de seus líderes, esses sim, pessoas cada vez mais prósperas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

COMO VIVER BIBLICAMENTE NO SÉCULO XXI

Primeiras Palavras

Tenho escrito muito, dezenas de páginas por semana, e gosto muito do que faço. Mas ao contrário do que se pode pensar, não escrevo somente porque tenho a intenção de ensinar, escrevo também para aprender. É escrevendo que penso melhor, que desenvolvo e organizo idéias, e tal exercício tem me servido muito bem. Se estás lendo este texto no meu blog, poderás notar que meu último texto, intitulado “O Futuro a Deus ‘Não’ Pertence”, é um exemplo do que estou falando, onde mais registro pensamentos do que qualquer outra coisa.

Hoje, voltei às letras apressadamente para meditar e ensinar algo que julgo ser de grande importância. Todo cristão busca conhecer Jesus e vê nele o maior exemplo a ser seguido, mas em algum momento da sua vida deve se perguntar como é possível realmente assemelhar-se a Cristo, posto que ele descrito em tão alto padrão. Em alguns aspectos imitar Jesus não é problema; todos sabem sentar na casa dos amigos e compartilhar uma boa ceia, todos concordam que é preciso orar, que é preciso dividir o que sobre Deus aprendemos com os outros... Todavia, quantos estão prontos a aceitar o celibato que ele aceitou? Quantos deixam casa e família para anunciar o Reino de Deus aos pobres de outras regiões? Quantos abrem mão dos poucos pães e peixes que possuem para alimentar os famintos?

Não precisamos nos alarmar por isso. É absolutamente normal que façamos uma leitura seletiva da Bíblia, o problema é que geralmente essa seleção não é consciente, mas instintiva. Em decorrência dessa inconsciência, muitos selecionam como normativos para suas vidas textos que não precisávamos levar ao “pé da letra”, enquanto descartam outros muito mais relevantes. O objetivo desse texto é distinguir três aspectos básicos da religiosidade bíblica, e avaliar qual ou quais deles são relevantes para o cristão que pretende agradar a Deus em pleno século XXI. Essa tarefa primeiro nos proporcionará, a mim e ao leitor, aprendizado, e depois nos fornecerá subsídios para a vida cristã comprometida e coerente.

Devo mencionar que mais uma vez devo a John Dominic Crossan a distinção dos três aspectos da religiosidade bíblica que vou expor, o que deixou-me encarregado apenas de transmiti-la aqui em linguagem mais acessível ao meu leitor. Aos interessados no tema peço que leiam “O Nascimento do Cristianismo”, ed. Paulinas, pp. 321-328.

Três Aspectos da Religiosidade Bíblica

A religiosidade bíblica desenvolveu, durante os vários séculos em que os judeus padeceram sob o domínio de impérios estrangeiros, diferentes alternativas de resistência à opressão baseadas na fé. Na verdade, os judeus adotaram e adaptaram formas de resistência pré-existentes em outras culturas, gerando movimentos diversos que de hoje de maneira muito genérica chamamos de “judaísmos”. O que aproxima essas diferentes formas de resistência é o que chamamos de escatologia, ou seja, a expectativa de que as circunstâncias desfavoráveis seriam transformadas no “fim”, seja esse “fim” o fim de um império, de uma era, do mundo, da sua vida terrena etc.

A primeira dessas formas de religiosidade judaica é o que chamamos de apocalipsismo. Nela, nega-se o mundo presente através da crença de que Deus intervirá de maneira decisiva na história para pôr fim às injustiças. João Batista era adepto do apocalipsismo, e advertia seus ouvintes sobre a “ira vindoura” (Lc 3.7). O anúncio do Reino de Deus, comum a João Batista e a Jesus, é também tipicamente apocalíptica, pois implica necessariamente no fim de todo governo humano para que Deus assuma o comando. O apocalipsismo não é somente esperança futura, traz consigo também certo grau de violência, que se não é humana, ao menos é divina. O que se espera é, falando francamente, uma matança dos inimigos para a inauguração de um novo mundo purificado, uma guerra do Armagedom sanguinária que inspirou muitos apocalípticos a buscarem a justiça através da guerra.

O apocalipsismo não se extinguiu, como podes pensar, e grupos de várias religiões continuam esperando um evento salvífico como a volta de Cristo, o arrebatamento da igreja, o fim do mundo... O ponto negativo é que nessa espera alguns crêem que o tempo está se esgotando e querem “converter” os outros à força. Estes e gostam de textos que dizem para quem não tem espada adquirir uma (Lc 22.36), ou que os inimigos do homem estarão na sua própria casa (Mt 10.36). Outros, mais radicais, crendo que a hora chegou se suicidam, ou partem para a guerra civil como uma forma de dar início ao julgamento escatológico como fizeram os judeus em 66-70 d.C. e Che Guevara na América há algumas décadas. Pena que a vitória pela espada nunca é definitiva, e quem vence pela espada tem que manter seu governo também pela espada, numa tensão que a qualquer momento pode explodir em novas batalhas.

O segundo aspecto da religiosidade judaica é chamado de ascetismo. Os adeptos dessa forma de religião combatem o mundo através do isolamento e da purificação individual. São ascéticos os monges e as freiras, que separam-se do mundo, seguem padrões rígidos de alimentação e jejuns, e fazem votos de castidade. Eles esperam aproximar-se de Deus afastando-se do mau que está no mundo, e consideram-se vocacionados para tal forma de vida. Protestam assim dizendo pelas atitudes de renúncia que o que há “lá fora” não é bom. João Batista era também um desses, pois isolou-se no deserto, não comia nada além de gafanhotos e mel, vestia-se humildemente, purificava-se a si e aos seus discípulos através de um banho ritual, e ao que tudo indica não tinha mulher (Mt 3.1-6). Jesus não foi tão radical na prática ascética quanto João; comida livremente e não parece ter adotado qualquer banho ritual em seu seguimento. Todavia, Jesus também deixou sua casa e família pela sua missão, não tinha esposa, e isolava-se para tempos de oração. Assim ele inspirou nossos padres ou mesmo evangélicos que gostam de subir montes e jejuar em busca de santidade.

O último tipo de religiosidade que quero mencionar é o chamado eticismo (de ética). Só pela estranheza que o nome nos transmite, já dá pra imaginar que este é o aspecto menos mencionado pelos religiosos de hoje. Neste caso a resistência ao mundo não é feita em isolamento físico, mas em mudança de atitudes cotidianas. O foco não está na intervenção de Deus, mas na mudança da sociedade injusta através das ações justas dos adeptos, inspirada, todavia, no conhecimento de um Deus que é justo. Esse tipo de religiosidade ensina a não mais participar de qualquer instituição promotora da injustiça, a não mais colaborar com a violência, com a desigualdade social, a crer que mudando as pessoas mudamos o mundo. Uma característica marcante desse tipo de religiosidade é que ela se nega a reagir a ações violentas (Mt 5.39), motivo pelo qual nasceu desde os primórdios do cristianismo a idéia de que o martírio era um privilégio a ser recebido com alegria.

Sem dúvida Jesus e os seus primeiros seguidores eram sérios adeptos desse eticismo. Jesus ensinou a dar a outra face aos que nos agridem (Mt 5.39), crendo que tal atitude resultará em vida eterna (Mt 10.28); ensinou a não dar as costas aos que nos pedem (5.42), a não cobrar pelas boas ações praticadas (Mt 10.8), a não tratar ninguém com preconceito (Mc 2.17) etc.

Que Aspecto da fé Bíblica Devemos Viver?

Tu deves ter notado que os três aspectos que distinguimos estão misturados na Bíblia e aparecem em medidas diferentes a cada personagem. Alguns são mais apocalípticos, outros mais radicais e individuais, e outros mais adeptos da sabedoria e da vida comunitária. A questão é, então, aprender a distinguir em nossa própria vida esses três aspectos e avaliar se nossas atitudes estão de acordo com nossas expectativas escatológicas. Isto é, como acreditamos que as coisas erradas podem mudar? Estamos agindo de acordo com essa nossa fé?

Minha opinião pessoal é que do apocalipsismo podemos aproveitar a fé de que esse mundo repleto de coisas negativas será transformado, e que Deus está nos esperando no fim para receber os “justos”. Mas essa esperança não deve resumir-se em passividade e nem tampouco culminar em violência. Outro ponto que merece destaque na opção pelo apocalipsismo é que a volta de Jesus, o arrebatamento, ou seja lá qual for a intervenção divina que se espera, não pode ser prevista. A atitude a se tomar é de vigilância, de esperança. Essa esperança de melhoria e a fé de que Deus não planejou tanta coisa ruim é sadia para todos nós.

Quanto ao ascetismo, creio que devemos modernizá-lo ou mesmo descartá-lo. Não acredito que o mundo será transformado pelo nosso isolamento, antes, ele nos escarnecerá. Não vejo valor algum em banhos rituais como o batismo, nem em isolamentos como fazem os monges ou os evangélicos em vigílias nos montes. Também não consigo imaginar nenhuma utilidade para os jejuns, para a assiduidade supersticiosa a todas as reuniões da igreja, ou para a castidade. Nem creio também, que o cristão de hoje deve abrir mão dos seus bens simplesmente por acreditar que a pobreza é uma virtude. Assim, em minha opinião, do ascetismo pouco se aproveita para nossos dias. Talvez a eventual prática da meditação e a abstenção de alimentos prejudiciais à saúde ou a produtos como cigarro e bebidas possa nos servir, mas em qualquer implicação espiritual. O perigo é que adotando o ascetismo em qualquer medida, sempre corremos o risco de escorregar para o rigor da lei, que sem qualquer motivo racional proíbe um de cortar o cabelo, outro de usar roupa vermelha, outro ver TV, outro de ir à faculdade, outro de se casar com pessoa de outra religião, outro de praticar esporte etc.

Porém, não há qualquer “contra-indicação” à adoção completa da religiosidade ética que predominava em Jesus e na primeira geração de cristãos (conforme os testemunhos textuais dos primeiros trinta anos de cristianismo). É desse aspecto da religiosidade bíblica que aprendemos a amar o próximo como a nós mesmos, e assim, se toda ação por nós praticada estiver condicionada por esse princípio do amor, não há como errar. O cristianismo ético baseia-se na vida real, trata dos problemas que as pessoas enfrentam no dia a dia e fala ao mundo em linguagem clara e sábia. Ele pode ser facilmente adaptado a cada nova geração, o que a torna viável e de fácil aplicação a toda cultura.

No cristianismo ético, não há criatividade para se criar animais mitológicos ininteligíveis que nunca são compreendidos e só levam a intermináveis discussõesteológicas, e nem há limites doutrinários que sem notarmos tornam-se abusivos e servem para que líderes opressores controlem as massas. Tudo é avaliado por um só critério: isso faz bem ao próximo? Então devemos fazê-lo. Isso faz mal ao próximo? Então deve ser rejeitado. Essa me parece a parte que devemos prestigiar da religiosidade bíblica; talvez, ela seja a única realmente necessária.

Eram estas as coisas que eu tinha a dizer hoje. Agora tu podes descartar o que leu, reler o texto para assimilá-lo com maior clareza, ou fazer logo sua opção e seu auto-exame. Seja qual for tua escolha, faze-a conscientemente. Decide o que vais vivenciar e o que pretendes descartar da Bíblia, e não te enganes pensando que alguém é capaz de ser tudo isso ao mesmo tempo, pois se tal coisa fosse possível, teríamos uma figura estranhíssima que certamente não desejaríamos imitar. A maneira distinta com que cada profeta, apóstolo ou messias da Bíblia montou sua própria religiosidade é sinal de que não estamos errando ao fazer isso; erramos mais quando abaixamos a cabeça e anulando a capacidade de discernir que Deus nos deu seguimos um padrão religioso que alguma igreja nos ditou. ¡Viva la revolución!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O FUTURO A DEUS “NÃO” PERTENCE

Introdução

Antes de entrar no assunto desta mensagem, preciso fazer algumas considerações a meus leitores. Primeiro, sou um pesquisador e escritor do campo da religião, e tenho trabalhado em dois campos distintos simultaneamente: um deles é acadêmico, desenvolvo artigos científicos e no momento preparo minha dissertação de mestrado. O acesso a estes trabalho é mais restrito, pois estão sendo publicados em revistas científicas das faculdades brasileiras e são destinados a outros pesquisadores. Segundo, tenho escrito desde 2005 textos de pequena extensão que são bem mais acessíveis. Estes são publicados em igrejas cristãs e geralmente os divulgo em meu blog (www.compartilhandonoblog.blogspot.com). Os dois campos são distintos, um excessivamente acadêmico, outro prático, reflexivo e até devocional; mas eles também se tocam eventualmente. Algumas vezes, um texto acadêmico é resumido para alcançar um público não especializado (como fiz com o texto “Um Rei dos Nossos...”), em outras, um texto breve é re-trabalhado para transformar-se em texto científico (como foi o caso de “Jesus era contra o Divórcio?”).

O texto que abaixo apresento é um texto da classe “popular”, ou seja, apresenta uma reflexão breve, sem demasiada argumentação ou preocupação com a fundamentação das idéias. Uso assim esse instrumento para divulgar em forma escrita um pensamento antigo, que precisa ser aperfeiçoado e confrontado com a opinião de outros. Caso essas idéias sejam aprovadas nesse primeiro teste, penso na possibilidade de lhe aperfeiçoar.

Meu leitor pode estar se perguntando por que nos últimos textos me tornei tão formal. Neste caso, quis ser cuidadoso porque o que vamos ver é uma verdadeira “heresia”, um pensamento totalmente contrário àquilo que a igreja e mesmo os teólogos tradicionais pensam. Não estou tratando de um assunto que domino, mas expressando idéias que me parecem relevantes no âmbito teológico. Assumo o risco de receber críticas, na verdade, é o que espero, para saber quão coerente é esta minha idéia.


Conteúdo

Tenho reconhecida aversão às idéias pré-concebidas que a chamada “teologia sistemática” ensina aos estudantes de teologia. Me parece que falta transparência à teologia sistemática, pois tais idéias não são apresentadas como hipóteses, o que realmente são, desenvolvidas por pensadores de várias gerações. Tais idéias são apresentadas como certezas, método de educação antiquada que impede o aluno de pensar por si mesmo, já que estará sempre influenciado pelas idéias pré-estabelecidas dessa teologia.

O caso que tenho em mente enquanto escrevo é a idéia de que Deus é Onisciente (que aceito), que conduz à idéia de que ele sabe tudo sobre o passado, o presente e o futuro (que rejeito). Os teólogos crêem que Deus vê o “tempo” em sua totalidade, conhecendo tudo o que acontece do princípio ao fim da história. Supostamente tais conceitos tiveram origem na Bíblia, mas sinceramente não sei como essa idéia pode ser defendida com a Bíblia. Que textos falam disso?

Outra vez, quero enfatizar que aceito a idéia de que Deus conhece todas as coisas, o que questiono é que Deus conhece o futuro, o que em minha opinião, não existe. Sempre que debato este tema, cito o mesmo exemplo, e ele não poderia faltar aqui, onde quis registrar exatamente essas minhas dúvidas. Meu exemplo começa com uma pergunta: Deus conhece, por exemplo, a constituição física dos extra-terrestres? Se existem extra-terrestres, ele a conhece, mas se eles não existem, então Deus não deixa de ser Onisciente se não conhecer o que não existe. Assim, para mim Deus conhece todas as coisas, mas não conhece o futuro simplesmente porque ele não existe.

Um leitor da Bíblia que se preze, antes de concordar comigo, vai perguntar coisas como: E as profecias? E o Apocalipse? Deus não anuncia na Bíblia as coisas que ainda virão e, portanto, as conhece com antecedência? Bem, primeiro a profecia não é sempre uma previsão futurista. Na verdade, a maioria das profecias são locais e podem ser explicadas em termos humanos. Se um economista moderno diz que a próxima potência mundial será a China, isso não precisa ser atribuído à inspiração divina; ele observou, estudou, e já pode dizer o que virá, embora possa se enganar e o diga sem riqueza de pequenos detalhes. Na profecia do Antigo Testamento, a inspiração divina não anula esse elemento humano, o dom de observação e a inteligência do profeta. Com base na fé em um Deus de direito e justiça, e com base na observação astuta do cenário político nacional e internacional, os profetas avaliavam as injustiças dos seus dias e o papel internacional exercido pelo seu país, e previam o fim das dinastias pela tomada da nação por um império muito superior militarmente, que aliás, já estava dominando diversas outras nações mais poderosas que Israel. Mais que previsões futuristas, a profecia me parece a aplicação quase sempre precisa dos princípios lógicos de causa e efeito, embasadas na fé em um Deus bom.

Sobre a literatura apocalíptica, a questão é um pouco diferente. As previsões apocalípticas não podem ser facilmente localizadas nem no tempo nem no espaço, motivo pelo qual a interpretação dada aos seus símbolos muda de geração para geração. Como os apocalípticos tratam especialmente do fim dos dias, suas previsões não se concretizaram até hoje, e não há nada além da fé que nos faça crer que ainda se concretizarão. Mas supondo que Deus lhes tenha revelado seus planos para o fim dos tempos, ainda temos que lidar com a linguagem mitológica e simbólica que empregaram para descrever suas visões, repletas de ambiguidades. Assim, mesmo crendo, também não vejo a previsão apocalíptica como prova de que o futuro já está escrito. Os visionários vislumbraram animais de muitas cabeças, chifres e olhos, e não as coisas como realmente serão. Quer dizer que o plano divino lhes foi apresentado por meio de representações, e não como um filme dos fatos, que não existem. Deus lhes contou ludicamente o que pretende realizar, mas não lhes mostrou nada de concreto.

Outra questão precisa ser esclarecida: Se para mim não há futuro, isso não quer dizer que Deus não faz planos para o futuro. Todos fazemos planos, mas Deus, o Criador, não só faz planos como assegura que seus planos se cumprirão. Se Deus porventura fizer previsões, elas não são relatos de fatos prontos, mas de planos que Deus pretende cumprir. Deus é, portanto, capaz de fazer previsões, mas também pode mudar de idéia sem ter que reescrever o fim já determinado. Talvez isso traga alguma luz à eterna questão do “arrependimento” de Deus, que intriga todos os que começam a ler a Bíblia.

Minha conclusão é que não há destinos escritos, não há predestinações, mas projetos divinos que devem acontecer. Quando o Senhor anuncia algo que quer fazer, nós podemos dizer que já sabemos o futuro, mas ninguém, nem mesmo Deus, vê o futuro. Se algum vislumbre do porvir nos for concedido, não significa que este futuro está determinado e nada é capaz de alterá-lo. Em muitos casos, o plano divino é feito a partir das ações humanas, e mudam de acordo com a mudança das nossas atitudes.

Diante desta reflexão, não são necessárias grandes mudanças. Deus continua sendo o Criador Soberano do universo, e nosso destino continua em suas mãos. O que realmente pode mudar é nossa atitude imediata, já que deixando de se conformar com um futuro pré-estabelecido que nos leva a esperar passivamente, aceitamos a responsabilidade de trabalhar em todo o tempo em concordância com a vontade divina para que no final, o melhor destino possível nos seja concedido. O futuro, então, está sendo escrito hoje, e Deus espera que nós façamos o melhor, para escrever um final feliz para nossas histórias.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

JESUS ERA CONTRA O DIVÓRCIO?

Desta feita gostaria de falar sobre o texto de Mateus 5.31-32, que trata da sempre polêmica questão do divórcio. O assunto é relevante para a atualidade mas gera ainda muitas controvérsias, que como veremos, não se devem ao texto bíblico em si, mas às nossas próprias tradições. Antes de começar, para fazer justiça, devo dizer que boa parte das considerações que farei já haviam sido publicadas bem antes de mim por Gerhard Lohfink, que ao escrever o livro Agora Entendo a Bíblia: para você entender a crítica das formas (São Paulo: Paulinas, 1978), tratou do mesmo texto e divulgou conclusões muito semelhantes. Claro que eu também divulgo algumas novidades, ou não se justificaria meu estudo e eu apenas lhe indicaria a leitura da obra de Lohfink. Ao leitor, peço que veja este primeiro parágrafo como um prefácio, e o próximo como uma introdução metodológica. Peço desculpas por ter que introduzir o assunto falando de algumas questões mais técnicas, colocando o leitor a par de pressupostos importantes para o estudo dos evangelhos, que caso não fossem comentados, poderiam provocar dúvidas e parecer que nos contradizemos. Porém, faço isso de maneira sucinta, num só parágrafo; portanto, não desista da leitura nesta primeira página, seja perseverante. Depois dela cito o texto de Mateus 5.31-32 numa tradução minha; não se assuste se alguma coisa estiver diferente da versão que você conhece da sua Bíblia, eu vou explicar aos poucos estas diferenças. Aí sim, vou direto ao assunto evitando demasiados rodeios. No final faço algumas considerações práticas que são as partes mais importantes deste estudo.

Então, devemos dizer de pronto que a passagem sobre Jesus e o divórcio está presente não somente em Mt 5.31-32, mas também em Marcos 10.1-12 e Lucas 16.18. Poderíamos estudar todos os textos, ou escolher um deles. Já que escolhemos Mateus, é necessário justificar essa escolha. Em geral, os estudiosos concordam que sempre que um texto aparece em Mateus, Marcos e Lucas, a versão de Marcos é a mais antiga, e que os demais autores teriam copiado seu conteúdo uns 20 ou 30 anos depois. Porém, vê-se neste caso que a versão de Marcos está enriquecida com um contexto narrativo criado por ele próprio, o que torna o texto mais extenso. Nas versões de Mateus e Lucas, estão preservadas somente as palavras de Jesus, o que leva-nos a crer que aí temos uma versão mais original do dito de Jesus, fazendo-o mais útil para nosso propósito. Em seguida notamos que a versão de Mateus é mais completa que a de Lucas, que omite a citação à Lei do Antigo Testamento. Por tudo isso, preferimos Mateus para este estudo, embora as conclusões alcançadas aqui possam se aplicar à análise dos outros evangelhos sem maiores problemas.

Mateus 5.31-32

“E foi dito: ‘O que despede sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio’. Mas eu vos digo que todo o que despede sua mulher (exceto caso de relações sexuais ilícitas) a faz adulterar, e o que casa com a despedida é feito adúltero”

Procurarei explicar a partir daqui o texto em si, mas deixa-me situar textualmente as palavras de Jesus primeiro: Estamos lendo um texto que faz parte de um conjunto de textos que vai de Mt 5.17-48, onde Jesus lembra uma série de mandamentos conhecidos do Antigo Testamente e os re-interpreta. É fácil notar uma estruturação no texto através da repetição do refrão: “Ouvistes que foi dito... Porém eu vos digo...”. Assim, o evangelho de Mateus apresenta Jesus como um seguidor da Lei, mas que possui uma interpretação própria desta Lei, que diferenciava-o e a seus seguidores dos demais judeus. Os mandamentos que Jesus interpreta e radicaliza são sobre homicídio, adultério, divórcio, juramentos, vingança e amor aos inimigos. Nosso tema no momento é apenas o divórcio.

Essas observações já nos dão alguns caminhos para interpretar o texto: Jesus cita um mandamento de conhecimento de toda a sua audiência: “E foi dito: ‘O que despede sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio’”. Evidentemente ele está citando de memória uma tradição jurídica de Israel, que está baseada apenas na primeira parte do que podemos ler em Deuteronômio 24.1-4. Vou usar minhas próprias palavras para explicar esse texto: A Lei diz que um homem podia repudiar sua esposa caso não se agradasse mais dela, achando algo de inconveniente (Dt 24.1). Sem dúvida, esse “inconveniente” (hebr. ‘ervah) é uma palavra de interpretação ambígua que já nos tempos de Jesus gerava controvérsias. Poderíamos traduzir por “vergonha”, ou seguir outras traduções que o expressam por “coisa indecente”, “imoralidade sexual” ou “coisa feia”. A maneira como a interpretamos pode mudar completamente o sentido do texto, e nos dias de Jesus os homens justificavam seus divórcios associando a esta palavra qualquer motivo irrelevante (Lohfink, pp. 139-140).

Entregando à mulher uma carta, qualquer homem podia mandar a mulher embora, sem ter que dar qualquer explicação a juízes ou sacerdotes. Ela não é tão bonita quanto aquela? Tchau! Ela já não é tão jovem ou está sempre mal humorada? Adeus! Ou será que ela está com uma hemorragia que não cessa, que os curandeiros não resolvem, e por isso não lhe serve mais sexualmente? Tudo podia dar vazão a um divórcio, e a Escrituras, segundo a interpretação predominante, lhes autorizava a agir assim.

Notem que só os homens tinham esse poder. Na verdade, os textos de Deuteronômio e Mateus são escritos sob a ótica masculina, e esse é um elemento essencial para que os interpretemos. Jesus está, portanto, falando aos homens da sua geração, que certamente conheciam e aplicavam a Lei do Antigo Testamento a seus matrimônios da maneira que lhes era conveniente. Contudo, sob a ótica feminina as coisas seriam interpretadas de maneira bem diferente.

Em geral, a mulher no mundo antigo dependia economicamente do marido. Embora hoje os antropólogos acreditem que elas tinham maior autoridade na direção da casa, da família e na administração dos bens, a natural função matriarcal as impedia de viverem de maneira independente. Mulheres independentes, no antigo oriente, eram tratadas como prostitutas, mulheres de reputação questionável. Veja, por exemplo, o caso de Raabe, que é chamada de prostituta, mas que talvez fosse apenas uma mulher solteira, uma costureira independente economicamente, que vivia com sua família (Js 2.5,6,13). Como mais de 90% da população vivia do produto escasso que com muito suor tirava da sua roça, uma mulher despedida pelo marido via o novo casamento como a melhor opção de sobrevivência.

É exatamente isso que Jesus revela com suas palavras. Se o lermos com atenção, veremos que o texto diz que os homens estavam forçando as mulheres ao adultério quando se divorciavam delas (... o que despede sua mulher a faz adulterar). Mandar a mulher embora era o mesmo que obrigá-la ao novo casamento.

Outro ponto curioso: O adultério só é aplicado à mulher. Outra vez, a tradição bíblica é machista, pois os homens que despediram suas mulheres certamente tomavam outras esposas e não eram chamados de adúlteros por isso (Lohfink, p. 140). O adultério de Deuteronômio era um crime apenas feminino, e a Lei visa proteger a honra dos homens e também sua propriedade, e não a manutenção da instituição familiar, como hoje gostamos de pensar romanticamente. Esse aspecto machista da Lei Jesus não condena ou ao menos não menciona aqui, mas ele vê um mal ainda maior que estava por trás de toda essa tradição.

Depois, o texto do Antigo Testamento e o de Mateus pioram ainda mais a vida das mulheres ao dizer que um homem não pode se casar com uma mulher divorciada, ou torna-se adúltero também. Pronto! Agora, as mulheres que eram despedidas por qualquer capricho nem podiam encontrar outro marido para lhes sustentar! Os homens queriam mulheres virgens, e não repudiadas. Mas note que em minha tradução o texto diz que “... o que casa com a despedida é feito adúltero”. Deixei o texto assim de propósito, porque o verbo “adulterar” está na voz passiva, indicando que este homem que assume a mulher despedida como esposa é também vítima do primeiro marido, que a despediu.

Enfim, a Lei bíblica era seguida nos dias de Jesus, mas o resultado desta Lei era uma grande injustiça. Mulheres eram condenadas à desonra e à miséria; outras eram feitas adúlteras, assim como seus novos maridos; e tudo em nome de Deus. A verdade que Jesus traz à luz é que a mulher que se casa de novo e o homem que desposa uma divorciada, embora não sigam a Lei e sejam chamados de adúlteros, são melhores do que o religioso que com apoio nas Escrituras despediu sua mulher por qualquer motivo.

Coloquei entre parênteses em minha tradução de Mateus 5.31-32 algumas palavras que são reconhecidas por todos os estudiosos como um adendo de Mateus, porção que não estava no texto original que ele copiou de Marcos. Por meio deste acréscimo, me parece que o grupo de Mateus voltara a tolerar a “carta de divórcio” e a conseqüente punição da mulher somente em caso de “relações sexuais ilícitas”, sejam essas relações o que forem. Acho que essa correção não foi uma boa idéia de Mateus, pois esse adendo poderia gerar novas interpretações duvidosas, e invalidar toda a mensagem de Jesus conduzindo-os de volta à antiga condição. Mas deixemos esse problema de lado e sigamos à conclusão?

O Jesus de Mateus não vê problema na Lei do Antigo Testamento, embora ela seja, como já mostramos, escrita exclusivamente sob uma ótica masculina. O adultério só existia quando mulheres se envolviam com outras pessoas que não seus primeiros maridos, ou quando homens se envolviam com mulheres divorciadas. Porém, havia uma brecha na Lei que levou a hipocrisia masculina a um nível intolerável. Eles despediam suas mulheres não quando elas os traíam, mas por qualquer coisa, sem preocupar-se com a vida delas depois disso. Era uma atitude que fundamentavam citando a Bíblia, mas que na realidade era motivada por puro egoísmo, por uma completa ausência de amor humano. Jesus volta-se contra essa “brecha”, revela a crueldade que está por trás da interpretação adotada pelos homens do seu tempo.

Segundo esta leitura, a ação de Jesus não parece dedicada em primeiro plano à questão do divórcio ou ao adultério, mas à injustiça resultante de divórcios injustificados. Daí podemos fazer algumas considerações mais práticas, para que este estudo nos sirva bem no dia a dia:

1) Jesus não discute a validade da Lei, mas a interpretação que se faz dela, mostrando-nos como é fácil usar a Bíblia para justificar nossos atos injustos. Eis aí uma evidência de como é importante levar a sério o estudo da Bíblia. Em todo caso, não é preciso saber grego, mas interpretar a Bíblia juntamente com a vida, priorizando sempre o amor ao próximo, mesmo quando amar significa deixar passar algum versículo “despercebido”;

2) Se no exemplo que lemos Jesus mostrou-se contra o divórcio, foi porque o resultado deste ato era a incapacidade de ser feliz das mulheres depois de divorciadas. Hoje esse problema praticamente não existe fora da igreja, pois as mulheres são independentes economicamente, ou podem ser se assim quiserem. O mesmo argumento não pode ser empregado para defender a indissolubilidade do matrimônio nos dias de hoje;

3) Jesus não atacou diretamente a carta de divórcio de Moisés, seu problema era salvar a vida de muitas mulheres que sofriam por tal costume. Hoje, muitas pessoas querem abolir a opção do divórcio tratando-o como pecado imperdoável, mas ao fazerem isso acabam produzindo novas injustiças com pessoas que se divorciaram. Tratar quem se divorciou com preconceito, negar-lhes novas oportunidades, é em certa medida voltar à injustiça que Jesus condenou. Veja que Jesus tratou o segundo marido “adúltero” como uma vítima, e não o condenou. Meu conselho é este: prefira a companhia dos divorciados do que a companhia dos moralistas, lembre-se que Jesus andou com prostitutas, mas não com fariseus;

4) Pelo menos no texto que lemos Jesus não mudou o conceito machista de adultério que sua sociedade tinha; mas julgamos que ele estava no caminho. A busca por justiça de Jesus era também uma luta pela dignidade das mulheres. Nós já caminhamos dois mil anos e temos superado a maior parte desse problema; temos mudado essa desigualdade de gêneros e hoje reconhecemos que todas as pessoas possuem os mesmos direitos. Assim sendo, quando lemos um texto como esse em nossos dias, temos que escolher entre duas opções: Ou nós concertamos o machismo exposto na Lei bíblica negando qualquer “carta de divórcio” e aceitamos que os homens podem ser adúlteros, proibindo assim qualquer tipo de relacionamento fora do primeiro casamento, ou damos “carta de divórcio” a homens e mulheres, direitos iguais de começar de novo suas vidas em novos relacionamentos. Em ambos os casos, estejamos também conscientes de que estamos nos distanciando do que a Bíblia realmente diz; mas se optarmos pela segunda opção, ao nos distanciarmos da Lei também nos aproximamos do amor que Deus nos ensinou e que supera toda aplicação rígida de mandamentos.

Por hora já basta! Minha tentativa nestas páginas foi usar a prática exegética que geralmente é tão acadêmica, numa linguagem mais acessível. Por isso não cito textos gregos ou hebraicos, não examino variantes textuais nos manuscritos, não uso notas de rodapé, não forneço referências bibliográficas para todas as afirmações que faço, etc. Peço, então, desculpas aos amigos exegetas que esperavam tais coisas deste breve trabalho. Coloquei-me aqui a serviço da igreja, e não dos acadêmicos, coisa que raramente tenho feito. O objetivo deste estudo, que preparei em apenas 3 horas, será atingido quando ao ser lido ele dissolver algumas dúvidas comuns dos cristãos de hoje, quando ajudar as igrejas a aplicar os textos bíblicos de maneira mais coerente com as exigências da vida moderna, e quando consolar o coração de pessoas que como eu divorciaram-se, e ouviram de outros que cedo ou tarde acabariam por pagar pelo pecado cometido. Creiam que é possível ser mais feliz depois do divórcio do que antes dele, e que não há nada de demoníaco em aceitar essa felicidade.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O MUNDO DÁ VOLTAS

Nascido na periferia com uma moradia sonhou
Queria jogar na Espanha e comida e sua mesa faltou
Criado pela mãe solteira, desde cedo ele trabalhou
Amor com açoite ele teve até que a idade chegou

E o menino pobre um dia falou: Deus, como fui feliz!

Nascido bebê de provêta, teve tudo que desejou
Sua casa era grande e formosa e comida em sua mesa sobrou
Criado pela empregada, desde cedo ele mandou
Toda regalia ele teve até que idade chegou

E o menino rico um dia falou: Deus, como fui infeliz!

O mundo dá voltas. Hora é sim, hora é não
Por que tanto importa viver de ilusão?



Letra da música "O Mundo dá Voltas", que escrevi em 2007.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Escolha seu Messias

Nos primeiros anos da era cristã, o evangelho mais conhecido do mundo não era o que narra os eventos da vida de Jesus de Nazaré. O evangelho era também o termo empregado para se referir ao dia do nascimento de Otávio Augusto, imperador de Roma (30 a.C. – 14 d.C.). Há narrativas que contam que este Otávio foi concebido de maneira milagrosa, filho do deus Apolo com Ácia, sua mãe. Ele era, portanto, embora homem, um filho de deus. A data do seu nascimento também tornou-se notória com o advento da boa nova, e a província romana da Ásia Menor passou a celebrar o ano novo em 23 de setembro. Augusto era o Messias dos romanos, e apresentava-se como salvador adornado por grande riqueza enquanto sustentava sua hegemonia através de incomparável poderio militar.

O evangelho de Jesus de Nazaré, não tão original como gostaríamos que fosse, repete de maneira inegável alguns dos principais elementos que constituem as narrativas da vida de Augusto. Neste caso, não queremos discutir a questão da veracidade ou falsidade de uma ou outra narrativa, pois nenhuma delas nos dá condições de julgar sua historicidade, já que ambas, a que gostamos e a que repudiamos, foram igualmente escritas para servir de propaganda literária para pessoas que já eram veneradas. O irlandês estudioso do cristianismo primitivo John Dominic Crossan ressalta com razão, que a escolha de uma dessas narrativas e a afirmação de que a outra é falsa, é um problema ético.

Mas nestas linhas a comparação entre as duas propagandas que chamamos de messiânicas nos serve para destacar outro aspecto. De maneira muito apropriada, os cristãos primitivos fizeram questão de utilizar-se de fatores sócio-econômicos completamente contrários aos da narrativa de Augusto para narrar as ações do seu próprio Messias. Contrariando todas as expectativas humanas, alguns judeus adotaram como Messias um homem que nascera num recipiente utilizado para alimentar os animais, que trabalhara em atividade braçal num pequeno vilarejo da Galiléia, que jamais teve grandes posses e que para piorar, foi condenado por rebelar-se contra o império e crucificado ao lado de bandidos, com os quais os seus algozes certamente o confundiam.
Entretanto, com o tempo a estranheza do Messias de Nazaré foi sendo “corrigida”. A igreja transformou a imagem da manjedoura em esculturas coloridas; a cruz, instrumento de tortura e morte, foi banhada em ouro e tornou-se estandarte de poder; a comunhão de mesa onde os amigos dividiam pão e vinho tornou-se um verdadeiro culto aos mortos; e aquele que não tinha onde reclinar a cabeça passou a ser indiretamente o dono de suntuosas obras arquitetônicas. Enfim, embora sempre se pensou que o Messias dos camponeses venceu o Messias imperial, concluímos que na verdade muitos adoram o divino imperador chamando-o de Jesus.

Procuro não me importar com a opção religiosa que as pessoas fazem, pois considero pura soberba dizer que só eu tenho a “verdade”; mas me incomoda a maneira como essa sutil inversão messiânica produz consequências negativas no cristianismo que nos rodeia. Coerentes com a opção consciente ou inconsciente pelo Messias imperial, os cristãos de hoje acreditam que a paz pode ser feita por meio da espada, que a justiça divina se realizará pelo extermínio violento de todos aqueles que não adoram o seu imperador, crêem que a vinda do reino messiânico significa prosperidade, e que toda autoridade imperial é digna de irrestrita submissão.

Ora, só posso fazer agora o apelo óbvio que continuamente fazemos, para que voltemos a Jesus de Nazaré, o galileu que sempre continuará escandalizando aqueles que o compreendem. Nosso Messias foi um homem pobre, que chamava de bem-aventurados os miseráveis ou indigentes, e nos estimulou a aceitar a simplicidade em nome da igualdade humana.

Como escreveu J. D. Crossan, temos que escolher nosso Messias, seja ele alguém como o antigo imperador Otávio Augusto ou Jesus de Nazaré, cada um com sua própria proposta de salvação. Acrescento que não há nada de errado se você quer confiar no Messias imperial, mas que gostaria que se esse for o caso, que o chame de Augusto ou qualquer outro nome nobre, e não de Jesus. Quem escolhe Jesus, deve comprometer-se a lutar contra o domínio imperial e contra toda desigualdade humana, pois este é o caminho por ele indicado. Agora de maneira consciente, escolha o seu Messias e corra atrás da sua salvação.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

JOGANDO PELO EMPATE

Notei que é com grande intensidade que todos almejam a vitória. Somos treinados desde a infância a desejá-la mais que tudo; estamos acostumados a parabenizar e admirar os vencedores, e sonhamos com a nossa vez. A constatação seguinte é que a vida, em grande medida, não passa de uma constante batalha rumo à vitória. O curso universitário é para muitos apenas uma vereda que precisa ser trilhada para se alcançar essa posição, e não uma preparação para uma carreira profissional competente. Lêem-se cada vez mais livros de auto-ajuda não por serem boas literaturas, mas porque são manuais que prometem nos mostrar caminhos eficazes para nos tornarmos vencedores. E as loterias então, meios eficientes para arrecadar dinheiro de sonhadores. O mesmo pode ser dito até dos relacionamentos amorosos e das religiões, afinal, se não vencemos nessa vida, consolemo-nos com a esperança de que seremos vencedores pelo menos na próxima...

Todavia, há um problema a se considerar neste assunto: O verbo vencer pertence a um contexto próprio, o dos jogos, dos estádios, das competições, e não me parece que tenha sido criado para ser aplicado a todas as áreas da vida como hoje fazemos. Consideremos por exemplo um campeonato de futebol: Vinte equipes disputam um único prêmio. Mesmo que todas elas desfrutem da sensação momentânea de vitória ao derrotarem outra equipe nalguma partida, no final do campeonato há um só vencedor e dezenove perdedores. As chances são poucas, portanto. Isso é pior ainda se pensarmos que não basta vencer o campeonato de futebol se ele não for o da primeira divisão, o que quer dizer que não são apenas dezenove os perdedores, mas centenas de equipes que sonham em um dia conquistarem aquele que é o maior prêmio do futebol. Mas o campeão nacional é também um provável perdedor no cenário internacional, e assim, o funil vai se estreitando até que quase todo mundo perde.

Bem, o que quero dizer é que há uma expectativa de vitória em nós que para a grande maioria da população nunca será satisfeita plenamente. Lutamos para transformar os outros em perdedores, mas parece que sempre há alguém capaz de nos superar. A solução que encontramos para não vivermos decepcionados com nossos fracassos é inventar nossos próprios campeonatos. Se eu não posso vencer nos grandes campeonatos da vida, eu venço um pequeno torneio que inventei em que só eu e outro, que naquela atividade posso superar, competem. Quer exemplos? Se eu não posso ser um grande atleta como aqueles que são exaltados na tv, treino no videogame mesmo e chamo meu vizinho para que eu o detone. Se eu não posso ser líder de grandes equipes em uma multinacional, me satisfaço dando ordens para os dois funcionários da pequena empresa que montei ao me endividar com um empréstimo. Se eu não pude ser pastor de uma grande igreja, alugo o salão do bar que fechou na minha rua e me torno o guia espiritual da minha família e mais meia dúzia de pessoas; e mais, se essa nova grande denominação não der certo, reduzo minhas metas pessoais e luto para ser o grande detentor do direito de estar à frente do importante ministério de vender pipocas na cantina de alguma igreja. Tudo isso é loucura, nós forjamos vitórias insignificantes e lhes damos grande valor, mas no final continuamos perdendo as grandes batalhas. Mas esse é o meio que encontramos para sobreviver bem conosco.

Penso que essa competitividade que nos domina e é tão estimulada traz mais prejuízos que benefícios à sociedade. As pessoas brigam no jogo de futebol do campo mal-acabado do bairro como se aquele jogo fosse a coisa mais importante das suas vidas, se ofendem mutuamente por causa dos videogames, encerram amizades porque alguém roubou seu lugar atrás do importante carrinho de pipocas que contribuía mensalmente com vinte reais para o trabalho social da igreja. Na verdade, os conflitos foram criados pela importância exacerbada que damos a condição do vencedor.

Na antiguidade bíblica, entre a maior parte da população, que era camponesa e em geral produzia apenas o necessário para a própria subsistência, acreditava-se que os bens eram limitados. Isso quer dizer que para eles, agricultores que não tinham tratores ou defesas contra pragas, a natureza só podia produzir o suficiente para que todo ser humano vivesse. Em decorrência desse senso comum, os pobres viam as elites como inimigas, pois se os ricos tinham mais do que realmente precisavam, estavam tirando o que era necessário para outrem. Não se reconhecia méritos na riqueza; o rico não era alguém que venceu na vida e merece admiração, mas alguém que de maneira avarenta tirou o que devia estar nas mãos de outros. Daí lemos na Bíblia que não se deve acumular bens sobre a terra (Mt 6.19-21), pois isso é avareza; lemos que os ricos dificilmente entram no reino de Deus (Lc 18.25), pois promovem a miséria. Não acho que eles estavam completamente certos, nem completamente enganados, mas hoje as coisas são bem diferentes. Geralmente, mesmo entre os pobres, os empresários de sucesso tornam-se grandes celebridades, exemplos que devem ser seguidos. As palestras dos administradores que obtiveram grandes lucros são as mais procuradas (afinal ele deve saber o caminho da vitória), e já não nos perguntamos se eles enriqueceram às custas dos outros. Se os funcionários dos grandes supermercados permanecem estacionados na pobreza exercendo a função de duas pessoas pela metade do salário, não importa, nós nunca nos colocamos no lugar dessas pessoas exploradas, sempre nos imaginamos no topo, no lugar do presidente da empresa. A riqueza agora é uma vitória, e as vitórias são sempre bênçãos de Deus, mesmo quando há muita sonegação de impostos e exploração da pobreza e do alto desemprego do país.

Vejam que coisa interessante escreveu o apóstolo Paulo, que era um judeu helenista habitante dos ambientes citadinos onde se construíam os ginásios de esportes: “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível” (1Co 9.24-25). Por um lado ele reconhece que a competitividade humana, geralmente conflituosa, gira em torno de coisas sem valor. No entanto, Paulo pensava ser alguém que competia por algo que realmente tem valor, uma coroa incorruptível. Ao empregar esta metáfora, ele demonstra que como homem de certa forma elitizado, morador das cidades, que estava entre os poucos alfabetizados do seu tempo, que fora treinado para ser um mestre entre os judeus da diáspora, também estava infectado por essa doença que é a competitividade humana. Até Paulo almejava sempre a vitória, e exortava os ouvintes a só se contentarem com a vitória. A derrota é, ainda hoje, como ir para o inferno.

Vamos piorar as coisas. Jesus também, para falar de coisas transcendentes, usa frases que nos permitem ver como ele e seus seguidores, homens marginalizados que ansiavam por condições de vida mais digna na terra, lamentavam seu presente estado de derrotados sociais. Ele diz que no reino de Deus as coisas seriam diferentes, que os últimos seriam os primeiros (Mc 10-31). Esta inversão de papeis obviamente não resolveria o problema da desigualdade nem mesmo no reino de Deus, mas castigaria os opressores e tornaria aqueles derrotados em vencedores. No texto já citado de Mateus 6.19-21, o estímulo para que acumulemos tesouros no céu também implica a desigualdade entre os habitantes celestiais. Se até no céu alguns possuem tesouros e recebem galardões, as diferenças entre classes permanecerão. Na verdade não creio que no céu exista tais distinções, mas infelizmente até a religião, como fenômeno humano, expressa-se por meio da linguagem humana que sempre está mergulhada na competitividade, que alimentada pela ganância e pelo egoísmo, é o alicerce da desigualdade.

Eu diria que nós precisamos urgentemente aprender que vencer não é essencial. Temos que nos acostumar com a realidade, que nem sempre permite que sejamos os primeiros. Temos que abandonar a ânsia cega pelos primeiros lugares, que transformar nossa visão competitiva de mundo e compreender que todos, tanto os primeiros como os últimos, são filhos de Deus. Gostaria que no lugar da competitividade, vivêssemos pela mutualidade. Não é 1Coríntios 9.24 que devia nos guiar, mas textos como Lucas 3.11, onde João Batista diz: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3.11). Nossa luta real é contra nós mesmos, e temos que nos empenhar para derrotar nossas fraquezas e nos aproximar do nosso criador, sabendo que no final, o primeiro lugar no pódio de Deus cabe todo mundo. Quanto às relações interpessoais, tentemos nos livrar dessa cultura competitiva que nos conduz a tantos conflitos internos e externos, vamos aprender a lutar pelo empate, o único resultado capaz de deixar todos felizes.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A PALAVRA DE DEUS E A INTERMEDIAÇÃO HUMANA

Senti a necessidade de escrever sobre este tema porque novamente me defrontei com a dificuldade que os leitores cristãos sentem quando precisam lidar com a Bíblia como ela realmente é. Quero dizer que quando estou falando sobre os textos bíblicos e por acaso tenho que ser honesto e dizer, por exemplo, que muitas referências geográficas dos textos estão equivocadas, que os dados históricos dos evangelistas não condizem com a verdade, que os detalhes topográficos geralmente não passam de estratégias usadas pelos escritores bíblicos para ilustrar suas narrativas, vejo nos olhares dos meus ouvintes que o que digo causa-lhes consternação. Pior ainda fica quando vemos uma profecia não cumprida, uma contradição irreconciliável entre dois textos sinóticos, ou quando temos de admitir que algum herói bíblico provavelmente não passa de um personagem fictício, que algum texto que incita a violência não devia estar na Bíblia..b. Este choque, com o qual provavelmente terei de lidar durante toda a vida, é um problema que merece nossa imediata atenção.

Talvez este primeiro parágrafo tenha lhe causado náuseas. Talvez estejas me pedindo provas do que digo. Não temos tempo para exemplificar tudo isso aqui, mas se este foi o seu caso, o que tenho a dizer ser-lhe-á muito útil.

Os cristãos evangélicos estão bastante familiarizados com os sermões. Todas as semanas eles ouvem pregadores abrirem as Bíblias e a partir da leitura desenvolverem suas admoestações que visam edificar a vida dos ouvintes. Nesta prática é comum ouvirmos os preletores afirmarem que o que dizem é Palavra de Deus. Os pregadores sabem que o processo para a preparação de um sermão exige boa dose de meditação e trabalho humano; sabem também que ao longo dos anos eles evoluem, e que sempre há sermões pregados que não pregariam outra vez. Mesmo assim, sabendo que o exercício da pregação é uma prática tão humana, o resultado é fundamentado sobre a autoridade divina. A igreja também sabe disso. Todo ouvinte experimentado pode se lembrar de coisas boas e ruins que já ouviu através dos sermões, e nem por isso se questiona a autenticidade dessa Palavra de Deus. O ouvinte sábio está consciente de que deve reter apenas o que for bom, atribuindo as demais coisas à mente do pregador, que é humana e, portanto, propícia aos erros.

Agora, pergunto onde é que está a diferença entre o sermão pregado nas igrejas praticamente todos os dias e a Bíblia? Não são ambas Palavras de Deus? Na verdade, os cristãos sem notar criam diferentes níveis de Palavra de Deus. Há uma Palavra de Deus que é inerrante, imutável, perfeita... esta é a Bíblia; e há também a Palavra de Deus que é intermediada pelos homens, os sermões, que podem ser recebidos com algum senso crítico. A questão é que essa distinção entre as diferentes categorias de Palavras de Deus é totalmente arbitrária, sem critérios, irracional. Todos sabemos que a Bíblia, assim como os sermões, foi criada através da intermediação humana, o que a torna uma criação conjunta de Deus e homens. Não podemos assegurar que a Bíblia, uma verdadeira coleção de sermões de dois milênios de idade, é superior àquilo que hoje se recebe de Deus.

Outra vez a nossa tradição religiosa, nossas heranças católicas e medievais que nos legaram o canôn e muitos outros dogmas, nos enganaram. Elas nos levaram a ignorar a real constituição do livro que chamamos de Palavra de Deus. Deixe-me dizer que tenho dedicado minha vida ao estudo e ensino dos textos bíblicos; que acredito que ela é a Palavra de Deus e que sua mensagem pode transformar o mundo; todavia, aprendi a encarar os fatos. A Bíblia, penso, foi criada por iniciativa divina, mas tal criação foi fortemente influenciada pela intermediação humana pela qual passou. Agora, quando lemos a Bíblia, temos que lê-la como se estivéssemos ouvindo a sermões antigos, procurando separar aquilo que Deus ali colocou para nos guiar daquilo que os homens, fazendo o melhor que podiam, incluíram por conta própria e permissão de Deus.

Gostaria muito, se for o caso, de me sentar ao lado do meu leitor a partir de agora e começar a ler a Bíblia com essa postura sóbria que proponho. Descobriríamos juntos como Deus falou e continua falando através dos homens, com a finalidade de que o buscássemos aqui mesmo, no cotidiano, no convívio com pessoas que têm sido sensíveis ao seu Espírito.